Benoît Richaud, o homem mais atarefado dos Jogos Olímpicos de Inverno
Se ligar a televisão para ver a patinagem artística dos Jogos Olímpicos, muito dificilmente não derá de caras com Benoît Richaud, coreógrafo de 16 dos atletas participantes
Elsa - International Skating Uni
O coreógrafo francês criou programas para 16 atletas de 13 países na patinagem artística dos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina. Durante as transmissões televisivas, é vê-lo de tempos a tempos vestido de maneiras diferentes, envergando distintos casacos de cores também elas alternativas, representando as inúmeras nações dos seus pupilos. Os atletas dizem que Richaud tem ideias malucas, mas que resultam, e é por isso que é um dos treinadores mais requisitados pelos patinadores
A sequência de imagens chega a ser desconcertante. Ele é alto, grande, cabelo rapado, apesar de tudo, discreto. No vai-e-vem de atletas a entrar e a sair do rinque da Arena de Patinagem de Milão durante o programa curto da competição individual masculina de patinagem no gelo, ele abraça um, dois, três, vários patinadores. Sempre com casacos de cores distintas, equipamentos oficiais das várias nações em prova. Na zona onde os atletas esperam, por vezes desesperadamente, pela nota final, adequadamente chamada de kiss and cry, lá está ele também. Parece omnipresente.
O cenário repetiu-se dias antes, na prova por equipas. Mas quem é esta figura, afinal?
Benoît Richaud nasceu em França, tem 38 anos e é, seguramente, o homem mais atarefado destes Jogos Olímpicos de inverno. Não é um simples membro do staff, um mero treinador. Richaud é coreógrafo, um dos mais procurados pelos patinadores no gelo, que procuram nele uma visão única, quase filosófica. Para Milão-Cortina preparou programas para 16 patinadores, de 13 países diferentes. E acompanha todos eles de forma próxima.
Entre os favoritos ao top 10 no masculino, por exemplo, Richaud engendrou as rotinas interpretativas do georgiano Nika Egadze, do norte-americano Maxim Naumov, do canadiano Stephen Gogolev e do francês Adam Siao Him Fa.
Benoît Richaud com Maxim Naumov dos Estados Unidos
Matthew Stockman
Benoît Richaud com Maxim Naumov dos Estados Unidos
Matthew Stockman
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Antigo patinador no gelo, na variante de dança, Richaud, natural de Avinhão, cidade profundamente conectada com a cultura e as artes performativas, ainda competiu até ao escalão júnior, indo a três Mundiais. Diz que foi nessa fase que começou a brotar o seu interesse pela coreografia, mas, aos 21 anos, afastou-se por completo da modalidade. “Eu não era um mau patinador, mas percebi cedo que não era feito para competir”, confessou numa entrevista ao site dos Jogos Olímpicos.
Trabalhou em bares enquanto tentava aventurar-se como autor de música electónica. Pouco depois, deixou as noites com poucas horas de sono e os maços de tabaco vazios e amarrotados, substituindo-os por método e ioga. E quando voltou à patinagem artística, não como atleta mas sim como a figura na sombra que faz os atletas brilharem, a música continuou a ser parte essencial da sua vida.
Loucura, sentimento e muitos casacos
Ler a autobiografia de Benoît Richaud no seu site oficial não estará muito longe de passar os olhos por uma epígrafe de um guru de técnicas de bem-estar. Sobre o seu método de preparação de rotinas, fala de uma “abordagem holística”, que compreende “um entendimento profundo da personalidade, habilidades e complexidades técnicas” do patinador, resultando em “coreografias que ecoam com emoção, cativando não só os juízes mas todo o público”. O todo de um atleta ao serviço de algo especial e bem próprio.
