Jogos Olímpicos de Inverno 2026

Tem 41 anos, vai doar o cérebro à ciência e acaba de ser campeã olímpica: enquanto viaja com os dois filhos surdos

Elana Meyers Taylor já tinha cinco medalhas olímpicas no bobsleigh, mas há 16 anos que perseguia o ouro
Elana Meyers Taylor já tinha cinco medalhas olímpicas no bobsleigh, mas há 16 anos que perseguia o ouro
ANDREA SOLERO

À sua quinta participação olímpica, foi por 0.04 segundos que Elana Meyers Taylor ganhou o ouro na prova individual de bobsleigh. A tetracampeã mundial, que vai dar o seu cérebro à ciência, já era a atleta negra mais medalhada na história dos Jogos de Inverno e, ao celebrar a vitória, tinha os filhos de 3 e 6 anos consigo, como sempre. O mom power é real: ao seu lado nos festejos estava Kaillie Humphries, de 40 anos, que ficou com o bronze e também comemorou com o seu rebento

O impulso de Elana Meyers Taylor é pular que nem criança, joelhos a irem ao peito. Depois agacha-se, a emoção crava-lhe o traseiro no chão, curvada sobre a bandeira dos EUA, as estrelas e as listras amarrotadas nas mãos. À sua frente, na carpete do pequeno púlpito onde a dona do melhor tempo no bobsleigh deve aguardar pela prestação das restantes atletas, está Noah, deitado com a barriga em baixo, encasacado mas descalço; em pé, diante de ambos, Nico observa atónito a alegria da mãe.

Elana Meyers Taylor tivera de esperar nem quatro minutos, feito o seu tempo de 3:57.93 apenas sobrava Laura Nolte dar às pernas, empurrar o seu trenó com mais de 160 quilos, pular lá para dentro, encaixotar-se no interior e evitar tocar nas paredes da estreita pista enquanto deslizava a mais de 100 km/h. Quando a alemã chegou à meta, a festa da norte-americana foi possível pela mais estreia das margens: tardou só mais 0.04 milésimos de segundo a completar o percurso.

Deitadas cá para fora as emoções no Cortina Sliding Centre, as cuscuvilheiras câmaras misturadas na zona dos atletas apanharam Elana Meyers Taylor a falar para Noah, o seu mais novo, em linguagem gestual. É surdo, tal como Nico, ambos portadores de uma mutação genética que lhes retirou a audição. O mais velho nasceu também com síndrome de Down e Elana, desde cedo, fez questão de viajarem em família para as competições de bobsleigh.

Qualquer pai ou mãe o dirá, num pestanejar, o difícil que é apanhar um autocarro com asas na companhia dos filhos, em especial se forem toddlers, a expressão em inglês para crianças pequenas: os choros inopinados, as súbitas birras, atenção constante a ser dada. Elana Meyers Taylor coleciona fotografias com os seus dentro de aviões, a dormirem esparramados sobre a mãe. Nestes Jogos de Milão-Cortina d’Ampezzo, os quintos em que participa (começou em Vancouver 2010), não seriam diferentes.

Elana Meyers Taylor a empurrar o seu ‘monobob’ em Milão-Cortina, nos seus quintos Jogos Olímpicos de Inverno
Andrew Milligan - PA Images

Aos 41 anos, já com cinco medalhas olímpicas prateadas ou bronzeadas, a norte-americana crescida em Atlanta, filha de um marine e cheia de memórias de infância nas ruas da cidade, em 1996, a pasmar-se ao ver os atletas a competirem nos Jogos de verão, cismou com ser olímpica um dia. Meyers tentou o softball (a versão do beisebol com uma bola mole, lançada por baixo), acabaria no gelo.

Nascido Nico, o primeiro filho, a pandemia deu cabo do minucioso plano de recuperação da forma física desenhado com o marido, ele um antigo atleta do bobsleigh; quando veio o segundo também com necessidades especiais, Elana quis levá-los consigo para os ensinar pelo exemplo. “Eles vão enfrentar desafios que eu nunca compreenderei. Quero que vejam como, apesar dos obsetáculos, podes continuar a perseguir o teu sonho. Quero que me vejam com medalhas ao pescoço. Mas também quero que me vejam a erguer-me e a lutar depois de ser derrubada”, explicou, antes destes Jogos, ao The Athletic.

