Jogos Olímpicos de Inverno 2026

O risco que tomou Lindsey Vonn era absurdo. A queda que a fez ser resgatada de helicóptero foi horrível de se ver

Os gritos de dor de Lindsey Vonn após cair no início da prova de downhill dos Jogos Olímpicos de Inverno
Os gritos de dor de Lindsey Vonn após cair no início da prova de downhill dos Jogos Olímpicos de Inverno
Handout

Lindsey Vonn era a história encantadora destes Jogos Olímpicos ainda antes de romper o ligamento cruzado anterior do joelho a dias do arranque da competição e, mesmo assim, não desistir de competir no esqui alpino. O mundo reagiu na corda-bamba entre o elogio à loucura e o receio por um desastre. Este domingo, aconteceu o pior: nem 13 segundos após arrancar a prova de downhill, a norte-americana de 41 anos sofreu uma queda feia e deve ter ser socorrida por um helicóptero

Muitos de nós sentem uma dor de garganta pela manhã ou uns arrepios na espinha e, não vá o diabo tecê-las, ficam em casa a trabalhar (se possível) para não lhes dar uma coisinha má. Quem nunca? Lindsey Vonn não. A cinco dias da prova feminina de downhill dos Jogos Olímpicos de Inverno, a incrível norte-americana cuja presença em Milão-Cortina d’Ampezzo já era, por si só, uma das reluzentes histórias da competição, caiu numa prova e rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, uma das lesões mais aterrorizantes que um atleta pode sofrer.

E quis ir trabalhar.

No dia seguinte, Lindsey Vonn avisou para contarem com ela, iria competir, era total a rutura no ligamento que costuma supor uma paragem de um ano ou, com sorte, nove meses para quem a sofre, mas a norte-americana quis arriscar. “Apesar das lesões, o meu joelho está estável, não há inchaço e os meus músculos estão bem”, disse para estatelar queixos no chão e deixar boquiaberta qualquer pessoa com um pingo de sanidade. Mas, lembrando as decisões recentes da norte-americana, o surreal da decisão adquire um coche de realismo.

Sob qualquer perspetiva que fosse, Lindsey Vonn não tinha necessidade de estar em Itália, ela tem uma medalha de ouro olímpica e duas de bronze em casa, já foi campeã mundial quatro vezes e venceu 84 provas na Taça do Mundo. O brilho abunda lá em casa. Colecionou-o ao longo de uma carreira no esqui alpino que a massacrou com lesões, ao ponto de ter o joelho direito feito literalmente de titânio. “O meu corpo simplesmente não aguenta outros quatro anos”, desabafou, em 2018, para no ano seguinte se retirar. No final de 2024 já estava com os pés devolvidos aos esquis.

Lindsey Vonn a ser içada pelo helicóptero de resgaste médico após cair na prova de downhill
Andrew Milligan - PA Images

Desde então, fugida à reforma que nem catraia a desobedecer a um castigo dos país, Vonn evidenciou a matéria rara que a perfaz: acabou no pódio de todas as etapas de downhill da Taça do Mundo desta época, é líder do ranking e prevaleceu em St. Moritz para ser a mais velha da história a vencer uma prova. Aos 41 anos, chegou aos Jogos Olímpicos com a sua lenda de encantar, cheia de uma história impossível de superar em espanto, uma veloz Peter Pan no feminino, com esquis e agasalhada para a neve.

Contrariar uma tão grave lesão, partilhando vídeos a treinar no ginásio como se nada fosse e perdendo tempo, nas redes sociais, a responder ao enchorral de médicos ou menos habilitados especialistas de bolso que opinavam ao longe sobre a sua condição, adensou a trama da sua ousadia. Mais ainda quando, na véspera da estreia nos Jogos, fez o terceiro melhor tempo nos treinos em Cortina d’Ampezzo. Porém, tudo convergia em dois gumes: a resiliência da norte-americana impressionava, mas fazia questionar se tanta vontade em contrariar o surreal risco em que incorria não seria demais.

O desastre

Quando Lindsey Vonn, com o seu lucky number 13 preso ao fato, se empoleirou à beira da saída do palanque da prova de downhill, este domingo, ouviam-se gritos histéricos de encorajamento. Chegara o momento. Respirou fundo duas vezes e irrequietou as mãos nos bastões, abrindo-as e fechando-as repetidamente. Parecia nervosa. Lá foi a norte-americana, arrancou rápido, precipitada com pressa para a descida como qualquer outra atleta em prova.

Deslizou composta na tranche inicial da descida, deu um pequeno salto, curvou pela primeira e segunda porta, mas, ao visitar a terceira, roçou um esqui nas estacas. Desequilibrou-se no ar, o seu corpo rodou ao leve, mas o suficiente para a roubar da trajetória ideal. A queda foi horrível de se ver: envolta num repucho de neve, Vonn deu cambalhotas na pista, o seu corpo dobrado de maneiras nada naturais. Tinham passado 13 segundos na sua prova.

O silêncio na estância de Tofane foi horripilante, um vazio de estupefação encheu o ar. Caras cobriam rostos entre o público que assistia e nas caras que estavam destapadas viam-se grutas em bocas sem reação. A campeã mundial Breezy Johnson, compatriota de Vonn que liderava a prova e ficaria com o ouro, fazia figas de preocupação com os dedos. Nem quem comentava na TV falava. Pouco demorou até um som poluir o cenário desastroso: os gritos de dor de Lindsey Vonn, horríveis de se ouvir.

Foram minutos de um horror a desenrolar-se em direto enquanto a ajuda rodeou a norte-americana. Chegaram médicos, chegaria uma maca, viria um helicóptero socorrê-la para o mundo a ver ser içada e levada para um hospital. Quando o som dominante já eram as hélices do voo, o speaker da prova pediu um outro: Arriscou tudo Lindsey Vonn, a rainha de Cortina, deixarás saudades. Toda a gente de pé e a fazer barulho para que ela vos ouça.

“Sabemos as dificuldades que teve nos últimos dias, ao vir à corrida, arriscou demais. Mas conhecê-mo-la, é a sua natureza”, tinha já dito Tina Maze, retirada bicampeã olímpica de esqui alpino e ali presente enquanto comentadora para a Eurosport, perdida quanto ao que havia por dizer em direto num momento destes mas obrigada pelo dever televisivo a dizer qualquer coisa. Afinal, o que se pode dizer?

O tudo ou nada de Lindsey Vonn culminou num aparatoso desastre que nada de bom trará ao joelho que a campeoníssima, com nada a provar, tinha preso por arames. A sua simples presença nestes Jogos Olímpicos de Inverno era ‘a’ história, mas a história que se contará vai versar sobre o aparato da queda que sofreu. Do incrível ao horrível é um passeio, eles são vizinhos, e nesta história também haverá algo a aprender sobre mediatizar um risco desmesurado como algo heroico, de louvar.

Esta haveria sempre de ser a última dança de Lindsey Vonn, já sem tempo para mais. Contra a sensataz e as probabilidades, ela quis arriscar. Os seus gritos de dor serão difíceis de esquecer.

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