Quase cinquenta anos depois do Milagre no Gelo, os Estados Unidos voltam a ser ouro no hóquei
Foi preciso esperar 46 anos para ver de novo os Estados Unidos de medalha de ouro ao peito no hóquei no gelo masculino
Bruce Bennett
Uma vitória por 2-1 frente ao Canadá, no prolongamento e com golo de ouro, deu aos Estados Unidos o terceiro título olímpico no hóquei no gelo, depois de uma seca de 46 anos, em que os rivais do norte se tornaram a principal potência do desporto
A história do hóquei no gelo olímpico nem sempre dá as mãos à realidade. E é por isso que ver os Estados Unidos a garantirem a medalha de ouro em Milão-Cortina está longe de ser business as usual - é apenas a terceira vez que o combinado do país que, em conjunto com o Canadá, organiza o campeonato mais forte do planeta, a NHL, trinca a medalha mais valiosa nuns Jogos Olímpicos.
A vitória frente ao Canadá por 2-1, após golo de ouro de Jack Hughes no prolongamento, com o jogador dos New Jersey Devils ainda ensanguentado e com vários dentes a menos na frente à conta de um lance no 3º período, termina com um jejum de 46 anos dos norte-americanos, que haviam ganhado o torneio olímpico pela última vez em Lake Placid 1980, depois do famoso “Milagre no Gelo”.
Nesse jogo, que assumiu um carácter quase mitológico na história da modalidade, um grupo de miúdos amadores e sem experiência nas maiores competições - por esses dias os jogadores da NHL estavam impedidos de participar nos Jogos Olímpicos - bateu por 4-3 a equipa da União Soviética, que vinha de quatro títulos olímpicos consecutivos e era formada por jogadores inscritos como amadores, de acordo com as regras olímpicas, mas que na realidade em financiados pelo estado soviético e treinavam durante todo o ano como profissionais.
RvS.Media/Robert Hradil
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Daí para cá, muito mudou: a partir de 1998, nos Jogos Olímpicos de Nagano, os profissionais foram autorizados a participar, com os jogadores da NHL a invadirem as seleções participantes - com exceção para os últimos dois Jogos Olímpicos, em que não houve acordo entre a NHL e os jogadores para se fazer uma paragem na competição. Mas, ainda assim, mesmo tendo sempre vários dos melhores jogadores da modalidade, os Estados Unidos não mais conseguiram a medalha de ouro olímpica.
Por outro lado, as mudanças transformaram-se num momento de ouro do Canadá. Ou melhor, mais um. O país mais a norte do continente americano dominou seis dos sete primeiros torneios olímpicos, que começaram em 1920, aproveitando a era do profissionalismo para conquistar mais três medalhas de ouro em 2002, 2010 e 2014. Em Salt Lake City 2002, bateram os norte-americanos na final em casa dos rivais, repetindo a façanha dentro de portas, em Vancouver 2010. Em 2026, com os melhores hoquistas de regresso aos Jogos Olímpicos, após a ausência em PyeongChang e Pequim, havia nova oportunidade de vingança dos Estados Unidos, para mais num contexto político efervescente.
Há um ano, antes do Torneio das Quatro Nações, Donald Trump referiu-se ao Canadá como o 51º estado norte-americano, coisa que os canadianos não levaram nada a bem. No primeiro embate da prova entre as duas seleções, houve nada mais nada menos que três cenas de pancadaria nos primeiros nove segundos. Os Estados Unidos ganhariam esse jogo, mas perderam frente aos norte-americanos onde mais interessava: na final.
Duplo ouro e uma homenagem
Não se pode falar, portanto, de um novo Milagre no Gelo. Na final, 22 jogadores em cada lado, todos absolutamente profissionais e a patinarem na melhor liga do mundo. Ainda assim, no papel, o Canadá partia como favorito, pelo talento e pelo histórico. A ausência de Sidney Crosby, campeão olímpico em 2010 e 2014, líder incontestado da equipa que se lesionou nos quartos de final, frente à Chéquia, era um handicap, que o crescimento do jovem Macklin Celebrini poderia equilibrar.
Os Estados Unidos marcaram logo no 1º período, aos 6 minutos de jogo, por Matt Boldy, com o Canadá a crescer no 2º, empatando por Cale Makar. O Canadá passou a dominar o jogo, mas sem conseguir passar para a frente. Connor Hellebuyck, o goaltender norte-americano, fez 40 defesas em 60 minutos, e talvez tenha estado aqui um dos pequenos milagres.
Eurasia Sport Images
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Sem golos no derradeiro período, tudo se decidiu no prolongamento, jogado com apenas três jogadores de campo de cada lado e onde vale a regra do golo de ouro - quem marca, ganha.
Celebrini teve no stick várias oportunidades para dar novo título olímpico aos canadianos, mas seria numa resposta norte-americana, ainda nos primeiros momentos do tempo extra, que apareceria o tiro decisivo de Jack Hughes, prontamente engolido pelos colegas. Os Estados Unidos juntavam, naquele momento, o título olímpico masculino ao feminino, conquistado na quinta-feira, também frente à seleção canadiana - e também por 2-1 após prolongamento e golo de ouro.
Além dos 22 campeões olímpicos, mais uma camisola surgiu nos festejos dos norte-americanos: uma com o nome de Johnny Gaudreau, antigo internacional falecido em agosto de 2024, atropelado por um automobilista alcoolizado quando andava de bicicleta com o irmão, Matthew, que também morreu no acidente. Os três filhos de Gaudreau juntaram-se à festa. Para eles, terá sido o mais perto de um milagre.