Em Pequim, na estreia olímpica da prova individual feminina do bobsleigh, ou ‘monobob’, Nico viu a mãe ganhar a medalha de prata, a sua quinta em Jogos. A sexta e primeira de ouro veio agora, em Milão-Cortina, com os irmãos a transgredirem a hora do chichi-cama para verem a mãe ser campeã olímpica. “Isto é tudo e, ao mesmo tempo, é nada, porque daqui a seis dias tenho de os levar à escola no meio do Texas”, explicou Elana Meyers Taylor, após vencer a prova, decidida a ser um exemplo para as mulheres a quem é repetido o mandamento de que o seu corpo jamais será o mesmo ao serem mães.

Ou, como Kaillie Humphries tanto ouviu “assim que entras nos 40”, a sua idade, “é sempre a descer”.

Elana Meyers Taylor com Kaillie Humphries assim que a prova as confirmou como medalhadas no bobsleigh
Julian Finney

O desabafo de que deu conta, na segunda-feira, não é mentira no sentido literal. Gastos de escutarem a premonição, os ouvidos da também norte-americana encheram-se mais com congratulações pela perícia que revelou a deslizar pista abaixo, só por 0.12 segundos menos rápida em relação à compatriota que se apressou a afagar, só com um abraço, porque no outro já tinha Aulden, o seu sonolento filho: “Estava 100% a dormir quando mo passaram, mas pensei, ‘desculpa-me, faço questão de ter este momento contigo.’” Duas mães medalhadas a mostrarem que sim, é possível.

Campeã olímpica em 2022 pelos EUA - antes vencera dois ouros pelo Canadá, onde nasceu - Humphries partillha o treinador com Meyers. Treinam juntas, puxam uma pela outra, ambas são casadas com ex-bobsledders e tiveram que aprender a ter as calorias e os nutrientes sob lupa, suficientes para alancarem com o alto rendimento enquanto amamentam os filhos, às vezes mesmo antes das provas. Nem sempre esse malabarismo correu bem.

Uma vez, logo após uma corrida da Taça do Mundo, na Suíça, a agora dona do ouro olímpico desmaiou, exausta do ritmo a que se dedicava quem pouco tempo aguentou quieta após dar à luz. Meyers já se mordia se nervos por regressar ao gelo. “Ser mãe é bem mais difícil do que o bobsleigh, garanto-vos”, brincou, em Milão-Cortina. “Eu só durei três semanas em casa como mãe a tempo inteiro.” Privadas da benesse dos homens que se virarem pais-atletas podem deixar a criança com a mãe, o equilibrismo já parece ser como respirar para Kaillie Humphries: há pouco mais de dois meses, publicou um vídeo a fazer agachamentos num quarto de hotel com o filho nos braços e o marido às cavalitas.

Sem desculpas, legendou essa publicação.

Elana Meyers Taylor é a atleta negra mais medalha da história dos Jogos Olímpicos de Inverno
Julian Finney

Apregoa a mais nova das quarentonas recém-medalhadas nestes Jogos Olímpicos que elas são “a prova” de que ter filhos não é um sempre a descer figurativo. “Tudo fica diferente em comparação com quando tinhas 20 anos, mas isso não significa que não possas chegar ao topo do pódio”, resumiu Humphries, a poder usar uma amiga para empedrar o seu argumento.

E fê-lo com uma dose generosa de lombas a não quererem que ela chegasse a Milão-Cortina. Ainda antes de ser mãe e a atleta negra com mais medalhas olímpicas de inverno, Elana Meyers Taylor sofreu, na década passada, quatro concussões em competição (de que saiba). No bobsleigh que comprime os atletas com quatro ou cinco forças G e onde, a cada toque nas paredes da pista, há uma cabeça dentro de um capacete de moto a ir contra os limites do trenó, a norte-americana teve a sua carreira ameaçada pelas constantes pancadas.

Por isso, decidiu doar o cérebro à Concussion Legacy Foundation e a investigação da encefalopatia traumática crónica (CTE), doença neurodegenerativa comum em modalidades de contacto, como o boxe, o râguebi ou o futebol americano, mas ainda pouco estudada “As mulheres estão largamente subrepresentadas nestas doações”, explica, em 2018, ao USA Today, depois de lidar durante meses com sintomas, das dores de cabeça às alterações ríspidas de humor. “Os capacetes são feitos para prevenir coisas más, mas quem sabe o que são capazes de conter? O bobsleigh é violento.”

Até o seu cérebro lá chegar, ainda vai mostrar aos filhos como se ganha e perde.

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