Atleta ucraniano foi desqualificado dos Jogos Olímpicos de Inverno por usar um capacete de homenagem às vítimas da guerra
Vladyslav Heraskevych ia competir na prova de skeleton dos Jogos Olímpicos de Inverno
Andrew Milligan - PA Images
Vladyslav Heraskevych foi excluído pelo Comité Olímpico Internacional dos Jogos de Inverno por insistir em utilizar um capacete decorado com 24 imagens de atletas e crianças mortos desde o início da invasão russa da Ucrânia
Na manhã desta quinta-feira, Vladyslav Heraskevych fez um último apelo ao Comité Olímpico Internacional (COI) para que lhe permitisse competir usando o capacete decorado com 24 imagens de atletas e crianças mortos desde o início da invasão russa da Ucrânia. “Nunca quis um escândalo com o COI e não fui eu que o criei“, afirmou. Mas o Comité não vacilou e excluiu o atleta ucraniano dos Jogos Olímpicos (JO) de Inverno Milano‑Cortina 2026, argumentando que a decisão foi tomada pelo júri da Federação Internacional de Bobsleigh e Skeleton (IBSF), que considerou que o equipamento não cumpria as regras aplicáveis.
O COI já tinha informado o atleta, na terça‑feira, que o capacete não estava em conformidade com a Carta Olímpica, nomeadamente com a regra 50.2, que proíbe manifestações de natureza política, religiosa ou racial em áreas de competição. Apesar disso, Heraskevych voltou a utilizá‑lo nos treinos oficiais de quarta‑feira, afirmando que tinha “todos os direitos“ para o fazer.
Cerca de uma hora antes do início da prova, a presidente do COI, Kirsty Coventry, deslocou‑se à pista de Cortina para uma última tentativa de mediação. Segundo o COI, o atleta não aceitou qualquer forma de compromisso, incluindo a proposta de competir com uma braçadeira preta ou mostrar o seu capacete em zonas mistas, conferências de imprensa e nas redes sociais. Kirsty sublinhou que pretendia garantir a participação do ucraniano e que procurou “a forma mais respeitosa” de permitir que homenageasse os colegas mortos.
Atleta quer recorrer ao Tribunal Arbitral do Desporto
Heraskevych, de 26 anos, reagiu à desqualificação dizendo sentir “um vazio” e anunciou que iria recorrer ao Tribunal Arbitral do Desporto, embora o avanço da competição reduza as hipóteses de sucesso. O atleta, que já tinha sido advertido nos Jogos de Pequim 2022 por erguer um cartaz apelando ao fim da guerra, era apontado como potencial candidato às medalhas depois de ter registado tempos competitivos nos treinos desta semana. "Este é o preço da nossa dignidade", escreveu no X, a legendar uma fotografia sua na pista com o capacete, após a decisão.
Após a reunião, a presidente do COI surgiu perante os jornalistas de lágrimas nos olhos e fez questão de salientar: “Ninguém, especialmente eu, discorda da mensagem, é uma mensagem poderosa, é uma mensagem de lembrança, de memória. O desafio era encontrar uma solução para o campo de jogo. Infelizmente, não conseguimos encontrar essa solução.“ E, acrescentou, com a voz embargada: “Eu queria muito vê-lo correr. Foi uma manhã emocionante.“
Kirsty Coventry, presidente do COI, chorou quando falou aos jornalistas após a reunião com Vladyslav Heraskevych
Richard Heathcote
A delegação ucraniana defendeu que o capacete não violava qualquer norma, argumentando tratar‑se de uma homenagem semelhante a outras já vistas, como a do patinador artístico Maxim Naumov, que segurou uma foto dos seus pais, que estavam entre as 67 pessoas mortas num acidente de avião em Washington DC, enquanto esperava que a sua pontuação fosse anunciada. Entre as figuras retratadas no capacete estavam atletas como a halterofilista Alina Peregudova, o pugilista Pavlo Ishchenko e o jogador de hóquei no gelo Oleksiy Loginov, alguns deles amigos de Heraskevych.
A decisão gerou críticas imediatas dentro da comunidade da modalidade. A britânica Lizzy Yarnold, campeã olímpica de skeleton, classificou o desfecho como “chocante” e afirmou que o COI deveria pedir desculpa ao atleta.
Em comunicado, o COI recordou que Heraskevych tem sido apoiado pela instituição nas últimas três edições dos Jogos, é um atleta bolsista olímpico e que, após a invasão da Ucrânia em 2022, foi criado um fundo de solidariedade para apoiar a preparação dos atletas ucranianos para Paris 2024. A organização reiterou que os competidores podem expressar luto nos centros multirreligiosos das aldeias olímpicas, mas não no “campo de jogo”.
Heraskevych não chegou a estes JO, a sua terceira participação, como favorito à medalha de ouro, mas subir ao pódio era uma possibilidade real. Ficou em 11º lugar no ranking mundial nesta temporada, mas foi o segundo mais rápido na terça-feira e o quinto melhor na segunda-feira.