Jogos Olímpicos de Inverno 2026

Sempre com o pé nos dois mundos, Eileen Gu esperou até ao último dia para conquistar o seu ouro nos Jogos Olímpicos de 2026

Chinesa nascida nos Estados Unidos juntou o ouro no Halfpipe às duas pratas que já havia conquistado em Milao-Cortina
Chinesa nascida nos Estados Unidos juntou o ouro no Halfpipe às duas pratas que já havia conquistado em Milao-Cortina
Cameron Spencer

Aos 15 anos, Eileen Gu deixou de competir pelos Estados Unidos para se unir à nação natal da sua mãe, a China. Tornou-se a imagem, desportiva e não só, dos Jogos Olímpicos de Pequim em 2022. Em 2026, no meio de críticas, de JD Vance à imprensa, voltou a arrecadar medalhas nas três disciplinas do esqui freestyle - depois de duas pratas em Milão, o ouro chegou no Halfpipe

Eileen Gu é um daqueles casos. Tornou-se de tal forma maior do que o seu desporto que todos lhe pedem o mundo, como se mais ninguém fizesse vida do esqui em formato freestyle.

Já nestes Jogos Olímpicos, perguntaram-lhe se as duas medalhas de prata conquistadas nas disciplinas de Big Air e Slopstyle eram, na verdade, duas medalhas de ouro perdidas. A chinesa nascida nos Estados Unidos, com uma eloquência pouco vista, lembrou o repórter, talvez mais interessado em cobrir o fenómeno Eileen Gu do que o esqui estilo livre per se, que, para lá de ser a esquiadora mais medalhada no seu desporto, “ganhar uma medalha nuns Jogos Olímpicos é uma experiência que muda a vida de qualquer atleta” e que “fazê-lo cinco vezes é exponencialmente mais difícil”.

Não que Eileen Gu ande aqui para fazer as vontades a repórteres, ou a qualquer outra pessoa ou país ou instituição, mas essas cinco medalhas já são seis e, no último dia dos Jogos Olímpicos, a atleta de 22 anos conquistou o seu ouro em Milão, depois de revalidar o título no Halfpipe.

A prova, adiada de sábado para domingo por causa do mau tempo, foi sempre em crescendo para a chinesa. Errou na primeira tentativa, terminando aí apenas no 8º lugar. Na segunda somou 94.00 pontos, colocando-se na frente, para reforçar esse estatuto na terceira e derradeira run, marcando 94.75 pontos. A compatriota Fanghui Li foi prata, com 93.00 pontos e a britânica Zoe Atkin bronze, com 92.50.

Desde há muito que Eileen Gu sabe o que é andar com um pé nos dois mundos. Sabe o que é ser uma esquiadora, mas ao mesmo tempo uma super-estrela, sabe o que é ser uma miúda norte-americana estudante na Universidade de Stanford, ao mesmo tempo que representa mais de um 1,4 mil milhões de chineses, depois de ter escolhido competir pelo país da sua mãe. Sabe também ser amada e criticada por ambas as partes, precisamente por esta escolha e por se afirmar como “americana nos Estados Unidos e chinesa na China”.

Em Milão-Cortina, a atleta que é a única que se aventura nas três disciplinas do esqui estilo livre voltou a ganhar medalhas em todas elas, reforçando o estatuto de melhor atleta do seu desporto, para lá de ser, de longe, a mais mediática.

Política e sabedoria

Entre as piruetas a uma altitude de vários andares e os elementos em forma de parafuso capazes de causar desfasamentos espácio-temporais a quem não está habituado a tamanhas façanhas, Eileen Gu tem de estar sempre a olhar para o lado. Em 2022, a competir pela primeira vez nuns Jogos Olímpicos de inverno, com 18 anos e três anos depois de escolher a China, foi chamada de “traidora” e até de “burra” pela extrema-direita norte-americana. Gu sempre sublinhou que a decisão em nada esteve relacionada com questões financeiras, mas sim por acreditar que teria “um impacto muito maior” no desporto ao competir com a bandeira da China - notícias recentes do “Wall Street Journal” deram conta, no entanto, de vários milhões de dólares pagos pelo município de Pequim à atleta nas últimas temporadas.

