Um golpe de teatro no gelo: a audácia de Ilia Malilin deu lugar à angústia e cazaque Mikhail Shaidorov é ouro na patinagem artística
Ninguém esperava nada mais do que a glória de Ilia Malinin em Milão, mas tudo correu mal ao jovem norte-americano
Jamie Squire
É possível que Ilia Malinin seja o mais completo e extraordinário atleta masculino que a patinagem artística já viu, mas no derradeiro momento competitivo, os Jogos Olímpicos, o norte-americano de 21 anos falhou. A anunciada vitória tornou-se num chocante desmoronar, porque no desporto, maravilhoso e cruel em igual medida, nunca há campeões garantidos
Diz-se que um homem é também as suas circunstâncias e Ilia Malinin é absolutamente um atleta e as suas circunstâncias. Tem nele a exuberância técnica e dramática do sangue russo que lhe corre nas veias, a escola que lhe vem dos pais, dois patinadores nascidos na Sibéria e que acabaram por competir pelo Uzbequistão. Há nele a emoção e a expressividade de Alexei Yagudin, a explosividade e o poderio de armas de Evgeny Plushenko, os dois últimos grandes czares da patinagem russa e dois atletas moldados pelos mais perfeitos ditames da patinagem artística.
Malinin é isso e mais.
Nascido há 21 anos nos Estados Unidos, para onde os pais emigraram no final dos anos 90, Malinin a tudo isso juntou algo intrinsecamente americano, profundamente yankee: o arrojo da atitude de quem entra de pé na porta sem pedir licença, o destemor de quem mais nada conhece do que a audácia. Misturando tudo, saiu um atleta absolutamente extraordinário, capaz de um atleticismo inaudito, tecnicamente sempre em busca do impossível. Mais do que ser o único patinador que já aterrou um quádruplo axel em competição, talvez seja o backflip, o mortal para trás que colocou nos seus programas logo após este deixar de ser proibido, o movimento que é mais a cara de Malinin: uma proeza que nem sequer vale pontos, mas que o patinador norte-americano faz apenas pela arte da coisa, pela alegria imensurável de deixar o público em êxtase.
Por tudo isto, ver Ilia Malinin fora do pódio da final individual masculina da patinagem artística dos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina é um dos golpes de teatro desportivos, arriscamos, da década.
Num desporto feito de perícia e pormenores, nada é garantido, mas ninguém esperaria um desmoronar tão abrupto de um atleta agarrado já a uma aura de insuperabilidade. Há mais de dois anos que Malinin não perdia uma prova e pelo meio foi batendo recordes supra-humanos: foi duas vezes campeão mundial e em dezembro aterrou sete quádruplos num único programa, como quem destrunfa de forma quase insolente todos os truques existentes no cardápio. Toeloop, salchow, loop, flip, lutz e, claro, o temível axel, o mais complexo dos saltos, a todos ele Malinin trata como se fossem da casa, com uma facilidade quase ofensiva.
Image Photo Agency
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Nestes Jogos Olímpicos de inverno, Malinin ainda não tinha atingido um pico de excelência. Provavelmente porque não havia necessitado. O mais próximo que esteve de tocar o céu que parecia a ele e só a ele destinado foi no programa livre da prova por equipas, onde ainda assim não tentou o quádruplo axel, tal como não o fez no programa curto da prova individual: o norte-americano, que partia para o livre no primeiro lugar, queria ser ouro com um bang! e tentou um programa final com sete saltos de quatro piruetas, para agarrar não só o título mas também uma qualquer imortalidade.
Mas Ilia é mortal. Saiu-lhe bem o quádruplo flip inicial, mas quando desmanchou aquele que seria o primeiro quádruplo axel da história dos Jogos Olímpicos a narrativa fugiu-lhe das mãos, em forma de choque e abalo sísmico: ainda acertou o difícil lutz, mas desfez o loop - que é pior que tentar e cair -, falhou nas combinações e ainda somou mais duas incaracterísticas quedas. Quando o blackflip, que aterrou naquela nesga de serrilha, chegou, já era impossível sair do poço em que Malilin se havia inesperadamente colocado.
Terminado o programa, o silêncio tomou conta da Milano Ice Skate Arena e o olhar de bebé assassino de Malinin deu lugar à angústia existencial de quem vivia o inexplicável. O seu programa livre, que prometia história, quedou-se como apenas o 15º melhor da noite. Na junção das duas apresentações, Malinin foi um anónimo 8º classificado. A expectativa tinha razões para existir, mas o desporto, que tem muitas maneiras de ser maravilhoso, pode ser cruel em igual medida.
“Ainda estou a tentar compreender o que aconteceu, algo não estava bem, não sei ainda o que foi. Dei cabo de tudo. Toda a pressão, os media, a esperança na medalha de ouro… foi demasiado para lidar”, diria pouco depois à NBC aquele que é conhecido por “Quad God”, que antes de chegar a Milão já falava de, eventualmente, tentar aterrar um salto quintuplo nos próximos anos. Mas, mais do que de inovação, a Olimpíada que se segue terá de ser, afinal, de recomeço: a busca do Santo Graal olímpico, que lhe fugiu quando parecia apenas uma burocracia.
Com tudo isto, perante um pavilhão de boca aberta, em generalizado e paralizado choque, voaram de repente as bandeiras do Cazaquistão: Mikhail Shaidorov, que tinha sido apenas 5º no programa curto, apresentou um programa livre essencialmente limpo e com cinco quádruplos, um deles numa inusitada combinação triplo axel com quádruplo salchow, que rebentou com as estatísticas pontuais e apagou todo e qualquer menor primor na coreografia. O atleta de 21 anos, vice-campeão mundial em 2025, parecia tão abalado na alegria quanto Malinin na agonia.
O pódio da prova individual masculina: Mikhail Shaidorov (Cazaquistão), Yuma Kagiyama (prata) e Shun Sato (bronze)
Xavier Laine
O pódio da prova individual masculina: Mikhail Shaidorov (Cazaquistão), Yuma Kagiyama (prata) e Shun Sato (bronze)
Xavier Laine
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Nascido em Almaty, Shaidorov é filho de um antigo campeão cazaque de patinagem no gelo e começou a treinar num rinque de um centro comercial local. Vice-campeão mundial em 2022 (precisamente atrás de Malinin), há menos de um ano dizia nem pensar em medalhas em Milão. Num país sem as condições das grandes potências, repetiu a subida ao pódio do malogrado Denis Ten, medalha de bronze em 2014 e assassinado quatro anos depois num assalto. Esta é também a primeira medalha de ouro para o Cazaquistão em Jogos Olímpicos de inverno desde 1994.
Shaidorov contou ainda com as desastradas provas do japonês Yuma Kagiyama e do francês Adam Siao Him Fa para subir ao lugar mais alto do pódio. O primeiro ainda conseguiu segurar a prata, com o bronze a ir para outro japonês, Shun Sato, apenas 9º no programa curto, outro dos atletas escandalizados tal o inesperado desfecho de um dos mais surpreendentes eventos desportivos de que há memória.