“Toda a gente deixou de acreditar em nós”: o “caminho silencioso” do SC Braga até ao sucesso europeu foi uma questão de autoestima
Ricardo Horta e a restante equipa a festejam o apuramento em Sevilha
Fran Santiago
A chegada à meia-final confirma que a Liga Europa está a ser o refúgio da época do SC Braga. Os guerreiros vivem o momento mais alto da temporada após terem sobrevivido a traumatizantes deslizes nas taças. Um raspanete de António Salvador e a paciência com o “injustiçado” Carlos Vicens foram etapas marcantes num percurso repleto de uma crença que veio mais de dentro do que de fora
“Tenho que vir aqui dar a cara e pedir desculpa aos nossos sócios.” O ambiente ficou tenso após a eliminação da Taça de Portugal. O SC Braga tinha acabado de perder em Fafe, contra uma equipa da Liga 3. “Demos zero”, considerou António Salvador num momento ainda mais pesado por se ter seguido à derrota na final da Taça da Liga frente ao rival Vitória SC. “Quem não tiver honra, vontade, ambição e orgulho não vai ter lugar neste clube.”
O ultimato arrebitou a equipa Carlos Vicens que, desde o início de janeiro, período da hecatombe, atinou no campeonato ao ponto de assumir o 4º lugar que até então pertencia ao Gil Vicente. Na Liga Europa, nunca faltou consistência. A fase de liga, onde os arsenalistas chegaram após terem ultrapassado três pré-eliminatórias, correu de feição. Tendo vencido cinco jogos, empatado dois e perdido apenas um, o SC Braga terminou no sexto lugar com 17 pontos e com o privilégio de não ter que passar pelo play-off de acesso aos oitavos de final.
O cenário internacional foi o refúgio da época e será igualmente a maior fonte de dividendos de 2025/26. Ao eliminar o Real Betis, o SC Braga apurou-se para as meias-finais da Liga Europa, onde vai enfrentar o SC Freiburg na expectativa de repetir a presença na final, tal como aconteceu em 2011, contra o FC Porto.
Agraciado com a paciência da direção, Carlos Vicens retribuiu com um feito notável. “Dá para perceber que os jogadores acreditam na ideia. Já passámos momentos difíceis no que toca aos resultados e sempre senti o apoio do clube. O clube acredita que precisamos de tempo para haver adaptação”, enalteceu junto da DAZN.
Carlos Vicens estreou-se esta época no banco do SC Braga. Desde a tumultuosa saída de Artur Jorge, que esteve 641 dias no cargo, que os minhotos procuravam estabilidade na liderança da equipa. Rui Duarte foi um penso rápido para tratar a ferida deixada pelo técnico que saiu para o Botafogo. No início de 2024/25, António Salvador apostou em Daniel Sousa que fez apenas quatro jogos antes de outra polémica desvinculação. Surgiu então o bombeiro Carlos Carvalhal que guiou o SC Braga até ao final da época.
Os minhotos não estavam numa meia-final europeia desde 2011
Europa Press Sports
O treinador espanhol foi o 23º técnico diferente na era António Salvador, dirigente que assumiu a liderança do clube com o também espanhol Fernando Castro no banco de suplentes e, desde então, não investiu num estrangeiro ao longo dos 22 anos de presidência. “O nosso treinador tem sido incansável e, muitas vezes, injustiçado pela comunicação social e por muitos críticos”, defendeu António Salvador no Estádio La Cartuja, em Sevilha. “Temos feito um caminho silencioso. Muitas vezes, nem dão conta de que nós existimos. O que é certo é que estamos na meia-final da Liga Europa.”
Desde a final de Dublin, o SC Braga chegou seis vezes à fase a eliminar da Liga Europa, tendo caído duas vezes nos quartos de final. Em 2015/16, foi eliminado pelo Shakhtar Donetsk. Cinco temporadas depois, voltou a essa fase da competição, caindo perante o Rangers. O sucesso em Sevilha permitiu furar de novo essa barreira.
A tranquilidade atingida no campeonato – o SC Braga está agora com cinco pontos de vantagem face ao Gil Vicente e o 3º lugar encontra-se a 17 irrecuperáveis pontos – permitiu gerir. Em relação à vitória na 29ª jornada da I Liga, frente ao Arouca, Vicens promoveu cinco alterações no onze inicial para o duelo da 2ª mão com o Real Betis.
Os jogadores do SC Braga foram “realmente guerreiros”, vincou Vitor Carvalho à DAZN num momento de autoestima. “Toda a gente deixou de acreditar em nós, mas nós acreditávamos que podíamos fazer grandes coisas.”