Jogos Olímpicos de Inverno 2026

A febre laranja com a patinagem de velocidade invadiu os Jogos. Uma neerlandesa chamada Antoinette é a mais recente culpada

Com nome da última rainha condenada à guilhotina em França, a patinadora neerlandesa deu ao seu país a 17ª medalha na patinagem de velocidade nestes Jogos Olímpicos de Inverno
Com nome da última rainha condenada à guilhotina em França, a patinadora neerlandesa deu ao seu país a 17ª medalha na patinagem de velocidade nestes Jogos Olímpicos de Inverno
Dean Mouhtaropoulos

Se há coisa pela qual os neerlandeses vibram é a patinagem no gelo. Os milhares que têm pintado, e pintaram de novo, o pavilhão olímpico de Milão talvez esperassem que Femke Kok, ouro nos 500 metros e prata nos 1000, fizesse um brilharete nos 1500, onde decidiu participar apesar de não ter competido na distância esta época. Mas não. Foi Antoinette Rijpma-de Jong, uma das patinadoras menos mediáticas, a ser campeã

Quem já se tenha agasalhado com camadas de roupa e ido, quando o inverno aperta, aos Países Baixos, pôde constatar a alegria de avós, pais, filhos e netos, por vezes todos juntos, a conviverem sobre os canais que servem como as veias de qualquer cidade. Cai a temperatura, a água congela, os neerlandeses reverberam, já podem deslizar.

Nada se estranhou, portanto, ouvir de Femke Kok que vem de um “país muito pequeno”, humilde em aspirações, bastante frio embora não ao ponto de rachar ossos e ter neve com fartura para o desporto de inverno, mas atenção: “conseguimos fazer patinagem de velocidade.”

Mais esquisito foi saber que a campeoníssima de Nij Beets, aldeia a norte do país que roubou terra ao mar, ia competir nos 1500 metros em Milão, disposta a cumprir cinco vezes o percurso onde é intocável se a corrida exigir apenas uma volta à pista. O seu trilho no gelo demonstra-o: não perde uma prova há mais de dois anos, venceu todas as cinco etapas da Taça do Mundo esta época, conquistou os três últimos Mundiais e, há dias, surpreendeu ninguém ao levar o ouro nos 500 metros.

As palavras de Erin Jackson, norte-americana a quem Femke Kok sucedeu, no pedestal olímpico. “Ela tem sido a pessoa a perseguir nos últimos anos. Simplesmente, é incrível”, disse a destronada do ouro, honesta 5ª classificada na distância que a neerlandesa venceu por 0.66 segundos, um atchim, à frente da compatriota Jutta Leerdam.

Femke Kok com a pista só para si, a patinar sozinha, com gelo limpo, na prova dos 1000 metros
Joosep Martinson

Ambas partilham uma considerável dose da culpa que tem pintado de laranja o redor da pista de gelo. Em Milão, no pavilhão onde decorrem as provas da patinagem de velocidade, os neerlandeses enchem as bancadas, agitam bandeiras, mostram cartazes de apoio, montam coros de gritos cada vez que um atleta do país provoca sons de naifadas ao sulcar o gelo com os patins no arranque de uma prova. Kok ganhou os 500 metros, Leerdam nos 1000, uma ficou com a prata quando a outra levou o ouro.

Elas sustentam parte da berraria, do frenesim, de toda a febre laranja com a patinagem, mas as diferenças que as separam não cabem num espirro.

Bicampeã mundial antes de ser olímpica, Jutta capta títulos de jornais pelas proezas em competição e anima algoritmos por ser uma cara bonita, casada com um YouTuber virado lutador de artes marcais, Jake Paul, que merece documentários, turvando a fronteira entre os dois lados: antes de os Jogos Olímpicos começarem já havia polémica com Leerdam por voar de jato privado para Milão, fora da comitiva neerlandesa, e ter preferido assistir à cerimónia de abertura pela televisão.

Quando conquistou o ouro nos 1000 metros, abriu de pronto o fecho do fato, na meta, mostrou o soutien da Nike e textos escreveram-se acerca do milionário contrato de publicidade por trás de tal gesto. Não era preciso ter feito tal coisa para já constar em alguma variante de artigos ‘jornalísticos’ com títulos no molde “Veja as atletas que estão a arrasar corações nos Jogos Olímpicos de Inverno”.

Já Femke Kok, simplesmente, é uma patinadora.

Antoinette Rijpma-de Jong foi a penúltima a acelerar no gelo e, depois, fez figas para que o último par de atletas não lhe tirassem a liderança da prova
Joosep Martinson

Esta sexta-feira fez jus ao dito por Erin Jackson. Foi a primeira a atacar a pista, com gelo limpo, nos 1500 metros, sem companhia por entre o número ímpar de atletas que patinam em pares lhe calhar ficar sozinha. Sob um frenesim de berraria laranja, Kok demorou 1:54.79 segundos a dar cinco voltas à pista e, finda a missão que a fez abanar a cabeça em desaprovação na meta, ficou como pessoa a perseguir.

Durante muito tempo, Femke liderou a classificação sabedora de que só lá mais para o final da lista de 29 competidoras o gelo acolheria as mais ferozes. A canadiana Valerie Maltais empurrou-a para fora do trono, a norueguesa Ragne Wiklund também, depois os 37 anos da inglesa Brittany Bowe mostraram como nos 1500 metros, onde Kok nem ranking tinha para apresentar (participou em nenhuma prova da distância esta temporada), ela está vetada a ser uma das perseguidoras.

O sincronizado treinador dos Países Baixos que com ela acenou com a cabeça, pouco otimistas de que o tempo chegasse para triunfar, partilharia com o público da sua cor a efusão de alegria quando Antoinette Rijpma-de Jong tomou o cume da classificação com o seu tempo de 1:54.09, só 0.70 centésimos mais rápida do que Femke Kok - e 0.06 face a Wiklund.

Por espirros se decidem medalhas na patinagem artística de velocidade onde as atletas deslizam curvadas, de braços atrás das costas, a empurrarem o gelo com as lâminas numa lenta, e enganadora, síncope de movimentos. O ouro ficou para a mais velha das três neerlandesas em prova - Marijke Groenewoud foi a 10ª mais rápida -, todas vindas de pequenos povoados da Frísia, província nortenha dos Países Baixos. Rijpma-de Jong já viera de Pyeongchang com um bronze nos 3000 metros, de Pequim trouxe a prata na distância onde se fez agora campeã olímpica em Milão.

Com nome de princesa francesa condenada à guilhotina, Antoinette Rijpma-de Jong, de 30 anos, deu à histeria laranja com a patinagem em água congelada a 17ª medalha nos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina d’Ampezzo. Vêm de um país pequeno, mas acelerar sobre o gelo é com eles.

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