Jogos Olímpicos de Inverno 2026

A 10 meses dos Jogos Olímpicos de Inverno, Federica Brignone não sabia se ia voltar a andar normalmente. Por “milagre”, ganhou dois ouros

Federica Brignone a celebrar a sua "obra-prima de perseverança"
Federica Brignone a celebrar a sua "obra-prima de perseverança"
Mattia Ozbot

Uma queda aparatosa causou-lhe múltiplas lesões. Os médicos estimavam que tudo voltasse ao normal em dois anos (se voltasse). Sete meses depois do acidente, La Tigre já tinha regressado aos treinos para se preparar para os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina. Na neve caseira, a italiana de 35 anos tornou-se a campeã olímpica mais velha do esqui alpino

No filme de animação “Luca”, que decorre num cenário inspirado na Riviera italiana, a personagem principal é uma criança a descobrir o quão divertida é a vida quando se tomam pequenos riscos e se quebram algumas regras. Silêncio, Bruno!, repete sempre que algo no seu interior lhe diz para não avançar.

Federica Brignone terá calado muitas vezes a voz que lhe recomendava a não descer colinas níveas a uma velocidade canhão depois de se ter lesionado com tamanha gravidade. Ela ignorou-a.

Dez meses antes dos Jogos Olímpicos de Inverno, a esquiadora sofreu uma queda aparatosa após se ter embrulhado num pórtico durante os campeonatos nacionais de Itália. A neve é mentirosa e, embora tenha um aspeto fofo, não atenua as consequências de acidentes como o da milanesa.

As lesões provocadas foram: fratura na tíbia… fratura na fíbula… múltiplas fraturas no platô tibial… deslocação completa do joelho… rutura do ligamento cruzado anterior... rutura do ligamento colateral medial... rutura do menisco.

É mais fácil perguntarem-lhe que zona do corpo não partiu.

Era irrisória a probabilidade de competir em Milão-Cortina, o congresso desportivo que lhe organizaram à porta de casa. Os especialistas apontavam para dois anos de recuperação. Brignone fê-lo em sete meses. Em novembro de 2025 regressou aos esquis, mesmo que muitos duvidassem que pudesse voltar a andar normalmente.

A italiana “nem sequer a 80%” está, mas, mesmo com “muitas dores”, foi aos Jogos Olímpicos de Inverno e não passou despercebida. Federica Brignone sagrou-se campeã olímpica no Super-G e no slalom gigante numa prestação que descreveu como “uma obra-prima de mentalidade e perseverança”.

O “milagre” fez da esquiadora de 35 anos a campeã olímpica mais velha da sua modalidade. “O acidente foi muito mau e estive muito próxima de nunca mais conseguir ser atleta”, desabafou alguém que já tinha no cofre uma medalha de prata (slalom gigante) e duas de bronze (slalom gigante e combinado) em Jogos de Inverno.

Sara Hector e Thea Louise Stjernesund conseguiram a proeza de ficarem empatadas nas duas mangas da prova de slalom gigante e dividiram o segundo lugar. Mais do que celebrarem a prata, comemoraram a vitória de Brignone. A vénia das rivais confirmou que, além de ter vencido duas disciplinas, também subiu ao pódio da superação.

Treinada pelo irmão, Davide Brignone, e filha de Maria Rosa Quario, antiga praticante de esqui alpino que participou nos Jogos de Inverno em 1980 e 1984, Federica é conhecida por La Tigre. Honra a alcunha nos capacetes e nas luvas que utiliza. Confirma-se: este espírito de sacrifício é mesmo desumano.

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