Põe esqui, tira esqui, sobe escada e desliza: a aventura do skimo entrou nos Jogos para Espanha ter o seu ouro na neve
A escadaria que os atletas tinham de galgar durante a subida da prova de skimo
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O esqui-montanhismo, única modalidade nova nestes Jogos de Inverno, levou com um nevão em cima na estreia enquanto os atletas corriam com esquis nos pés antes de os descalçarem, subirem dezenas de degraus e os voltarem a colocar, para deslizarem colina abaixo. Nas corridas ao sprint do que é abreviado para skimo, e cujas origens vêm, em parte, da Grande Guerra, quando italianos e austro-húngaros andaram aos tiros na neve, as diferenças vieram quando os atletas estavam parados. E Espanha ganhou o seu primeiro ouro em 54 anos
Nevam flocos-mil, o céu cinzento e nebuloso despeja o seu açúcar sobre a pista de Bormio formando um cenário esbranquiçado, mas agreste. Não facilita a vida às mulheres que correm encosta acima sobre a neve, de forma desnatural: têm esquis nos pés. E depois deixam de os ter, porque há degraus; para depois voltarem a calçá-los, porque há uma descida.
Olhando com lunetas de lógica, o esqui-montanhismo faz pouco sentido.
Primeiro, não é como os saltos de esqui, onde há um simpático elevador que presta boleia aos atletas, galga uns 15 andares e lhes dá a altitude de onde se precipitam em competição. Não o skimo, abreviatura usada pelos seus devotos: pede aos atletas que deem corda aos esquis para correrem o mais rápido possível, com bastões nas mãos, numa primeira subida delimitada com áreas em losango; que parem para desprenderam os esquis das botas, os arrumarem na pequena mochila que levam às costas e subam dezenas de degraus escorregadios e, conquistada a inclinação, regressarem aos esquis para ascenderem mais um pouco antes de deslizarem pista abaixo, num ligeiro slalom final.
Em coisa de três minutos, com muita pressa, está feito.
A modalidade ainda na flor da idade, profissionalizada na virada do milénio (os seus primeiros Mundiais são em 2002), é a única estreante nestes Jogos Olímpicos de Milão-Cortina, mas em versão sprint, chegada para apelar à rapidez dentro do nevão que varre os Dolomitas na quinta-feira. Pede muito afã ‘apenas’ para um volta ao circuito e a muche da questão, como se vê nas redes sociais de muitos dos 36 atletas participantes, está mais nas transições, nos instantes em que estão parados.
Vista lateral da escadaria que os e as atletas tiveram que subir
Dustin Satloff
São três os momentos na corrida em que tratam o equipamento de prova como malabares, frenéticos no manuseio que praticam em quartos de hotel, sobre buracos, escadas ou objetos propositdamente deitados ao chão para os atrapalhar: começam por correr sobre esquis com uma ‘pele’ rugosa colada à sola, para lhes dar aderência à neve, têm de os descalçar antes de atacarem os degraus e depois calçar, mas sem a camada que dá tração, que descolam e arrumam na hora, pois aí o que carecem é de deslizar.
Confiando no site da Federação Internacional de Skimo, “mistura endurance, aptidão técnica e aventura alpina”. Visto de fora, parece mesclar várias tentativas de humanos em dificultarem a tarefa a eles próprios enquanto atacam, cheios de urgência, uma subida de 70 metros até um pico 1285.
Nesta primeira estreia de uma modalidade desde 1998, quando o snowboard entrou na família olímpica, houve o pranto da desilusão vista em qualquer outra - o choro desalmado da polaca Iwona Januszyk, ao ficar no último lugar da sua eliminatória - e algo de louvar, por ser pouco usual, como a predominância de uma nação com pouco rasto nos Jogos de Inverno. No skimo, os espanhóis são uma força: Oriol Cardona Coll, campeão do mundo, lidera o ranking masculino, Ana Rodríguez e Maria Costa Diez, juntas no mesmo heat, rumam sem percalços às meias-finais, às quais só uma sobreviveu.
A madrasta da culpa são os segundos de demora na jigajoga com o material, onde cabe a certa contradição do skimo - uma modalidade de neve, socalcos e deslizares, mas que, no fundo, se decide quando os praticantes param, mexem no inventário do equipamento e trocam de peças.
Dustin Satloff
Dustin Satloff
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No que, para nós, comuns mortais alheios à neve, seriam largos minutos de empecilho (bora os esquis no chão no sítio exato, acertar com a bota no encaixe, prendê-la, tratar da outra, pegar nos bastões, e encadear tudo isto a arfar de cansaço), para os atletas é a diferença onde corridas se ganham ou perdem. A eslovaca Marianna Jagerčíková, repleta de força nos seus 40 anos, liderou metade da sua semi-final quando uma das teimosas tiras presas aos esquis não descolou à primeira. Foi o suficiente para a campeã mundial de 2023 ser a última a chegar à meta.
A final feminina foi decidida, portanto, nas margens dilaceradas pelas transições. Emily Harrop, filha de pais ingleses mudados para França, ‘obrigada’ a competir pela bandeira tricolor vinda da Revolução Francesa porque, quando perguntou por skimo à federação britânica nem equipa tinham, liderou durante as duas subidas iniciais, mas a suíça Marionne Fatton ultrapassou-a parada, com a sua rapidez a arrumar os instrumentos, ficando com o ouro. O bronze seria de Ana Alonso Rodríguez, conquistadora da sexta medalha na história de Espanha com os Jogos invernais.
E Oriol Cardona Coll, com o seu brinco na orelha e embalo de favorito, ganhou o ouro, o primeiro do país em 54 anos, feroz a engolir metros na subida e mecânico a pôr e dispôr do equipamento. O catalão de Banyoles, perto de Girona, apreciado pelas alcoviteiras revistas cor-de-rosa do seu país - namora com uma atriz de televisão - e que não há muito tempo dava treinos e fazia biscates como modelo para ganhar o pão que o skimo não lhe dava, é o primeiro espanhol desde 1972 a ganhar a medalha do metal mais precioso no meio da neve.
Oriol Cardona Coll a celebrar com Nikita Filippov, à sua esquerda, russo que ficou com a medalha de prata, e o francês Thibault Anselmet, dono do bronze
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Aos 31 anos, o especialista do skimo é igualmente perito no trail running (tem um bronze mundial), nas corridas em trilhos pela montanha para onde muitos dos atletas desta modalidade levam os esforços nos meses de verão. O ciclismo é outro passatempo comum. Coll tem como amigo próximo Killian Jornet, ultramaratonista espanhol, também catalão, já de Evereste domado a correr e que vive a escalar os restantes picos do planeta a dar à sola das sapatilhas.
No leito de Bormio, por sua vez no sopé da Passagem de Stelvio, única ligação por estrada com a Suíça no meio na cordilheira dos Dolomitas e onde, há um século, italianos e austro-húngaros andaram aos tiros sobre esquis na Grande Guerra (diz-se que é uma das origens desta modalidade), Oriol Cardona Coll arrancou a final sob uma atmosfera ruidosa, cheia de cornetas e bandeiras no público que enchia a bancada montada com vista para o circuito.
Está por saber se o esqui-montanhismo, agora skimo já que andámos a aprender, continuará no programa olímpico para 2028. Os decibéis das milhares de pessoas, na plateia e espalhadas pelo manto branco, abeiradas da corrida apesar do nevão a cair, mostrou que entusiasmo não falta pela corrida que encontra a sua animação competitiva quando os atletas têm de parar. A falta de sentido do põe os esquis, descalça os esquis, o sobe as escadas, o volta a por os esquis, afinal, faz sentido.