Futebol nacional

Prémios de €1 milhão, chantagens e pressões. O que revelam as mensagens e áudios sobre a arbitragem investigados pela PJ?

Prémios de €1 milhão, chantagens e pressões. O que revelam as mensagens e áudios sobre a arbitragem investigados pela PJ?
Ben Stansall

A Polícia Judiciária está a investigar os casos mais recentes relacionados com a arbitragem em Portugal, avançou o “Correio da Manhã”. Vários árbitros foram ouvidos e terão aceitado ceder às autoridades conversas dos respetivos telemóveis onde se fala de prémios chorudos para dirigentes, pressão para a escolha do árbitro do FC Porto-Benfica e ajudas ao Estrela da Amadora. Duarte Gomes, antigo diretor técnico nacional, relata à RTP acontecimentos de “grande gravidade institucional”

No final de junho, Duarte Gomes demitiu-se do cargo que ocupava na Federação Portuguesa de Futebol. A saída do então diretor técnico nacional da arbitragem foi a primeira gota de água da tempestade. Áudios e mensagens. Chantagens e pressões. A Polícia Judiciária (PJ) está a investigar, avançou o “Correio da Manhã”, casos que podem colocar em xeque o setor.

Segundo o jornal, já vários árbitros foram ouvidos e aceitaram entregar os respetivos telemóveis para a recolha de material de interesse para o caso. A partir deles, a PJ reuniu indícios de que podem ter sido oferecidos prémios na ordem de €1 milhão a dirigentes da arbitragem a troco do benefício a certos clubes.

A informação a que o jornal teve acesso dá conta de exemplos concretos em que terão existido condicionalismos. O FC Porto-Benfica da Taça de Portugal terá sido um dos encontros em que o processo de escolha do árbitro foi alvo de pressão. De acordo com as conversas ao dispor das autoridades, os dragões tentaram evitar que Fábio Veríssimo ficasse encarregue do clássico, sendo que a estrutura da FPF estava disponível para satisfzaer a exigência dos azuis e brancos. Terá sido a insistência do presidente do Conselho de Arbitragem, Luciano Gonçalves, a garantir que Veríssimo conduziria o duelo dos quartos de final da competição.

Apesar de considerar “incompreensível”, "imprudente" e “desnecessariamente arriscada“ a nomeação de Fábio Veríssimo por se tratar de um árbitro que tinha ”pendentes processos” com o clube, o FC Porto esclareceu que "não nomeia árbitros" e “não interfere nas decisões do Conselho de Arbitragem”. Em comunicado, os azuis e brancos relembrou que na altura própria “manifestou, pública e institucionalmente, a sua estranheza e indignação”. “Não houve qualquer ação escondida, pressão clandestina ou interferência”, frisou o emblema nortenho.

Voltou também de novo à tona o eventual envolvimento do Estrela da Amadora, nomeadamente de Paulo Lopo que foi homenageado recentemente pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) ao deixar a presidência da SAD do clube da Reboleira. Alegadamente, terá sido prometido a Hélder Malheiro mais uma época na I Liga se beneficiasse os tricolores. Quando confrontado pelo árbitro sobre a veracidade da oferta, Luciano Gonçalves terá confirmado.

Hélder Malheiro terminou a carreira no final da época 2025/26. O árbitro que estava na primeira categoria desde 2010 e utilizava as insígnias da Associação de Futebol de Lisboa atingiu a idade limite para desempenhar a função. Ainda assim, caso o Conselho de Arbitragem aprove, os juízes podem estender excecionalmente a carreira até aos 50 anos.

O Conselho de Justiça da FPF já se tinha debruçado sobre este tema. Da mesma forma, foi avaliado se Luciano Gonçalves concedeu ao Estrela da Amadora, envolvido na luta pela permanência na I Liga, informação antecipada sobre a nomeação dos árbitros. O organismo decidiu arquivar o caso por falta de provas.

Acontecimentos de “grande gravidade institucional”

Hélder Malheiro soube que estava nomeado para um jogo do Estrela da Amadora por uma pessoa externa ao Conselho de Arbitragem e próxima do clube da Reboleira e decidiu comunicar a informação a Duarte Gomes. Perante os dados, o diretor técnico nacional demitiu-se e expôs o sucedido.

Numa entrevista à RTP, Duarte Gomes revela que soube de “um conjunto de situações com comprovação factual e probatória” quando ainda estava em funções. “Condutas com as quais não me revejo”, assim descreveu o cenário em torno da arbitragem que levou à sua saída.

“Fiz um conjunto de diligências no sentido de ficar tranquilo e esclarecido em relação às coisas que aconteceram, que considerei de grande gravidade institucional. Depois desse conjunto de diligências, não só não recuperei a tranquilidade, como aprofundei as minhas dúvidas e receios”, afirmou ao canal público.

Duarte Gomes entrega à justiça a avaliação do caráter criminal dos acontecimentos, mas garante que cedeu à investigação o material que o preocupou.

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