Jogos Olímpicos de Inverno 2026

Faiz Basha, nos Alpes olímpicos a serpentear pela Singapura

Faiz Basha, nos Alpes olímpicos a serpentear pela Singapura
Klaus Pressberger

O atleta que sofreu uma lesão intestinal e teve de treinar de patins vai ser o primeiro do seu país, Singapura, a competir nos Jogos Olímpicos de inverno

Já lá vai o tempo em que o esqui alpino era sinónimo de Alpes, neve e tradição. O mundo evoluiu, o clima mudou e começa a ser cada vez menos raro ver atletas nos Jogos Olímpicos de inverno oriundos de países onde os termómetros nunca conheceram valores negativos. É o caso de Faiz Basha, natural de Singapura.

Na verdade, Basha cresceu longe do calor húmido da sua terra natal e passou a infância na Suíça, onde os pais trabalhavam como diplomatas. Ali, onde esquiar não era excentricidade, antes currículo, aprendeu a deslizar quase ao mesmo tempo que aprendeu a andar, como contou ao Olympics.com. Cedo ganhou fama de miúdo atrevido, daqueles que descem a montanha como quem desafia a vida.

O treinador francês Gilles Balthazar foi o primeiro a ver nele mais do que talento juvenil: viu potencial olímpico. Para Basha, a ideia foi tão estranha quanto fascinante. Representar Singapura num desporto de neve? Porque não?

Com o forte incentivo e apoio dos pais, o jovem singapurense dedicou-se a apurar a técnica de serpentear as montanhas brancas numa velocidade vertiginosa que, em certas alturas, pode atingir os 130 km/h.

Um acidente que quase lhe apagou os sonhos

Mas o caminho quase sempre tem pedras e os sonhos têm um preço. Aos 14 anos, um acidente brutal contra uma cerca rasgou‑lhe parte do intestino e quase lhe roubou o futuro. Foi operado, recuperou e voltou à neve. Mas sem alma. “Tudo estava a correr bem e, de repente, tudo desabou. Para mim, o efeito foi mais psicológico”, assumiu ao CNA.

Caiu, levantou‑se, caiu outra vez. Quando falhou a qualificação para os Jogos Olímpicos da Juventude de Lausanne, em 2020, parecia-lhe que o destino estava traçado.

Até que, há momentos que mudam tudo. Um pódio inesperado reacendeu a chama. Reinventou-se, dedicou-se ao slalom e slalom gigante, tentou a qualificação para os Jogos Olímpicos de inverno de Pequim, em 2022, mas entre os estudos, a pandemia, a dificuldade em competir, e até o serviço militar obrigatório, em Singapura, viu o sonho ser adiado mais uma vez.

Esteve dois anos sem poder tocar nos esquis. Basha não baixou os braços, nem se deixou convencer pelas altas temperaturas asiáticas. Improvisou e treinou com patins em linha, à volta do Estádio Nacional. E, surpreendentemente, voltou melhor: mais rápido, mais ágil, mais consciente do privilégio que tinha perdido e que queria recuperar.

Foi para a Nova Zelândia treinar com o técnico Alessio Bonardi, deixou de estar tanto tempo junto da família, mas os resultados começaram a aparecer. Em 2025, representou Singapura nos Jogos Asiáticos de Inverno e terminou no 12.º lugar no slalom, sendo o atleta do Sudeste Asiático com a melhor classificação. No mesmo ano, atingiu os critérios de qualificação para a grande competição em Milão-Cortina 2026, tornando‑se no segundo atleta a representar Singapura nos Jogos de Inverno - depois Cheyenne Goh, que competiu na patinagem de velocidade em pista curta, nos Jogos de PyeongChang, em 2018 - , mas o primeiro num desporto de neve.

Aos 23 anos, o estudante de engenharia mecânica, chega a Milão‑Cortina com a obstinação de quem sabe que está a escrever história. “Tudo me tem empurrado para desistir, mas eu não parei”, confessou na entrevista ao Olympics.com. E já avisou que não quer ir só para “participar”. Quer ser competitivo, honrar o país que leva ao peito e provar que o impossível é apenas uma palavra preguiçosa.

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