O alcance do scouting, as vendas e a evolução constante: o racional sucesso do Torreense na Taça de Portugal
Os jogadores do Torreense a festejarem a passagem à final da Taça de Portugal, diante dos seus adeptos
Gualter Fatia
O Torreense regressou à II Liga em 2022/23, competição da qual esteve ausente durante 24 anos. De olhos postos no mercado espanhol, francês e brasileiro, todas as épocas tem avançado degraus rumo ao topo do futebol nacional ao mesmo tempo que se sustém com transferências na casa dos milhões. A final da Taça de Portugal, contra o Sporting, é um elogio à política desportiva adotada
Em 2026, o Carnaval de Torres Vedras foi adiado. Planeado para 12 a 18 de fevereiro, as tempestades obrigaram a uma mudança para 30 de abril a 3 de maio. De forma a compensar a demora na entrega da folia, o clube da terra concedeu um momento histórico à região.
O Torreense tornou-se a sétima equipa de escalões inferiores a atingir a final da Taça de Portugal, algo que não acontecia desde 2010, quando o Desportivo de Chaves chegou ao Jamor. A equipa do Oeste também já lá tinha estado, em 1956, quando perdeu para o FC Porto (2-0). Nessa mesma época, terminou num inédito 7º lugar, na I Liga.
Desde que regressou à II Liga, onde compete atualmente, o Torreense encontra-se numa trajetória ascendente. O regresso, 24 anos depois, aconteceu na época 2022/23 e o então campeão da Liga 3 não teve dificuldade em garantir a manutenção, terminando no 9º lugar. Nas épocas seguintes ficou em 7º e 5º, confirmando a tendência de um percurso de evolução constante.
Um fortalecimento cardíaco não teria sido um mau investimento. Além das emoções da Taça de Portugal, o emblema azul-grená está igualmente envolvido na luta pela subida de divisão. A quatro jornadas do final, encontra-se no 3º lugar (49 pontos), que dá acesso ao play-off de promoção. Isto caso não consiga acesso direto à I Liga, visto que o Académico de Viseu está a apenas quatro pontos de distância.
O topo da lista de jogadores mais utilizados pertence a Javi Vázquez, lateral que, contra o Fafe, atingiu os 36 jogos. Outro espanhol, Manuel Pozo, autor do golo da 1ª mão, encabeça os melhores marcadores da equipa. O futebol do país vizinho não tem passado despercebido ao departamento de scouting.Unai Pérez, Arnau Casas, Alejandro Alfaro e Musa Drammeh também têm a cidadania no outro lado da Península Ibérica, além do colombiano Luis Quintero, oriundo do Villarreal. A invulgar abrangência da pesquisa alcança também os melhores clubes brasileiro (Léo Azevedo foi formado no Palmeira e no Corinthians) e franceses (em 2025/26, Mohamed Ali-Diadié ainda fez um jogo pelo Stade de Reims).
Stopira, central de 37 anos, é o capitão de equipa
Gualter Fatia
O meticuloso recrutamento demonstra ser proveitoso para o desempenho desportivo, mas também para a sustentabilidade. Nas últimas três épocas, o Torreense realizou cinco vendas. A mais significativa aconteceu este verão e levou Elie N'Tamon, central costa-marfinense, para o Stade de Reims por €2 milhões. O valor ultrapassou o preço que Vando Félix custou ao Vitória SC na época anterior (€1,2 milhões). O clube fez ainda encaixes com Dani Bolt (€400.000), Marvin Elimbi (€500.000) e Keffel (€150.000).
Os rendimentos coincidiram com a chegada de André Sabino ao cargo de diretor-desportivo. Desde que, em 2019, o clube comprou a maioria do capital da SAD ao empresário chinês Qi Chen que se têm verificado sucessivos ajustes na estrutura. Nuno Carvalho é atualmente o presidente da SAD, após a saída de André Baptista por motivos pessoais.
Sem conseguirem equilibrar o plantel face à forte influência estrangeira, o toque nacional - exceção feita aos experientes David Bruno, Costinha e Pité - é dado por jogadores oriundos dos sub-23, escalão no qual o Torreense é campeão. André Simões foi titular nos dois jogos da meia-final com esse estatuto.
A ambição ajustada
Assegurada a segunda presença de sempre no Jamor, cabe ao Torreense contrariar quem se atreveu a dizer que a Taça de Portugal se decidiu na outra meia-final, entre Sporting e FC Porto. “Não temos nada a perder. O Sporting é uma grande equipa, com todo o respeito, mas não vamos jogar para perder. Vamos jogar para ganhar“, afirmou o capitão Stopira. A convicção do central de 37 anos é de quem não conhece o significado da palavra impossível. Em outubro, estava a marcar no jogo que garantiu a primeira presença de Cabo Verde no Mundial. Desta vez, selou a vitória frente ao Fafe como novo golo.
O treinador Luís Tralhão substituiu Vítor Martins a meio da época
CARLOS BARROSO
Luís Tralhão, treinador vindo dos sub-23 que completou um trajeto iniciado por Vítor Martins, considera que “seria desonesto” acreditar que o Torreense tem tantas hipóteses de vencer a Taça de Portugal como o Sporting. “Vamos tentar dignificar as cores do Torreense”, garantiu mesmo assim.
Quando tudo parecia descambar, o técnico de 47 anos fez esquecer o ciclo de seis derrotas para o campeonato que levou à saída do seu antecessor e redirecionou o clube. Em 17 jogos para todas as competições, ganhou 11, empatou três e perdeu três. No banco de suplentes tem sido mais difícil para o Torreense encontrar estabilidade. Desde que subiu à II Liga, Luís Tralhão é o sétimo treinador que passou pelo cargo, exigência de quem tem em vista o escalão principal.
Recentemente, o clube aprendeu a ganhar. O mote foi dado pela equipa feminina que, nas últimas duas épocas, conquistou uma Taça de Portugal, uma Taça da Liga e uma Supertaça. No futsal, igualmente à responsabilidade da SAD, o conjunto do Oeste também se encontra na 1ª Divisão.