“Com os atletas com quem trabalho de forma mais próxima, às vezes tenho a sensação que consigo sentir o batimento do coração deles dentro de mim. E por isso sinto uma conexão completa com o que eles estão a tentar mostrar”, explicou ao Olympics.com, frisando que acredita que o seu trabalho tem de ser mais do que montar uma simples coreografia: “Temos de tentar trazer algo que vai para lá do desporto. Tem de ser quase filosófico, espiritual. Tem de passar uma mensagem para as pessoas.”
Adam Siao Him Fa, o francês que é um dos candidatos às medalhas no masculino, diz que as ideias de Richaud, com quem já trabalhou há quatro anos, nos Jogos Olímpicos de Pequim, “podem parecer malucas”, mas “normalmente são grandes ideias”. Num universo da patinagem artística ainda agarrado aos clássicos, o coreógrafo francês aceita e abraça o risco. “Em cada Jogos Olímpicos eu tento tornar-me viral. Isso começou há uns anos, quando fiz programas com músicas da Beyoncé ou dos AD/DC”, contou no podcast More Than the Score, da BBC, onde sublinhou também que a música é sempre a “base de tudo”.
“É a coisa mais importante, às vezes até acho que uma coreografia terrível, se tiver uma grande música por trás, pode parecer bem”, defendeu Richaud, que a partir do tema escolhido começa a desenhar “a história, o movimento” que vai construir para cada atleta.
Uma das apresentações mais mediáticas desta edição dos Jogos Olímpicos foi uma criação de Benoît Richaud para o patinador espanhol Tomàs Guarino Sabaté, baseada no filme de animação “Minions”. Uma rotina que esteve quase para ficar-se pelos bastidores, por causa uma disputa de direitos autorais com a Universal Pictures. O problema acabou por ser ultrapassado e o catalão fez mesmo a sua apresentação.
E mesmo que não tenha acabado nos 25 primeiros no programa curto, que dão acesso ao programa livre, ficou em Milão-Cortina mais uma marca da originalidade de Richaud. “Já trabalho com o Tomàs há seis anos e ele não me impressionou pelas suas qualidades a patinar, mas sim pela sua energia, capacidade de atuar. Ele está no seu mundo e soube que, com ele, tinha de fazer uma coisa diferente”, assumiu à BBC.
No tarde/noite do programa curto masculino, na terça-feira, Richaud surgiu ao lado de Guarino Sabaté, na sua primeira de muitas aparições ao longo da sessão, envergando o seu traje mais comum: um outfit totalmente preto, sem cores ou marcas que identificassem um país. A partir daí seguir-se-ia uma jornada cheia de trocas de casacos e de presenças nas diferentes boxes de cada seleção.
O espanhol Tomàs Guarino Sabaté competindo com uma coreografia baseada no filme de animação "Minions"
BSR Agency
Richaud diz que o processo de passar de um atleta para outro em poucos minutos “pede muito emocionalmente”, ainda mais para alguém epidermicamente sentimental. Isto mesmo que na transmissão televisiva o coreógrafo pareça a reencarnação da calma. “Se tens um programa bom e a seguir outro que não corre tão bem, tens ali alguns picos de emoção”, explica.
Estar presente em tantos lados quase ao mesmo tempo e vestindo diferentes casacos pressupõe uma organização precisa. “Normalmente ponho os casacos nos balneários dos atletas ou então alguém do staff de cada seleção guarda-me o casaco e depois dá-me no momento da prova.” Durante o programa curto, Richaud teve mesmo dois atletas a competir de forma consecutiva, o georgiano Nika Egadze e o francês Adam Siao Him Fa. Aparentemente, a articulação correu bem e Richaud apareceu sorridente ao lado dos dois.
Mais estranho, diz o coreógrafo, é vê-lo a usar uma paleta variada de cores: “Eu estou sempre de preto e dizem: como é que o Benoît está a usar cores?”. Na sexta-feira, durante o programa livre masculino, e na próxima semana, quando se iniciar a prova individual feminina, haverá mais trocas de guarda-roupa à espera do coreógrafo mais assoberbado de Milão-Cortina.