Jogos Olímpicos de Inverno 2026

A descer aos ‘s’ e com zumbido: o primeiro ouro nos Jogos é de um carpinteiro suíço

Aos 24 anos e só com quatro vitórias na carreira em provas da Taça do Mundo, Franjo Von Allmen é o novo campeão olímpico
Aos 24 anos e só com quatro vitórias na carreira em provas da Taça do Mundo, Franjo Von Allmen é o novo campeão olímpico
Dustin Satloff

Franjo Von Allmen conquistou a primeira medalha de ouro dos Jogos Olímpicos de Inverno em Milão-Cortina d’Ampezzo na prova de downhill. No alto dos pitorescos Alpes italianos, o esquiador suíço superou o compatriota e favorito, Marco Odermatt, anterior campeão olímpico que nem às medalhas chegou. A anfitriã Itália ficou com a prata e o bronze

No enquadramento estão cordilheiras de montanhas altas pontuadas por branco. Lá no alto, ocasionais nuvens pintalgam a tela do céu azul e o verde das árvores ladeia a sinuosa descida. Por mais assustador que se apresente com a sua vertiginosa descida espraiada num tapete de neve cheio de curvas, o cenário do downhill em Milão-Cortina d’Ampezzo também tem muito de pitoresco. Por um segundo, ninguém levaria a mal que uma pessoa se distrair com a paisagem.

O primeiro evento para medalha dos Jogos Olímpicos de Inverno estava marcado logo para a manhã seguinte à cerimónia de abertura em San Siro, um estádio de futebol que a organização aperaltou para lhe colocar o cognome de olímpico. No declive de Bromio dentro da estândia de Stelvio, umas três horas de carro a norte, a boniteza veste-se de enganadora: a pista de esqui alpino, com uma extensão de 3442 metros, implica uma descida que os atletas percorrem na casa do minuto e 50 segundos para suprimirem um pouco mais 1000 metros em altitude.

Assusta vê-los a serem ápices humanos, curvando, dobrando e inclinando o corpo sobre esquis numa descida aos ‘s’ em que torneiam as portas - aquelas bandeiras presas a dois pequenos postes - com as mais largas trajetórias das variantes do esqui alpino: as outras são o super G, o giante slalom e o slalom. Com um salto de uns 50 metros pelo meio, cedo a prova monta uma surpresa.

Ouro em Pequim, há quatro anos, a descida não beneficia Marco Odermatt, líder esta época o ranking em três das quatro disciplinas do esqui alpino e cujo tempo de 1:52.31 o deixa fora das medalhas quando ainda restavam dois terços dos atletas competirem. Tricampeão mundial e com 53 vitórias em provas da Taça do Mundo, o suíço esforça o desvendar de dentes, quem é como quem diz um sorriso amarelo, quando já sentado está a ver as prestações dos adversários.

Quem mais provocou a presença do zumbido que deu banda sonora à prova, indo além dos 140 quilómetros por hora na descida e obrigando os drones a darem às asas na perseguição, foi um conterrâneo seu. Dos primeiros a atacar a pista, Franjo Von Allmen completou o trajeto em 1:51.61 segundos, trocou o capacete por um gorro com a cruz da bandeira da Suíça bordada e esperou que os 36 esquiadores cumprissem a única descida a que tinham direito.

O contraste que já representava Von Allmen ficou-lhe estampado na cara. Segundo classificado atrás de Odermatt na Taça do Mundo desta época, com menos quatro anos desta vida (tem 24) e um currículo incomparável (quatro vitórias na carreira em downhill), deixou-se estar sorridente na cadeira no sopé da pista, sentado à espera do desfecho do concurso a corresponder a cada solicitação das câmaras para dar um “oi” bem-disposto ao público lá em casa. Pudera: aos 17 anos perdeu o pai e teve de criar campanhas de angariação de fundos para financiar a carreira e hoje, nos meses de verão, trabalha nas obras como carpinteiro.

E não assim há tanto tempo, ficava bastante atrás de Jannik Sinner em provas de esqui alpino, quando o nascido na Itália que já se confunde com a Áustria ainda não tinha optado pelo ténis.

O constante zoar acompanhou quem o tentou igualar, sem sucesso. O italiano Giovanni Franzoni ficou perto, a 20 centésimos (1:51.81) de dar o primeiro ouro ao país anfitrião, seguido de Dominik Paris, outro transalpino (1:52.11) - são, respetivamente, o terceiro e o quarto classificados da Taça do Mundo de downhill esta temporada, provando que o mundo não está assim tão ao contrário à exceção de Marco Odermatt, incapaz de traduziu os 115 pontos de vantagem nesse ranking para a neve olímpica.

A mais rápida das disciplinas do esqui alpino volta a distribuir medalhas no domingo (a partir das 10h30), quando o quadro impressionista da de Bromio acolher as mulheres na sua pista. E uma surreal história que lá vai sendo esculpida: Lindsey Vonn, multititulada esquiadora de 41 anos, reformada e saída da reforma, chegará com o terceiro melhor tempo nos treinos após romper o ligamento cruzado anterior de um joelho na semana passada. Os drones que se preparem.

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