Três Jogos Olímpicos depois, os dois Tobias alemães que ganhavam tudo em cima de um trenó deixaram de ganhar
Tobias Artl e Tobias Wendl venceram todas as provas de duplas e estafetas de luge nas três edições anteriores dos Jogos Olímpicos de Inverno
Mattia Ozbot
Tobias Artl e Tobias Wendl são uma dupla de luge que não perdia no gelo olímpico desde 2014 e, com 10 títulos de campeões mundiais, estavam em Milão-Cortina para tentarem uma inédita quarta medalha de ouro. A lenda dos alemães parecia ser imbatível na modalidade mais rápida dos desportos de inverno, mas acabou com o bronze, ultrapassada por austríacos e, surpreendentemente, pela parelha italiana
“No trenó, gosto de estar por baixo.” A piada sugestiva de outras cambalhotas, noutros contextos, é confirmada pelo sorriso maroto seguido de uma pequena gargalhada que Tobias Arlt luze ao proferir a frase. “É o espaço mais apertado do mundo onde duas pessoas competem contra outras”, dissera pouco antes, com um gorro na cabeça, equipado à luge, a auto-proclamada mais rápida das modalidades de inverno mas que tem o alemão parado, a jeito de um vídeo publicado no TikTok. Ao seu lado, contido em graçolas, está Tobias Wendl.
Ele é o tipo que fica na posição de cima desta dupla de germânicos, há 25 anos encaixados como peças Lego num trenó feito de fibra de vidro e carbono, com 55 centímetros de largura e assente em lâminas de aço. “Às vezes dormimos assim”, brinca este Tobias quando já falam deitados de papo para o ar, pés à frente, um sobre o outro, aptos a lançarem-se a uma estreita pista de gelo onde roçam velocidades de 150 km/h: sem travões, que são proibidos, ou algo parecido a um volante.
Valha a boa-disposição a quem se atira assim - ou assado, como no skeleton, modalidade irmã que agravará a perceção de perigo iminente ao colocar os atletas de cabeça à frente no trenó, portanto com a cara virada para o abismo gelado - e arranjou forma de ganhar tudo.
Não há parelha com currículo sequer parecido ao de Tobias Arlt e Tobias Wendl, ou os “Dois Tobis”, uma das alcunhas que lhes puseram para simplificar: foram campeões olímpicos na prova de duplas em Sochi, Pyeongchang e Pequim, façanha casada sempre com a medalha na disciplina de estafetas nos mesmos Jogos. Chegaram a Milão-Cortina em busca da proeza ainda maior de se arrebanharem a um quarto ouro consecutivo e juntarem-no aos 10 títulos mundiais (e nove europeus) que possuem nas carreiras que lhes dão conquistas desde 2007.
Um trabalha como agente da polícia nas horas vagas, o outro é sargento do exército, e chegaram a estes Jogos envoltos na sua aura quase imbatível. Mas, no primeiro run da prova de duplas, esta quarta-feira, os Tobias registaram apenas o quinto melhor tempo, em linha com a prestação que deixada nas sessões de treino. Os 52.583 segundos que demoraram a percorrer sem freios os 1445 metros da pista nem sequer os elevou a serem a melhor dupla germânica - ficaram atrás de Florian Müeller e Toni Eggert.
Os “Dois Tobis”, ambos com 38 anos, são a dupla mais titulada da história do luge
Al Bello
Quando se deitaram de novo no trenó, um mito de duas cabeças começou a ruir.
Os Tobias deram às mãos de luvas postas, com espigões nas pontas dos dedos, lá colocados para em sincronia os vincarem no gelo e ganharem balanço no arranque da prova, a fiar no que eles e demais atletas do luge dizem isso é o primordial a fazer, cravar as manápulas alfinetadas, espetarem-nas quatro ou cinco vezes para o embalo e deixarem-se ir. Simplificando em demasia, o truque será esse: alinhar os corpos, mexê-los o menos possível e ajustar a trajetória com as mais subtis alternâncias de peso de um ombro para o outro.
Na modalidade que põe lupa nas casas decimais bem à direita do relógio, a segunda volta da dupla alemã à pista foi 10 milésimos de segundo mais lenta do que a anterior - e o luge rege-se por estas diferenças vindas de velocidades que implicariam uma multa grave se aplicadas numa auto-estrada. Wendl e Artl não se aceleraram, mas, por instantes, ainda lideraram a classificação virtual e puderam ficar diante das câmaras, fora do trenó, especados à espera do que fizessem os adversários.
Vieram logo a seguir os italianos Emanuel Rieder e Simon Kainzwaldner, a parelha em prova menos cotada do país anfitrião, zarpada sobre o gelo a roçar as estreitas paredes do percurso enquanto ia conseguindo um tempo a contar sempre no verde em cada marcação intermédia. Ao cruzarem a meta e repararem nos 90 milésimos roubados ao resultado das lendas alemães, lembraram-se primeiro de festejar com os braços no ar, ébrios em felicidade, do que em abrandar o trenó, descontrolado por momentos. Seriam eles os primeiros a derrotarem em gelo olímpico o “Expresso da Baviera”, a outra alcunha dos alemães, desde 2014.
Tobias Artl e Tobias Wendl, à direita, com as duplas italiana (Rieder e Simon Kainzwaldner) e austríaca (Thomas Steu e Wolfgang)
Carmen Mandato
Ao serem filmados enquanto assistiam ao desfecho da prova dos italianos, Artl e Wendl desfizeram as faces carrancudas, fechadas pela desilusão ao repararem que já estariam no plano televisivo. Fizeram o obséquio de acenarem e rasgarem um pequeno sorriso. A contrição foi passageira. Fartaram-se de distribuir abraços por Rieder e Simon Kainzwaldner quando já todos despidos de trenós e capacetes estavam, também por Thomas Steu e Wolfgang Kindl, austríacos que levaram a prata. Mais tarde, no pódio da entraga de medalhas, já pularam e gritaram de alegria.
Afinal, ambos com 38 anos, pouco se poderão queixar de só hoje, aos seus quartos Jogos Olímpicos, conhecerem um material precioso diferente. Estiveram por cima de todos durante uma era do luge, vindos de uma Alemanha onde nasceram que o está desde sempre: até esta 17ª presença da modalidade nos Jogos, o país ganhou 38 de 52 ouros e 87 de 153 medalhas possíveis. Como os “Dois Tobis”, é germânica a única outra atleta com seis penduricalhos dourados no luge, a já retirada Natalie Geisenberger. Ninguém deslizava como os alemães, habituados a estarem por cima.
Mas Milão-Cortina pode estar a congenimar uma novidade ainda maior: nas duplas femininas, Itália também fez uma gracinha com Andrea Voetter e Marion Oberhofer, ao ficarem por diante das favoritas Dajana Eitberger e Magdalena Matschina, germânicas pois claro. Na quinta-feira será a prova de estafetas (a partir das 17h30, Eurosport), aí se verá sai dos Jogos por baixo, sem piadolas.