Ester Ledecká: duas modalidades, uma carreira singular
A chega ganhou a medalha de ouro no snowboard e no esqui alpino nos Jogos de 2018, em Pyongyang
Clive Rose
A rara campeã checa foi campeã olímpica duas modalidades, esqui alpino e snowboard - na mesma edição dos Jogos, em 2018 E continua a redefinir limites depois de se ter recusado a fazer uma escolha
Há atletas que desafiam expetativas, mas Ester Ledecká desafia categorias. A checa de Praga, nascida em 1995, tornou‑se uma figura singular ao insistir em competir ao mais alto nível, tanto no esqui alpino como no snowboard. A sua biografia oficial descreve‑a como alguém que “desenvolveu um plano preciso e se manteve fiel a ele, apesar de todos os que a desencorajaram”, uma frase que sintetiza a sua carreira.
Ledecká recorda que, desde os 14 anos, quando os treinadores lhe diziam “tens de fazer uma escolha”, ela respondia sempre: “Vou fazer as duas coisas e, se isso vos incomoda, vou procurar outro treinador, porque é assim que vai ser.” Não era arrogância.
A notoriedade mundial chegou nos Jogos Olímpicos (JO) de PyeongChang, em 2018. Primeiro, venceu o Super‑G de esqui alpino, partindo com o dorsal 26, numa vitória que o site Olympics.comdescreve como “um choque” que percorreu o Jeongseon Alpine Centre. Conquistou a vitória por 0,01 segundos, à frente da detentora do título, a austríaca Anna Veith.
Uma semana depois, arrecadou o ouro no slalom gigante paralelo do snowboard, tornando‑se a primeira atleta a vencer duas modalidades distintas na mesma edição dos JO de Inverno. A incredulidade global foi tão grande quanto o sorriso dela na meta, um sorriso meio espantado, meio maroto, como quem diz: “Afinal, sempre dava.” A imprensa chamou‑lhe híbrida, prodígio, mutante. E talvez haja algo de mutante na forma como Ledecká se movimenta, entre a precisão no esqui, a agressividade controlada no snowboard, a capacidade de alternar entre velocidades e ângulos.
Ester Ledecká a deslizar na prova de snowboard dos Jogos de Pequim, em 2022
Ezra Shaw
Uma herança ligada ao desporto e ao rock
A carreira de Ledecká, porém, não se esgota no momento icónico de 2018. A sua biografia oficial regista 26 vitórias e 45 pódios em Taças do Mundo, somando ainda quatro Globos de Cristal grandes e três pequenos, no snowboard. Em Pequim 2022, voltou a vencer no snowboard, defendendo o título olímpico, e ficou a escassos lugares do pódio no esqui alpino. Foi 4ª no combinado e 5ª no Super‑G. A consistência em ambas as modalidades confirma a exceção num sistema que privilegia a especialização precoce.
O percurso de Ledecká é também marcado por uma herança familiar ligada ao desporto: o avô, Jan Klapáč, foi campeão mundial de hóquei no gelo e medalhado olímpico; a mãe, Zuzana, é treinadora e antiga patinadora; o irmão, Jonas, desenha os fatos de competição que se tornaram imagem de marca da atleta. Já o seu pai, Janek, foi uma figura de destaque no rock checo desde os anos 90, com carreira a solo e trabalhos em teatro musical. Ledecká construiu uma identidade competitiva que é, simultaneamente, técnica e estética.
A Red Bull, que acompanha a atleta, sublinha que ela se tornou “a primeira atleta a vencer provas de Taça do Mundo em snowboard e esqui alpino”e que, mesmo após lesões, regressou para conquistar novos títulos, incluindo um bronze no downhill nos Mundiais de 2025. A longevidade competitiva, aliada à versatilidade é uma singularidade que já foi reconhecida também fora das pistas: a Mattel criou uma Barbie inspirada nela, integrada na coleção Role Models, reservada a mulheres que quebram barreiras e servem de referência para as gerações mais novas.
Entretanto, em 2023, Ledecká concluiu o mestrado e fundou a sua própria agência de marketing desportivo, ampliando o alcance da sua influência para além da competição.
O site oficial dos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina aponta-a como uma das atletas capazes de “continuar a quebrar recordes”e até repetir o duplo triunfo de 2018. A possibilidade de um terceiro ouro consecutivo no snowboard - nunca alcançado -, coloca‑a novamente no centro das atenções.
Num tempo em que o desporto de alta competição se organiza em torno da especialização absoluta, Ledecká permanece como uma figura quase anacrónica: uma atleta que insiste em não escolher. E é precisamente essa recusa que a torna tão relevante. A sua carreira não é apenas uma coleção de medalhas; é uma narrativa de autonomia, de método e de uma liberdade raramente vista no desporto de elite.