Jogos Olímpicos de Inverno 2026

Alysa Liu foi espiada pela China, reformou-se aos 16 anos e regressou leve e feliz para ser campeã olímpica na patinagem artística

Com o seu cativante programa longo, que juntou a técnica ao espectáculo, a jovem de 20 anos tornou-se na primeira campeã olímpica norte-americana na patinagem em 24 anos
Com o seu cativante programa longo, que juntou a técnica ao espectáculo, a jovem de 20 anos tornou-se na primeira campeã olímpica norte-americana na patinagem em 24 anos
VCG

A norte-americana foi precoce em tudo, até no adeus. Mas havia algo mais dentro dela depois do 6º lugar dos Jogos de Pequim de há quatro anos, em que precisou de proteção especial. Em 2024, Liu voltou à competição e um ano depois sagrou-se campeã mundial. O seu estilo livre de amarras e onde a expressão artística compete com a técnica valeu-lhe também o título olímpico

“Estou aqui para anunciar que me vou retirar. Sinto-me satisfeita com a minha carreira. Agora que atingi todos os meus objetivos, vou seguir com a minha vida.”

Esta poderia ser uma mensagem de despedida padrão, sem arabescos pessoais ou adjetivações expressivas sobre o antes e o que por aí vem. Poderia pertencer a qualquer atleta com o prazo de validade competitivo a expirar. Só que esta mensagem foi rabiscada, em 2022, por uma atleta com 16 anos.

Alysa Liu vinha de um 6º lugar nos Jogos Olímpicos e do bronze nos Mundiais. Três anos antes, com apenas 13 anos, tinha-se tornado a mais jovem campeã nacional norte-americana na patinagem artística no gelo, repetindo o título na temporada seguinte. Com 14, aterrou um salto quádruplo numa competição internacional, a primeira patinadora do seu país a fazê-lo. Para Liu, que há muito não se sentia ela própria no gelo, isto chegava.

Filha de pai chinês e nascida através de uma gestação de substituição, aos cinco anos Liu sentiu pela primeira vez o frio dos rinques, incentivada pelo progenitor, adepto da patinagem. Foi de recorde de precocidade em recorde de precocidade até ser rápida também no adeus. Em 2024, após um hiato de dois anos em que se dedicou aos estudos, percebeu que era possível competir nos seus termos, mais leve, mais solta, mais poderosa, como se a competição fosse, acima de tudo, uma expressão artística, sem notas ou números.

E o sorriso nunca mais lhe saiu da cara.

Na quinta-feira, na Milano Ice Skating Arena, assistiu-se a uma luta de estilos no programa livre feminino da patinagem artística: a elegância personificada na russa Adeliia Petrosian, a certeza técnica das japonesas Kaori Sakamoto e Ami Nakai - esta última uma de apenas duas atletas a tentar e a aterrar um triplo axel. Tudo estava separado por poucos pontos, depois de um programa curto muito renhido.

No final, aos ombros da energia vibrante do disco sound de Donna Summer, seria a alegria e a capacidade de dar espectáculo de Alysa Liu a prevalecerem, dando aos Estados Unidos o seu primeiro título olímpico na patinagem artística no feminino em 24 anos. E a primeira medalha desde 2006. Sakamoto e Nakai acompanharam-na no pódio. Afinal, ainda havia mais objetivos dentro da imensa alma de Liu.

Jogo de espiões

Alysa Liu chegou aos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina como campeã mundial em título. Mas, principalmente, como uma Alysa diferente de Pequim 2022. “Eu odiava patinar, não queria nada com aquilo”, disse numa entrevista ao site oficial dos Jogos Olímpicos, contrariando as declarações de euforia dadas logo após a sua estreia olímpica - por vezes, é preciso distância para se ser verdadeiro consigo mesmo.

Mais do que os objetivos, o que mudou para esta nova versão de Alysa foram as prioridades. Passou a estar mais ligada ao processo criativo e artístico dos seus programas, ela que, tanto quanto a patinagem, interessa-se por moda, pintura ou fotografia. Há, também, o lado familiar. Em Itália, os pais e os quatro irmãos, todos mais novos, puderam estar presentes, ao contrário do que aconteceu em Pequim. “Tendo tempo para estar com os meus irmãos, enquanto todos estiverem bem, felizes e bem de saúde e tendo eu liberdade criativa, vou estar feliz”, sublinhou também nessa conversa com o Olympics.com.

A tensão vivida na sua estreia olímpica está também umbilicalmente ligada à história da sua família. Filha de um dissidente chinês, que deixou o país e entrou nos Estados Unidos como refugiado depois de ter participado em manifestações contra o governo que se seguiram ao Massacre de Tiananmen, em 1989, Alysa Liu foi uma das atletas que a China tentou recrutar para competirem pelo país nos anos que antecederam os Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, há quatro anos.

Ao contrário de Eileen Gu, por exemplo, atleta nascida nos Estados Unidos, mas filha de mãe chinesa, Liu manteve-se com as stars and stripes, pelos receios do pai. Semanas depois dos Jogos Olímpicos realizados na capital chinesa, tornou-se pública uma investigação do Departamento de Justiça dos EUA sobre uma operação de espionagem da China em território norte-americano. Arthur Liu, o pai de Alysa, e a própria atleta eram dois dos alvos da operação.

À AP, Arthur revelou que soube que a família estava a ser espiada meses antes de Pequim 2022, mas que nada disse a Alysa, numa fase em que a jovem, então com 16 anos, procurava o apuramento olímpico. Alysa viajaria para Pequim depois do Departamento de Estado e o Comité Olímpico norte-americano assegurarem proteção à patinadora, que foi sempre acompanhada por pelo menos duas pessoas durante todos os Jogos Olímpicos.

Quatro anos depois, Liu passou de aposentada aos 16 anos a campeã olímpica aos 20. Vestida de dourado, patinou com a leveza de uma veterana sem as grilhetas dos resultados, colocando a beleza acima dos feitos técnicos, dos recordes, dos saltos impossíveis. A medalha fez pandã com o vestido.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: lpgomes@expresso.impresa.pt