Jogos Olímpicos de Paris 2024

Há oito anos, Steven van de Velde foi condenado por violação. E apesar dos gritos de revolta, vai competir nos Jogos Olímpicos de Paris

Há oito anos, Steven van de Velde foi condenado por violação. E apesar dos gritos de revolta, vai competir nos Jogos Olímpicos de Paris
BSR Agency

Voleibolista neerlandês foi escolhido pela sua federação e comité olímpico para estar em Paris, apesar do passado negro. Quando tinha 19 anos, Van de Velde violou uma menina de 12 anos e apenas cumpriu um dos quatro anos de prisão a que foi condenado. O atleta fala de “segunda oportunidade”, mas organizações de sobreviventes de abusos não se conformam com a sua presença nos Jogos Olímpicos

Em 2014, Steven van de Velde era um jovem de 19 anos e promissor jogador de voleibol de praia, com aspirações a um dia representar os Países Baixos nos Jogos Olímpicos. Três anos antes, tinha sido campeão sub-20 do seu país e os seus 1,99m de altura garantiam-lhe um ror de vitórias no muito particular duelo contra a rede.

Mas algo perturbador se passava quando Steven não estava nos estágios e nos treinos de alto rendimento. Um lado negro desconhecido no atleta de elite. Por essa altura, o neerlandês encadeou uma conversa no Facebook com uma menina inglesa de 12 anos. No verão, aproveitando que a mãe da jovem estava fora, marcou um voo de Amesterdão para Inglaterra para esse mesmo dia e dirigiu-se a casa da jovem para a conhecer. Deu-lhe álcool e violou-a. Nessa mesma noite, voltou para os Países Baixos.

Dois anos depois, Van de Velde declarou-se culpado por três crimes de ato sexual com pessoa abaixo da idade de consentimento, que é automaticamente considerado crime de violação à luz da lei do Reino Unido. Foi condenado a quatro anos de prisão, mas cumpriu apenas 12 meses numa cadeia britânica, antes de ser extraditado para os Países Baixos. Como a lei neerlandesa é mais branda para casos similares, um mês depois de regressar ao seu país Van de Velde estava em liberdade.

E agora, aos 29 anos, perante os protestos de organizações, ativistas e outros atletas, estará, ao lado de Matthew Immers, a competir nos Jogos Olímpicos de Paris, escolhido pela sua federação e comité olímpico nacional.

Defendido pelo seu comité

Mal se tornou público que o Comité Olímpico dos Países Baixos havia dado luz verde à participação de Steven van de Velde nos Jogos Olímpicos, chegaram em catadupa as exigências para a imediata exclusão do neerlandês dos Jogos.

“Ser um atleta olímpico é um privilégio, não um direito”, sublinhou a antiga nadadora olímpica Joanna Maranhão, sobrevivente de abuso sexual por parte de um treinador e que é agora coordenadora da Rede de Atletas por um Desporto Mais Seguro, que apoia atletas que sofreram abusos. A brasileira, duas vezes olímpica, frisou ainda num comunicado da associação que “os atletas que competem nos Jogos Olímpicos são muitas vezes vistos como heróis e modelos a seguir” e que Van de Velde não deve “receber essa honra”.

Com o colega de dupla Matthew Immers
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“A sua qualificação para os Jogos Olímpicos deve ser escrutinada à luz da moral e a sua participação já está a causar dano em pessoas que passaram por essa experiência”, frisou também Maranhão. Numa declaração assinada em conjunto com outras organizações de sobreviventes, nomeadamente a Army Survivors, dos Estados Unidos, e a Kyniska Advocacy, do Reino Unido, é reforçada a ideia que a presença de Van de Velde em Paris “desrespeita e invalida a história dos sobreviventes” e envia uma mensagem de que “os feitos desportivos são mais importantes do que crimes”.

Além das reações destas organizações, que pedem também critérios mais apertados do Comité Olímpico Internacional para situações de abuso, há várias petições online a pedir a desqualificação do voleibolista dos Jogos de Paris.

Mas tanto a federação de voleibol (Nevobo) dos Países Baixos como o comité olímpico nacional defendem Van de Velde, sublinhando que o atleta cumpriu todos os critérios desportivos para chegar a Paris. Defendem ainda que o voleibolista procurou e recebeu ajuda profissional depois de ser colocado em liberdade, que foi sempre acompanhado e que refletiu sobre os seus atos passados. Hoje tem uma vida pessoal e profissional estável, justificam. O perigo de algo tão cruel voltar a acontecer é, dizem, quase nulo. Praticamente logo após ser libertado, Van de Velde voltou a competir e desde 2017 que participa em torneios internacionais, tendo agora conseguido resultados que o apuraram para os Jogos. Foi curiosamente na etapa do circuito mundial de Espinho, em Portugal, no último mês de maio, que a dupla Van de Velde e Immers deu o passo decisivo para a qualificação, ao colocar-se à frente no ranking das duas outras duplas neerlandesas que disputavam a vaga.

No seu site, a Nevobo, através do seu líder, Michael Everaert, garante que o atleta está “completamente integrado na comunidade do voleibol dos Países Baixos”, que tem provado ser “um profissional e ser humano exemplar” e que não tem havido razões para dele se duvidar desde voltou a competir.

As justificações de Van de Velde

Através do Comité Olímpico dos Países Baixos, Steven van de Velde reagiu às críticas e aos pedidos para que fosse afastado de Paris, referindo que “entende” que o tema tenha voltado à ordem do dia. “Faz parte. Em 2016 e depois disso, muitos jornalistas neerlandeses deram atenção à história e percebo que com o aproximar do maior evento desportivo do mundo isto pode atrair a atenção dos media internacionais”.

DeFodi Images

Em 2018, pouco mais de um ano após sair da prisão, Van de Velde concedeu uma entrevista ao canal público neerlandês NOS, onde falou do contexto em que aconteceram os crimes, assumindo as culpas. Explicou que, nos primeiros contactos com a criança, esta lhe disse que tinha 16 anos e quando soube da verdadeira idade da menina cortou a comunicação. Mas as conversas, eventualmente, regressaram. Quando viajou para Inglaterra, Van de Velde tinha plena consciência da idade da pessoa com quem trocava mensagens nas redes sociais. Steven disse que estava então “numa fase má”, de conflito com as obrigações de ser um atleta de alta competição. “Não posso reverter aquilo que fiz e tenho de viver com as consequências. Foi o maior erro da minha vida”, disse.

Nas últimas semanas, Steven sublinhou em declarações difundidas pela Nevobo que agradece a “segunda oportunidade” dada pelos pais, amigos e colegas, por o terem aceitado de volta depois do “maior passo em falso” da sua vida. “E também agradeço à federação neerlandesa, que me ofereceu, com condições claras, de novo um futuro neste desporto tão bonito”, disse também.

Declarações que não convencem as organizações que pedem a sua exclusão dos Jogos. “As suas palavras mostram falta de remorsos e de compreensão das consequências das suas ações. Violar uma menor não é um ‘passo em falso’ - é um crime que deve impedir atletas de participar nos Jogos Olímpicos”, apontou Julie Ann Rivers-Cochran, diretora da Army of Survivors, em comunicado.

Mas é certo que, debaixo da Torre Eiffel, onde se vai jogar o torneio olímpico de voleibol de praia, Steven van de Velde terá direito aos holofotes e glória olímpica.

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