Jogos Olímpicos de Inverno 2026

Esquiador, modelo e campeão olímpico: Lucas Pinheiro Braathen é o primeiro medalhado do Brasil em Jogos de Inverno. Emeric Guerillot foi 38º

Lucas Pinheiro Braathen elevou a fasquia logo na primeira manga
Lucas Pinheiro Braathen elevou a fasquia logo na primeira manga
Anadolu

Lucas Pinheiro Braathen conquistou a prova de slalom gigante (esqui alpino) e conseguiu um feito inédito. O brasileiro já tinha participado nos Jogos Olímpicos de Inverno em 2022 ao serviço da Noruega. Em 2024, trocou de nacionalidade por uma questão de direitos de imagem e foi a Milão-Cortina pelo país da mãe. Portugal foi representado por Emeric Guerillot, que deu mais uma demonstração de intrínseca convivência com aquilo que leva nos pés

Entrou na conferência de imprensa de unhas pintadas e disse: “Para mim, acabou. Pela primeira vez em anos, sinto-me livre.” Estávamos em 2023 e Lucas Pinheiro Braathen terminava a carreira desiludido. “Para continuar a esquiar, não preciso de deixar apenas os meus sonhos de lado. Preciso também deixar a minha alegria de lado. Não estou disposto a fazer isso.”

Até então, representava o país onde nasceu, a Noruega. As razões para ter deixado de o fazer estavam no catálogo de uma marca de roupa sueca. Lucas deixou-se vestir pela J. Lindeberg sem o consentimento da federação para que o fotografassem. Assim nasceu o conflito sobre direitos de imagem que o desgastou.

Algo precisava de mudar e até podia ser a cidadania. Voltou ao ativo em 2024, mas agora era a bandeira do país da mãe a aparecer ao lado do seu nome durante as competições. Nos primeiros Jogos Olímpicos de Inverno a representar o Brasil, tornou-se no primeiro medalhado do país na competição ao levar o ouro no slalom gigante, em Milão-Cortina.

Calçar umas luvas e combater a inércia numa encosta com 1448 metros de extensão e 390 metros de desnível: é isto o slalom gigante.

Mas parecia que todos estavam a lutar contra algo mais. Todos, exceto um. Lucas Pinheiro Braathen inaugurou a pista e quase que se podia jurar que a tinha enchido de ratoeiras. O primeiro dos 81 competidores que se lançaram pela colina, começando no brasileiro e acabando no queniano Issa Laborde Dit Pere, estabeleceu desde logo o melhor tempo da primeira manga (1:13,92). Tudo o que se seguiu foi infrutífero.

O finlandês Jesper Pohjolainen foi o último a apurar-se para a segunda manga junto do grupo principal, algo que acontece apenas aos 30 primeiros classificados. Lucas Pinheiro Braathen aguardou que todos os rivais terminassem a prova para voltar à ação, beneficiando da vantagem de saber a marca exata que precisava de obter para chegar ao título.

A queda de neve intensificou-se e a velocidade aumentou na segunda manga, fazendo as mudanças de direção serem acompanhadas de uma maior nuvem de gelo. Como seria de prever, desta vez, a liderança mudou praticamente a cada descida.

Na segunda manga, o brasileiro de 25 anos jogou pelo seguro e registou apenas o 11.º melhor tempo (1:11,08). Porém, no acumulado das duas descidas, ninguém o superou (2:25). Pelo contrário, os suíços que o perseguiam tiveram que dar aos avantajados chinelos. O esforço final de Marco Odermatt (prata, 2:25,58), que conseguiu o título em Pequim 2022, e de Loïc Meillard (bronze, 2:25,58) apenas foi suficiente para garantir um lugar no pódio.

Emeric deixou tudo em pista. Até uma peça

Emeric Guerillot pode ainda não ser um atleta de primeira classe. Com apenas 18 anos, tem tempo para lá chegar, se tal tiver que acontecer. No entanto, uma coisa é inegável: esquiar parece tão natural para o luso-descendente como andar.

Logo aos dois anos, atarraxaram-lhe um par destas próteses que os humanos se lembraram de inventar para deslizarem na neve. Criado numa estância de esqui, devia ser mais difícil encontrar lugar para arrumar o material do que para deixar o carro.

Português de 18 anos já tinha competido no Super-G e voltou à neve no slalom gigante. Ainda lhe resta o slalom
Christian Petersen

Depois de ser 32º no Super-G, utilizou a inata maneira como ziguezagueia pela neve para obter mais um resultado digno. Na primeira manga (1:22,87), ficou em 42º, 15 lugares acima da posição em que partiu. A incessante vontade de encolher as trajetórias até o fez perder uma das proteções de carbono que utiliza nos antebraços para evitar consequências em eventuais toques nos pórticos. Na segunda manga (1:16,58), ainda teve capacidade para melhorar a posição, subindo ao 38º lugar (2:39,45, +14,45 em relação ao vencedor). Para mais demonstrações da intrínseca convivência com os esquis, é preciso esperar pela prova de slalom (16 de fevereiro, 9h).

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