Jogos Olímpicos de Inverno 2026

Maior que Johannes Klæbo só mesmo Phelps: o norueguês rei do cross-country bateu todos os recordes nos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina

Johannes Høsflot Klæbo a festejar o sexto ouro nos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina
Johannes Høsflot Klæbo a festejar o sexto ouro nos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina
Lars Baron

O nórdico de 29 anos tornou-se no primeiro atleta a vencer seis medalhas de ouro em Jogos Olímpicos de inverno, ao conquistar todas as competições em que entrou em Milão-Cortina, fechando a participação com o ouro nos 50 km clássicos, num pódio exclusivamente norueguês. Klæbo soma já 11 medalhas de ouro olímpicas, só Michael Phelps tem mais

A alcunha de “Cometa de Trondheim” talvez não seja a mais indicada para Johannes Høsflot Klæbo. Todos os que já tiveram oportunidade de ver um cometa passar compreenderam, naquela fração de segundos, quão efémero é aquele momento. Raro, é certo - e Johannes Høsflot Klæbo é certamente um atleta raro -, mas fugaz.

E o norueguês de 29 anos é tudo menos efémero.

Este sábado, no penúltimo dia dos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina, Klæbo agarrou-se ao derradeiro recorde que lhe faltava. Já em Itália tornou-se no atleta com mais medalhas de ouro em Jogos Olímpicos de inverno, com nove. E com a vitória na clássica prova dos 50 quilómetros, é o primeiro atleta a ganhar seis medalhas numa única edição dos Jogos dos desportos praticados com temperaturas negativas, ultrapassando na lista o norte-americano Eric Heiden, que ganhou cinco ouros na patinagem de velocidade nos Jogos Olímpicos de Lake Placid, em 1980.

Tratou-se de mais uma aula de esqui de fundo dada pelos atletas noruegueses, que com ainda cerca de metade da prova por concluir já tinham deixado a concorrência para trás. Do trio, Emil Iversen foi o primeiro a quebrar, com Klæbo a deixar Martin Løwstrøm Nyenget para trás na subida final. Em seis provas, Klæbo ganhou todas, imitando o feito conseguido nos Mundiais de há um ano, às portas de casa, em Trondheim.

Klæbo parece estar assim em todo o lado, a toda a hora, bem visível para todos, ao contrário dos cometas. Treinado pelo avô, que lhe ofereceu o primeiro par de esquis aos 2 anos, aos 16 anos o super-atleta norueguês teve de decidir se se dedicava ao futebol ou ao cross-country, numa fase em que os seus níveis físicos pareciam estar longe dos pedidos a um campeão olímpico no esqui de fundo. Perdeu-se, quem sabe, um colega de equipa de Erling Haaland e Martin Ødegaard, mas os desportos de inverno ganharam o esquiador mais dominador da história.

“É difícil encontrar palavras, é inacreditável”, confessou o norueguês aos jornalistas logo após concluir uma das competições mais violentas do desporto olímpico, capaz de arrasar os pulmões mais resistentes. “Depois dos Mundiais do ano passado, eu sabia que era possível, mas ser capaz de o fazer… é difícil encontrar as palavras certas. Muitas emoções quando cruzei a linha de meta”, continuou, sublinhando que ele e a sua equipa, constituída maioritariamente por elementos da família, do pai, ao irmão que lhe trata da comunicação, “tomaram todas as decisões certas” esta temporada.

“São muitos sacrifícios, mas, por outro lado, se começas a sentir que são sacrifícios se calhar é altura de encontrares outra coisa para fazer. Mentalmente, tenho estado melhor do que estava há um ano e diverti-me muito a correr aqui”, referiu também.

Um atleta completo

A empreitada de Johannes Høsflot Klæbo em Val di Fiemme, onde se realizaram as competições de cross-country destes Jogos Olímpicos, só terão paralelo em dois nadadores: Mark Spitz em Munique 1972, quando ganhou sete medalhas de ouro, e Michael Phelps, que em Pequim 2008 fez ainda melhor que o compatriota, ao sagrar-se oito vezes campeão olímpico numa só edição dos Jogos.

E é apenas atrás de Phelps que surge agora Klæbo na lista de atletas olímpicos com mais medalhas de ouro: o norueguês tem 11 ouros, ainda assim bem longe das impensáveis 23 do nadador.

Mas há algo de mais impressionante no feito de Klæbo. Phelps era um atleta de médias distâncias, brilhando nos 100, 200 e 400 metros. Já o norueguês ganhou medalhas em provas de sprint e de fundo. Brilhou tanto no sprint individual, prova com pouco mais de 1 quilómetro e no sprint por equipas, como na estafeta dos 7,5 quilómetros, nos 10 km livres, nos 20 km esquiatlo e, por fim, nos 50 km clássicos. É como ver Usain Bolt a vencer os 100 metros e a maratona nos mesmos Jogos Olímpicos.

As medalhas de Johannes Høsflot Klæbo ajudaram também a Noruega a garantir mais uma vez a vitória no medalheiro olímpico. As 18 medalhas de ouro são um recorde nos Jogos Olímpicos de inverno, com a nação de pouco mais de 5,5 milhões de habitantes a reforçar o estatuto de maior potência dos desportos de inverno.

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