Já durante os Jogos de Milão, o vice-presidente JD Vance disse à inefável Fox News que, como alguém que “cresceu nos Estados Unidos e que beneficiou do seu sistema educacional e das suas liberdades”, esperava que Eileen Gu competisse pelos Estados Unidos. Ao jornal “USA Today”, Gu começou por responder, de forma seca: “Fico lisonjeada. Obrigada JD!”, concordando logo de seguida com a ideia de que se tornou “num saco de pancada” para certos espectros da sociedade norte-americana.

E na sua habitual sabedoria, apontou que o facto de ter escolhido a China, e não outro qualquer país, nunca foi ultrapassado pelo sítio onde nasceu. “Há tantos atletas a competir por outros países. As pessoas só têm um problema comigo porque olham para a China como uma entidade monolítica, odeiam a China. E também porque eu ganho. Se eu não ganhasse provavelmente não se importavam assim tanto e isso é OK para mim. As pessoas têm direito à sua opinião”, atirou. Gu faz bom proveito dos seus estudos em relações internacionais onde, além de Stanford, fez um período fora na Universidade de Oxford, em Inglaterra.

A questão da mudança de nacionalidade marcou boa parte da estreia olímpica de Eileen Gu, que se tornou num poster da China para engrandecer os seus Jogos Olímpicos de 2022, organizados pela capital do país, cidade natal da mãe de Gu. Yan mudou-se para os Estados Unidos com uma bolsa de estudos, passou por várias universidades de renome e tornou-se também instrutora de esqui em part time, ao mesmo tempo que criava sozinha a filha. Aos três anos, Eileen experimentou o esqui pela primeira vez.

Os Jogos Olímpicos de Pequim, onde conquistou duas medalhas de ouro e uma de prata, tornaram-na numa estrela planetária. Apareceu em capas de revista, tanto nos Estados Unidos como na China, fez trabalhos como modelo para a Victoria’s Secret, aparições em eventos em Milão e Paris. E, como qualquer atleta que é o sonho das campanhas de marketing, foi reunindo patrocinadores nos dois polos geoestratégicos do Mundo, seja a Red Bull ou a Porsche, ou marcas chinesas como a Anta e a TCL Electronics, um dos principais patrocinadores dos Jogos Olímpicos.

A homenagem à avó

De acordo com a “Forbes”, Gu é uma das atletas femininas mais bem pagas do mundo, está no 4º lugar num top 10 onde estão oito tenistas. Só no último ano arrecadou qualquer coisa como 23 milhões de dólares em ganhos. Destes, só 100 mil vieram do desporto que pratica, onde soma 20 vitórias em Taças do Mundo. Tudo o resto chega de patrocínios e marcas.

Mas quando terminou a sua participação em Milão, talvez pouco ou nada disto interessasse. A atleta perdeu a avó durante os Jogos Olímpicos e dedicou o ouro a alguém que foi “uma parte muito importante” da sua vida.

“Era uma lutadora, esta mulher comandou a sua vida, agarrou-a com rédeas e fez dela aquilo que quis. Inspirou-me muito”, revelou, frisando que, à partida para os Jogos, sabendo que a avó estava doente e que podia ser a última vez que se cruzavam, não lhe prometeu a vitória, mas sim que seria “corajosa” e que “tomaria riscos”.

Os riscos valeram a pena. “Não consigo colocar em palavras, é muito especial. Cresci num desporto que era dominado por homens e eu era a única miúda na equipa até aos 15 anos. E por isso hoje estar aqui e poder dizer que sou a atleta do freestyle, seja no feminino como no masculino, com mais medalhas de ouro e muito surreal”, apontou após mais um título, o terceiro, aos quais junta ainda três medalhas de prata.

Entre dois mundos, Eileen Gu segue o exemplo da avó: agarra-os e junta-os em algo onde ela é a melhor, seja na neve ou fora dela. Por muito que doa a JD Vance.

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