Jogos Olímpicos de Inverno 2026

Jordan Stolz, o obcecado capaz de passar 6 horas a testar 77 lâminas para ganhar ouros olímpicos na patinagem de velocidade com umas antigas

Nos Jogos Olímpicos de Inverno 2026, Stolz utilizou as lâminas com que bateu o recorde do mundo dos 1000 metros, em 2024
Nos Jogos Olímpicos de Inverno 2026, Stolz utilizou as lâminas com que bateu o recorde do mundo dos 1000 metros, em 2024
Sarah Stier

Em Milão-Cortina, Jordan Stolz já ganhou dois ouros (500 e 1000 metros) e estabeleceu novos recordes olímpicos em ambas as distâncias. Numa modalidade tradicionalmente dominada pelos neerlandeses, o norte-americano de apenas 21 anos, detentor de sete títulos mundiais, cedo foi acarinhado nos Países Baixos. Só agora os Estados Unidos lhe começaram a dar alguma atenção

Há quem nasça num berço de ouro, Jordan Stolz nasceu com um lago gelado atrás de casa. Foi o que lhe bastou para subir na vida. Quando o espírito aventureiro começou a manifestar interesse em patinar na superfície deslizante, a mãe só o deixou calcá-la com um colete salva-vidas vestido para o caso de a água em estado sólido não estar tão sólida assim. Quando o pai validava a espessura do gelo, a criança de 5 anos improvisava corridas.

Foi nessas condições precárias e sujeitas aos caprichos do clima que começou a desenvolver força centrífuga. Acabaria por se dirigir ao pavilhão de gelo a 40 minutos de casa e foi aí que lhe começaram a esculpir a mestria.

Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 não lhe trouxeram grande reconhecimento. Patrocinadores não existiam e nem os vizinhos de Kewaskum, no Wisconsin, o idolatravam. Tinha 17 anos quando foi a Pequim. Ficou em 13º nos 500 metros e em 14º nos 1000 metros. Nada de transcendente numa comitiva dos Estados Unidos sempre a espremer medalhas.

O hype que os norte-americanos não lhe davam ficava para os neerlandeses, que já viam ali algo especial. Quando voava através da companhia aérea dos Países Baixos, recebia tratamento VIP por parte da tripulação. A grande potência da patinagem de velocidade adotou o talento de Stolz antes do seu próprio país.

Os Países Baixos são para a patinagem de velocidade o que os Estados Unidos são para o basquetebol. A tradição nesta modalidade reflete a tendência cultural que os neerlandeses têm para aproveitarem o congelamento dos canais para se deslocarem, dando descanso às bicicletas e calçando as lâminas. Numa vertente mais profissional, têm cerca de duas dezenas de pavilhões de gelo.

Até ao começo da competição em Milão-Cortina, os Países Baixos eram detentores de 133 medalhas, em pista longa, e de nove, em pista curta. Ou seja, apenas cinco de um total de 147 pódios foram conseguidos noutros desportos. São de longe a nação mais consagrada dos Jogos Olímpicos de Inverno nesta modalidade.

Jordan Stolz está empenhado em mudar a tendência. Embora leve sempre algum neerlandês consigo ao pódio. Em Milão-Cortina, já conquistou duas medalhas de ouro, nos 500 metros e nos 1000 metros. Para isso, estabeleceu novos recordes olímpicos em ambas as distâncias.

Supersticioso, está a usar em Itália os mesmo patins com que quebrou o recorde do mundo nos 1000 metros, em janeiro de 2024. Debaixo dos pés que os fazem acelerar como se fosse o Usain Bolt do gelo, não coloca qualquer material. A pensar na preparação do ano olímpico, antes da época começar, passou seis horas numa fábrica neerlandesa a experimentar 77 pares de lâminas. Experimentá-las, para alguém tão obcecado, implica compilar dados que acompanhem as sensações. Tudo para acabar a usar umas antigas.

Aos 21 anos, tem sete títulos Mundiais e dois olímpicos e pode sair de Milão-Cortina ainda mais carregado. Stolz deverá participar também nos 1500 metros e na mass start. Neste momento, é Jordan quem dita as regras na patinagem de velocidade. Mais triunfos só engrandecerão o progresso imenso que fez neste ciclo olímpico.

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