Toda a gente apostava nas “Blade Angels” norte-americanas, mas é Ami Nakai, de 17 anos, quem está a surpreender na patinagem artística
Aos 17 anos, a nipónica surpreendeu ao somar a melhor nota no programa curto da patinagem artística feminina
Steve Christo - Corbis
Com um triplo axel que apenas mais uma patinadora tentou e uma atuação limpa e cheia de energia no programa curto, a miúda japonesa em quem ninguém apostava para as medalhas na patinagem artística feminina parte na frente para o programa livre, que se disputa esta quinta-feira (17h45, Eurosport). Os Estados Unidos voltam a abeirar-se de uma desilusão, depois da prova masculina
Toca a composição sonora de Nino Rota que atravessa o filme “A Estrada” de Fellini e Ami Nakai passa de cara séria a feliz no espaço de um triplo axel concretizado. Faz o percurso contrário da personagem de Giulietta Masina na película, ela que foi da ingenuidade ao peso da vida, enquanto a japonesa explodiu para uma atuação cheia de leveza e sorrisos mal lhe saiu o mais complexo dos saltos que se viram no programa curto da patinagem artística feminina dos Jogos Olímpicos de Milão.
Antes das primeiras piruetas no feminino começarem a surgir na Milano Ice Skating Arena, os destaques nas discussões sobre favoritismos iam quase exclusivamente para o trio de norte-americanas, apelidadas de “Blade Angels”, anjos em lâminas, portanto, em busca da primeira medalha olímpica para o país desde 2006. Nessas conversas, Amber Glenn, a campeã nacional, Alysa Liu, a campeã mundial em título, e Isabeau Levito, a caçula do grupo, campeã mundial júnior em 2022, juntava-se a nipónica Kaori Sakamoto, veterana apesar dos 25 anos, três vezes campeã mundial e a tentar uma primeira medalha de ouro olímpica à terceira tentativa e com a retirada no horizonte.
Porém, no final do programa curto, seria a atleta mais jovem em prova, ausente no debate das medalhas, a sentar-se no topo.
Ami Nakai tem 17 anos e está a completar a sua primeira temporada como sénior. Participar nos Jogos Olímpicos nem sequer era uma possibilidade na sua cabeça quando começou a patinar no rinque das grandes. Foi, aliás, apenas 4ª nos Campeonatos Nacionais do Japão, mas a consistência de resultados ao longo da época valeu-lhe uma das três vagas para Milão-Cortina. Isso e a audácia de arriscar: no programa curto, Nakai foi apenas uma de duas atletas a tentarem o temido triplo axel, salto que apenas duas mãos-cheias de atletas conseguiram aterrar em competição na história da patinagem.
A outra foi Amber Glenn, que depois de acertar o mais difícil dos saltos, falhou noutro triplo bem mais simples, escorregando para o 13º lugar.
Matthew Stockman
Matthew Stockman
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Para Nakai, o triplo axel, movimento em que se tem especializado,deu o mote para uma prova limpa, cheia de velocidade e com sequências de passos e piruetas valorizadas com o nível mais alto, o quarto. E, de repente, uma nova estrela olímpica floresceu. Ou, pelo menos, deu os primeiros passos para isso, já que esta quinta-feira terá de enfrentar o bem mais exigente programa livre onde, tal como no curto, Nakai será uma das atletas que mais se vai atrever: nos conteúdos planeados para o programa, volta a constar o triplo axel. Mais uma vez, só a jovem japonesa e Amber Glenn projetam fazer o salto na prova mais longa.
Da ginástica para o gelo
Nascida em Niigata, cidade costeira 300 quilómetros a norte de Tóquio, Ami Nakai viu nascer em si o gosto pela patinagem artística depois de assistir a uma prova de Mao Asada, lendária patinadora nipónica, três vezes campeã mundial e medalhada de prata nos Jogos Olímpicos de 2010. Enquanto esperava que uma pista de gelo fosse construída na cidade, começou por praticar ginástica rítmica. Aos oito anos já tinha o duplo axel no seu arsenal e pouco depois conseguia acertar saltos triplos. Aos 14 anos aterrou pela primeira vez um triplo axel em competição.
A sua evolução tem sido fulgurante: em outubro, na estreia em etapas do Grand Prix, ganhou em França e seria segunda na final do circuito. Já depois de ver o seu nome entre as escolhidas do Japão para os Jogos Olímpicos, foi 2ª classificada no Campeonato dos Quatro Continentes, competição oficial equivalente ao Europeu, mas apenas para atletas de fora do Velho Continente.
Faltando-lhe ainda a fisicalidade de Sakamoto ou de Amber Glenn e Alysa Liu, Ami Nakai diz que observar as norte-americanas tem sido uma forma de se pressionar para fazer saltos mais difíceis. Ainda assim, Nakai é cautelosa e mesmo após ficar no 1º lugar no programa curto, não acredita que seja favorita à vitória final esta quinta-feira: “Ainda não tenho hipóteses frente à Kaori [Sakamoto]. Estou aqui apenas aproveitar estes Jogos Olímpicos.”
As três primeiras do programa curto, Nakai, Sakamoto e Liu, vão partir para o programa livre separadas por pouco mais de dois pontos, pelo que é sensato ter alguma parcimónia. E ainda há que contar com uma possível surpresa.
Há quatro anos, as russas Anna Shcherbakova e Alexandra Trusova apresentaram saltos quádruplos na final olímpica, algo que em Milão não está previsto que aconteça, olhando para os programas provisórios de cada finalista. Mas Adeliia Petrosian, moscovita de 18 anos que compete como neutral e que foi 5ª no programa curto, é uma incógnita: por nunca ter competido internacionalmente como sénior, devido à exclusão da Rússia, sabe-se pouco sobre a atleta, que, garantem no seu país natal, é capaz de aterrar vários saltos quádruplos. Se os fizer no programa livre, dificilmente não entrará na luta pelas medalhas.