Ilia Malinin, o Quad God que está a redefinir a patinagem artística, um mortal para trás de cada vez
O norte-americano de 21 anos a fazer aquilo que ninguém fazia há 50 anos: aterrar, de forma legal, um mortal para trás em Jogos Olímpicos
VCG
O jovem norte-americano de 21 anos faz no gelo aquilo que nenhum outro patinador consegue. Já foi campeão olímpico por equipas em Milão-Cortina, com direito a um mortal outrora proibido, e esta terça-feira inicia a competição individual, no programa curto (Eurosport, 17h30). E é quase certo que lá veremos o sobre-humano quadrúplo axel, salto que ele e só ele alguma vez conseguiu aterrar numa competição internacional
A patinagem artística é um daqueles derradeiros desafios do desporto. À graciosidade que se equilibra nuns meros milímetros de lâmina, junta-se-lhe a capacidade física para executar os saltos mais complexos, voos que desafiam a gravidade, movimentos corporais extra-humanos. E Ilia Malinin nasceu para tornar tudo isto aparentemente fácil.
O norte-americano de 21 anos chegou a Milão-Cortina com o carimbo de mais que provável figura dos Jogos Olímpicos de inverno. Há duas temporadas que Malinin não perde uma prova e, já em Itália, o seu programa livre, temerário porque recusa limites, foi essencial para que os Estados Unidos retivessem o título olímpico por equipas que já tinham conquistado há quatro anos, em Pequim.
E nem precisou de ser o melhor Malinin, dramático como um cantor de ópera, intenso como um herói de Zelda. Um assassino com cara de bebé e lâminas nos pés.
No programa livre da competição coletiva, este rapaz nascido na Virgínia, a menos de uma hora de Washington DC, filho de pais nascidos na Rússia mas que foram patinadores olímpicos pelo Uzbequistão, não utilizou sequer a sua arma mais bela e mortífera, o quádruplo axel. Ele é o único patinador da história a conseguir aterrar em competições internacionais este salto que pressupõe quatro rotações e meia.
Fê-lo pela primeira vez em 2022, desconcertante como um parafuso a tentar perfurar o gelo, e foi repetindo o feito nos últimos anos, em que açambarcou quase todos os títulos disponíveis: é atualmente bicampeão mundial e há quatro anos que ninguém o bate nos sempre competitivos campeonatos norte-americanos de patinagem no gelo.
Mas é quase certo que o quádruplo axel vai surgir a partir desta terça-feira em Milão-Cortina, quando Malinin iniciar os primeiros passos na candidatura ao título olímpico, com o programa curto masculino na prova individual. O axel e outros quádruplos que o jovem norte-americano vai engatilhando como nenhum outro atleta. Em dezembro, Malinin tornou-se no primeiro patinador a fazer sete quádruplos num único programa, batendo o recorde mundial de pontuação num programa livre (238.24) - por alguma razão, a sua alcunha, que Ilia abraçou até nas suas redes sociais, é Quad God, o deus dos quádruplos.
Um artista provocador
O legado e a memória celular são importantes na patinagem do gelo. Ilia Malinin ainda tentou desafiar o destino: filho de dois bons atletas da modalidade, Tatiana Malinina e Roman Skorniakov, que o treinam, o pequeno Ilia começou por apreciar a quentura da bola de futebol, mais do que os rinques gelados. Começou a patinar relativamente tarde face ao entorno, com 6 anos, em Reston, cidade da Virgínia onde os pais davam aulas de patinagem. Apesar dos genes, os pais não fizeram particular força para que o filho seguisse as suas patinadelas.
Em Milão, para já, tem mostrado todo o seu atleticismo, forjado nas aulas de ginástica que também praticou em miúdo, para ir somando mortais para trás, movimento teatral mais do que competitivo, até porque não conta de forma individual para engordar notas. Porque Malinin é também um provocador na sua arte. Os mortais no gelo foram proibidos em competição em 1977, depois da federação internacional os considerar perigosos. Levantou a restrição em 2024 e nesse mesmo ano Malinin passou a incorporá-lo nos seus sempre ambiciosos programas. E agora é o primeiro patinador a aterrar um mortal em Jogos Olímpicos em cinquenta anos. Pelo menos legalmente, já que em Nagano 1998, a francesa Surya Bonaly, uma rara mulher negra na patinagem no gelo, sabendo que já não teria os pontos necessários do júri para chegar às medalhas, rebelou-se contra as regras, chegando, à sua maneira, à imortalidade.
Andy Cheung
Andy Cheung
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“Honestamente, é uma sensação incrível, como se o ambiente estivesse a rugir”, confessou à NPR Malinin: “Quando faço o mortal para trás, toda a gente berra de alegria, fica tudo fora do controlo”. Um dos descontrolados foi Novak Djokovic, visto de queixo à banda nas bancadas na Arena de Milão durante a prova por equipas.
Fora do gelo, Ilia Malinin é um simples estudante universitário com interesse em arquitetura e design. Gosta de vídeojogos, pintar e desenhar. “Sou um tipo das artes manuais”, confessou à revista “Town & Country”, onde também se mostrou um adepto de skate e outros desportos radicais.
À mesma publicação, numa entrevista publicada antes do início dos Jogos de Milão, assumiu mais uma vez o desejo de quebrar uma outra barreira que em tempos parecia impossível - mas com Malinin nunca se sabe: conseguir aterrar um salto quíntuplo em competição. Se Malinin já o conseguiu em treinos? “Pode ser que sim, pode ser que não”, respondeu, críptico, como que deixando pistas ou doces para fazer salivar o que aí vem: “É um objetivo que tenho para depois dos Jogos Olímpicos, tentar fazê-lo e mostrá-lo ao público”.
Para já, o foco está em dar espectáculo nos Jogos Olímpicos, ganhando medalhas pelo caminho. A primeira de ouro já lhe assenta no peito e na prova individual, que arranca esta terça-feira, não há ninguém mais favorito do que o Quad God.