Jogos Olímpicos de Inverno 2026

Em casa dos Prevc, toda a gente voa e quatro irmãos já ganharam medalhas olímpicas

Domen é um dos quatro irmãos Prevc que já ganharam medalhas olímpicas nos saltos de esqui
Domen é um dos quatro irmãos Prevc que já ganharam medalhas olímpicas nos saltos de esqui
Tom Weller

Peter, Cene, Domen e Nika são irmãos, vêm da mesma aldeia de 500 habitantes da Eslovénia e entre eles somam dez medalhas olímpicas nos saltos de esqui. Os dois últimos tomaram o testemunho deixado pelos mais velhos, já retirados, e brilharam em Milão-Cortina

Dolenja Vas terá de ser o lugar do planeta com mais medalhas olímpicas per capita. E todas concentradas numa única casa. Foi nesta pequena aldeia no norte da Eslovénia, com cerca de 500 habitantes, que Božidar and Julijana Prevc formaram família. Dos cinco filhos, três rapazes e duas raparigas, quatro deles, os mais velhos, tornaram-se o mais perto que um ser humano fica de se metamorfosear em pássaro: dedicaram-se aos saltos de esqui.

A visão é, para o comum humano, assustadora: o trampolim está a 150 metros do chão e um atleta lança-se lá de cima numa rampa atingindo velocidades de quase 100 quilómetros por hora. Depois, é a física a funcionar, o atleta voa sustentando-se nos esquis e na posição mais aerodinâmica possível, tentando aterrar o mais longe que der na neve. É menos perigoso do que possa parecer, porque as leis da ciência são realmente incríveis.

Foi nesta vida de sobe e desce que cresceram Peter, Cene, Domen e Nika Prevc. Entre eles somam dez medalhas olímpicas nos saltos de esqui, disciplina que mais rodelas de metal precioso deu à Eslovénia em Jogos Olímpicos, seja de inverno ou verão. Peter foi o pioneiro: foi prata e bronze em Sochi 2014, no trampolim normal e longo, respetivamente, e ouro e prata em Pequim 2022, na prova por equipas mistas e nas equipas masculinas. Nessa mesma prova por equipas masculinas estava o seu irmão Cene. Ambos retiraram-se entretanto, passando o testemunho a Domen e Nika, que têm brilhado em Milão-Cortina.

Nika e Domen, os dois atletas do meio, festejam o título olímpico nas equipas mistas
picture alliance

Domen, de 26 anos, foi ouro no trampolim longo e na prova por equipas mistas, onde estava também a sua irmã. Nika, de 20 anos, que tem sido a grande dominadora da modalidade no feminino e fez a estreia olímpica com três medalhas, uma de cada cor: além de campeã nas equipas mistas, foi prata no trampolim normal e bronze no trampolim longo.

Uma questão de dinastia

Em 2010, quando Peter dava os primeiros passos na Taça do Mundo de saltos de esqui (tornar-se-ia campeão em 2016), um jornal local tirou uma premonitória foto. Nela, Peter parece dar uma aula de postura no trampolim aos três irmãos mais novos, ainda crianças - falta Ema, a mais nova de todos, que prefere andar com os pés bem no chão. Dezesseis anos depois, os quatro sabem o que é ter uma medalha olímpica ao peito.

O pai Prevc, Božidar, é empresário na área dos móveis, mas estava ligado aos saltos de esqui como juiz em provas internacionais. Num país com tradição nos saltos - Primož Peterka foi campeão da Taça do Mundo em 1997 e 1998 e medalha de bronze nos Jogos de 2002 e o ciclista Primož Roglič chegou a ser campeão mundial júnior na modalidade -, Peter começou por praticar esqui de fundo, mas cedo se aborreceu. De acordo com a AP, o mais velho dos Prevc construía obstáculos que tornavam possível fazer pequenos saltos durante o esqui, o que levou Božidar a inscrevê-lo num clube de saltos de esqui local.

Peter, à esquerda, com o irmão mais novo Domen quando este conquistou o Torneio dos Quatro Trampolins no início do ano
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Os irmãos seguiram simplesmente o exemplo que tinham em casa. Antes de arrumar os esquis em 2024, Peter ganhou 24 etapas da Taça do Mundo, somando 62 pódios. Os quatro estudaram e afinaram o talento para o voo na cidade de Kranj, no centro nacional de saltos de esqui e combinado nórdico. Num país de apenas dois milhões de habitantes, cabem mais de duas dezenas de clubes de saltos e em Kranj juntam-se os melhores entre os mais jovens em regime de internato.

Hoje, Peter faz parte do staff da equipa nacional de saltos, que é comandada por Robert Hrgota, que estava nessa seleção campeã mundial júnior em 2007 com Primož Roglič, que entretanto se tornou um dos melhores ciclistas do mundo, tal é a apetência da Eslovénia para criar atletas de elite - Luka Dončić, Tadej Pogačar, Janja Garnbret, Tina Maze, tantos outros. Já Cene teve uma carreira menos prolífica e mais curta, abandonando a competição aos 26 anos para estudar: está em Milão-Cortina como comentador para uma televisão eslovena e tem também uma carreira como humorista.

Aos 20 anos, Nika Prevc já tem dois títulos da Taça do Mundo de saltos de esqui em nome próprio
Michel Cottin/Agence Zoom

Domen e Nika não estão para piadas e prometem chegar até mais longe que o irmão mais velho. Além das medalhas olímpicas, Domen, de 26 anos, já acumulou 20 vitórias em Taças do Mundo e é o maior candidato a ficar com o Globo de Cristal de campeão da classificação geral de 2026, que lidera com folga. Este ano venceu também o prestigiado Torneio dos Quatro Trampolins. A caminhada de Nika é ainda mais fulgurante. Com apenas duas décadas de vida, é a atual bicampeã da Taça do Mundo feminina e prepara-se para agarrar um terceiro título. Domen e Nika são ainda os recordistas mundiais em distância nos saltos de esqui (254,5 metros e 236 metros, respetivamente).

A dinastia Prevc deixou Dolenja Vas e pertence ao mundo olímpico. E daqui a quatro anos ainda vão a tempo de a reforçar.

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