Emeric Guerillot abeirou-se do seu objetivo no dia do hat-trick de Franjo von Allmen
Emeric Guerillot voltou a levar Portugal ao Super-G, algo que não acontecia há 32 anos
Dustin Satloff
A fazer a estreia olímpica, o atleta português de 18 anos foi 32º no Super-G, muito perto da meta de entrar no top 30 de uma prova que colocou Franjo von Allmen no panteão destes Jogos Olímpicos: desde 2002 que nenhum atleta do esqui alpino ganhava três medalhas de ouro numa só edição
A vertigem é real. As imagens vindas do drone que acompanha os atletas que descem a mais de 100 km/h a pista de Stelvio, em Bormio, fazem o coração esquecer um batimento, até para quem não está de esquis nos pés a percorrer aqueles 2414 metros. Não pareceu, em tempo algum, que Emeric Guerillot se deixasse atemorizar por essa vertigem.
O português de 18 anos, a fazer a estreia do país nas provas de esqui alpino em Milão-Cortina, tinha prometido surpreender no Super-G masculino, onde Portugal não tinha presença desde 1994. E não ficou longe do objetivo de entrar na meta do top 30 da prova. Descendo seguro e com um genuíno divertimento nos movimentos, o mais novo dos irmãos Guerillot - Vanina representará Portugal no lado feminino - ergueu os braços de contentamento logo após cruzar a linha de chegada e um sorriso brotou-se-lhe automático na cara. Não para festejar uma medalha, é certo, isso é uma realidade que está longe, mas para pelo menos se agarrar a mais uma etapa de crescimento.
A felicidade de Emeric Guerillot depois de terminar a prova do Super-G, igualando o melhor desempenho de sempre de um português no esqui alpino
Sean M. Haffey
Emeric Guerillot foi 32º na prova, a 6,11 segundos do vencedor. Atrás de si ainda estão 10 nomes, seja de atletas menos rápidos ou de esquiadores, alguns bem experientes, como o italiano Dominik Paris, que não conseguiram sequer terminar o exigente percurso olímpico. O português, que vai ainda competir no slalom gigante (dia 14) e no slalom (dia 16), igualou a melhor qualificação portuguesa de sempre no esqui alpino, colocando-se ao lado de George Mendes, que fez resultado igual no slalom gigante de Lillehammer 1994, curiosamente o mesmo atleta que tinha sido o último português a participar no Super-G.
Ouro para o carpinteiro voador
A estreia de Emeric Guerillot aconteceu numa jornada que apadrinhou um dos maiores feitos até ver destes Jogos Olímpicos de inverno, com Franjo von Allmen a fazer o hat-trick nas provas de velocidade do esqui alpino masculino. Antes da prova do Super-G, o suíço de 24 anos recusava o epíteto de maior estrela do programa alpino de Milano-Cortina, mas terá necessariamente de rever a sua postura humilde. O helvético juntou o ouro no Super Gigante aos já conquistados no downhill e no combinado (aqui com Tanguy Nef), ao descer a pista de Stelvio em 1.25,32 minutos.
Von Allmen tornou-se também o primeiro esquiador alpino a vencer três medalhas de ouro numa única edição dos Jogos Olímpicos desde a crota Janica Kostelic em Salt Lake City 2002.
A medalha de prata foi para o norte-americano Ryan Cochran-Siegle, repetindo o mesmo resultado de há quatro anos, em Pequim, com o favorito Marco Odermatt, líder da Taça do Mundo, a ficar com o bronze.
Odermatt, a grande figura atual do esqui alpino suíço, deixou fugir o protagonismo destes Jogos para o compatriota Von Allmen, que de uma só vez se fixou como o atleta helvético mais bem-sucedido no esqui alpino em provas olímpicas.
O suíço Franjo Von Allmen tornou-se esquiador alpino mais bem-sucedido do seu país em Jogos Olímpicos
Sean M. Haffey
Nascido em Boltigen, uma pequena vila perto da capital da Suíça, Berna, Von Allmen cresceu numa quinta e montou-se pela primeira vez nuns esquis com apenas 2 anos. É um carpinteiro certificado e mesmo sendo dono de cinco vitórias em Taças do Mundo continua, no verão, quando os esquis dão descanso à montanha, a dar uma perninha na construção civil.
Von Allmen recolhe agora os louros da glória olímpica, um sucesso que poderia ter ficado perdido pelas agruras da vida: aos 17 anos, Von Allmen perdeu o pai e a família deixou de ter dinheiro para financiar a carreira da jovem promessa. Um crowdfunding tornou possível a Franjo competir durante mais uma temporada, permitindo-lhe entrar depois no programa da equipa suíça de esqui alpino.
Em Boltigen, Von Allmen já era uma pequena estrela à sua escala, com direito até a dar o nome a uma salsicha produção de um talhante local. A Franjo’s Wurst pode agora muito bem mudar o nome para Champion's Wurst.