Jogos Olímpicos de Inverno 2026

José Cabeça fez um pouco de história no esqui de fundo, mas os grandes feitos ficaram para Johannes Høsflot Klæbo

José Cabeça completou a prova em 27 minutos
José Cabeça completou a prova em 27 minutos
Alex Slitz

O português tornou-se o primeiro esquiador de fundo nacional a completar duas provas na mesma edição dos Jogos Olímpicos de Inverno. No entanto, ficou-se pelo 99º lugar nos 10 km em estilo livre conquistados pelo norueguês Johannes Høsflot Klæbo, que chegou ao terceiro ouro em Milão-Cortina e ao oitavo na carreira, consagrando-se como um dos melhores de sempre na neve

É irónico que nos desportos de inverno seja necessário aquecer. O melhor é os atletas fazerem-no com alguma prudência. Caso se empenhem demasiado nos exercícios de ativação, ainda derretem a pista onde é suposto competirem.

José Cabeça usou a primeira prova que realizou nos Jogos Olímpicos, o sprint clássico, precisamente para se preparar para a segunda. Por questões relacionadas com as condições climatéricas em que se realizam, talvez os 10 km em estilo livre não sejam a sua praia, mas são por certo algo mais ajustado às suas características.

Se a história do esqui de fundo já começa timidamente a exigir deixar de ser apenas um capítulo para passar a ser ela própria um livro (mesmo que fino), José Cabeça é o responsável por impingir a compra de resmas que acolham as peripécias. O alentejano tornou-se o primeiro português a completar duas provas de esqui de fundo na mesma edição dos Jogos Olímpicos, mas almejava algo melhor do que isso.

Para não baterem uns nos outros com os seus extensores de pés, os esquiadores são enviados aos pingos para a meta. De 30 em 30 segundos, margem segura para que a pista não fique entupida, alguém percorre os primeiros metros nos seus sapatos de tamanho 70 (mais coisa, menos coisa).

O 98º a partir exibia um fato justo e um gorro com padrões de azulejos. A neve já estava bastante remexida quando José Cabeça começou a esquiar usando o método que mais se aproxima da patinagem. O português caiu um lugar em relação ao número do colete e ficou-se pela 99ª posição (27:00,8). O resultado ficou longe do 88º lugar nos 15 km clássicos, conseguido em 2022 perante menos concorrência.

Numa altura em que a comunicação oficial dos Jogos Olímpicos já ia anunciando vencedores, sem que o último atleta em competição tivesse cruzado a meta, a neve amontoava-se no percurso e tornava-se uma dificuldade com que só os derradeiros competidores lidaram. Não foi o cenário mais digno para uma competição que é o auge da vida de tanta gente.

Admirável homem das neves

Sensivelmente uma hora passou entre a partida do primeiro, o romeno Paul Pepene, e do 113º, o líbio Samer Tawk, atleta que sofreu uma queda de 14 metros em 2019 e esteve nos cuidados intensivos. Num elenco com representantes da Tailândia, do Haiti, da Bolívia, da Nigéria, da Venezuela, do Brasil ou da Arábia Saudita, era nos países dominantes que estavam as hipóteses de medalha.

A Noruega e a Suécia tinham 12 das 15 medalhas atribuídas nas provas de esqui de fundo em Milão-Cortina. Entre os homens, Johannes Høsflot Klæbo ainda não tinha delegado a hipótese de um rival ganhar uma de ouro. Já com vitórias nos 20 km de esquiatlo e no sprint clássico, o admirável homem das neves era a besta que todos queriam caçar.

Antes das estrelas desafiarem as matreiras curvas do traçado de Tesero, personagens como John Steel Hagenbuch entraram em ação. O norte-americano parecia estar com calor e, na parte de cima do corpo, competiu apenas com um colete inútil na cobertura do umbigo. Logo de seguida, enganou-se no percurso. Se era suposto dar nas vistas, conseguiu.

Só três atletas têm oito medalhas de ouros em Jogos de Inverno: Johannes Høsflot Klæbo, Marit Bjørgen e Ole Einar Bjørndalen
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Johannes Høsflot Klæbo estabeleceu o tempo de referência (20:36.2). Ao terminar os 10 km, deixou-se cair na neve e foi para a cadeira do líder ainda a ver estrelas. O tempo não o deixava tranquilo em relação à conquista do ouro. Não precisou de esperar muito para perceber que a exigência da pista afetou ainda mais quem tem ligeiramente menos poderes.

O feito do esquiador de Oslo coloca-o ao nível dos melhores atletas de sempre. Johannes Høsflot Klæbo alcançou a oitava medalha de ouro em Jogos Olímpicos de Inverno, algo que só Marit Bjørgen (esqui de fundo) e Ole Einar Bjørndalen (biatlo) conseguiram.

Quatro noruegueses - Einar Hedegart (bronze, +14s), Harald Ostberg Amundsen (+24s) e Martin Løwstrøm Nyenget (+27,3s) - ficaram entre os cinco primeiros lugares. Algo normal para um país que tem 1000 clubes de esqui, praticamente um por cada 5000 pessoas. O intruso foi o francês Mathis Desloges (prata, +4,9s).

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