Jogos Olímpicos de Paris 2024

Zhiying Zeng, a “tia Tania” do Chile, tem 58 anos e uma empresa de mobiliário. Ah, e vai participar no ténis de mesa nos Jogos Olímpicos

Zhiying Zeng, a “tia Tania” do Chile, tem 58 anos e uma empresa de mobiliário. Ah, e vai participar no ténis de mesa nos Jogos Olímpicos
RODRIGO ARANGUA/Getty

O sonho de estar na maior competição desportiva mundial parecia acabado para Zeng quando, em 1989, trocou a China pelo Chile, onde começou por ter uma carreira na importação de bens chineses e depois se estabeleceu no mobiliário. Mas, durante a pandemia da covid-19, voltou a jogar, ganhou torneios em catadupa, tornou-se um fenómeno de popularidade até reconhecido pelo presidente chileno e conseguiu o bilhete para Paris. “Com a minha idade, tens de jogar com alegria, sem angústia”, diz a mesa-tenista que costuma treinar em Mirandela

Zhiying Zeng, a “tia Tania” do Chile, tem 58 anos e uma empresa de mobiliário. Ah, e vai participar no ténis de mesa nos Jogos Olímpicos

Pedro Barata

Jornalista

A covid-19 fechou-nos em casa. Em 2020, o mundo recolheu-se para evitar a propagação do vírus e Zhiying Zeng não foi exceção. Então com 54 anos, a empresária do mobiliário no Chile, mulher nascida na China a viver na América do Sul desde 1989, pensou que tinha de arranjar maneira de passar o tempo durante o confinamento. E recorreu a um velho amor.

Em criança, na sua província de Guangzhou natal, Zeng lembra-se de ver mesas de ténis de mesa “em todo o lado”. “Para os chineses, o ténis de mesa é tipo o futebol para os brasileiros”, recorda ao “The Guardian”. Filha de uma treinadora da modalidade, jogou desde pequena e voltou a essa paixão durante o confinamento.

Zhiying comprou uma mesa para jogar em casa. Passou horas e horas treinando, quase sempre sozinha. E o bichinho reapareceu, a vontade ressurgiu, o gosto daquela mulher de 54 anos parecia inalterado face ao que sentia na infância ou na adolescência.

Sem grandes expectativas, quando o confinamento terminou, inscreveu-se nalguns torneios locais. Há 18 anos que não participava numa competição, mas o tempo parecia não ter deixado marcas. Um a um, foi ganhando todos os torneios em que entrava: locais, regionais, nacionais. Em 2023 tornou-se na melhor mesa-tenista do Chile, nacionalidade que, entretanto, adquirira.

Em 2024 cumpriu “um sonho de infância”. Aos 58 anos, Zhiying Zeng, natural da China, a viver no Chile desde 1989, empresária do mobiliário, estará nos Jogos Olímpicos de Paris. Representará o Chile no ténis de mesa e confessa que não aguentou “a emoção” quando selou o apuramento, ao ponto de ter “chorado de felicidade”.

De Guangzhou para Iquique

Nascida em 1966 em Guangzhou , Zeng começou por ser treinada pela mãe. Contam que começou logo por se destacar, ao ponto de ser escolhida, aos 11 anos, para uma prestigiada equipa de formação em Pequim, uma honra numa modalidade com profunda tradição na China.

Aos 17 anos, Zhiying foi convocada para a seleção nacional. Mas uma mudança nas regras ocorrida em 1986 revelar-se-ia altamente prejudicial para a promissora jogadora: criou-se a chamada “norma das duas cores”, que obrigava que as raquetes tivessem de ter uma cor diferente em cada face, facilitando, assim, a leitura e previsão da velocidade e efeito que se daria à bola a cada pancada.

Zeng assume, ao “Guardian”, que a regra “matou” o seu jogo. “Senti-me fraca, tanto física como psicologicamente”, confessa.

Ezra Shaw/Getty

O tal amor esmoreceu. Na selvagem e implacável competição existente no panorama interno do ténis de mesa chinês, um momento de fraqueza não é perdoado. Zeng deixou de ir à seleção, o sonho olímpico de infância desapareceu e, nos anos seguintes, pouco jogou.

Em 1989, aparentemente afastada de altos voos como jogadora, Zeng mudou de vida. Mudou de país, mudou de continente, mudou de horizontes. Aceitou uma oferta para ser treinadora no Chile. “Já não pensava jogar, julgava que o futuro seria treinar”, diz, olhando para quando cruzou o Pacífico há 35 anos.

A nova vida abriu-lhe perspectivas longe das mesas da sua infância. Influenciada pela comunidade chinesa no norte do Chile, entrou no negócio da importância de bens e mercadorias do seu país natal para o adotivo. Passaria, depois, a ser empresária de mobiliário em Iquique, cidade costeira.

O virar de costas ao ténis de mesa só foi interrompido em 2002. Zeng estava, então, preocupada com as muitas horas que o filho passava nos jogos de consola, pelo que o inscreveu num clube local.

Ao levá-lo aos treinos, Zeng pegou algumas vezes nas raquetes, com o seu talento a causar sensação. Inscreveu-se num pequeno torneio e ganhou, mas aquela foi uma exceção. A longa interrumpção só terminaria com a pandemia.

A “Tia Tania”

O regresso às raquetes, às raquetes de duas cores que agora já não a atormetavam, deu-se com a pandemia. Depois de voltar a jogar em casa, estar em competições foi um passo altamente feliz. Facilmente venceu torneios importantes no Chile e foi chamada à seleção do país.

Em 2023, nos Jogos Pan-Americanos que se realizaram em Santiago, Zeng tornou-se um ícone nacional. Chamam-lhe a “tia Tania”, abundam as reportagens sobre a mesa-tenista que ajudou a equipa chilena a chegar ao bronze na competição — Zeng estará em Paris na vertente individual.

“Sinto-me amada”, diz a nova estrela do desporto do Chile. “Tremenda”, escreveu Gabriel Boric, presidente do país à beira do Pacífico, nas redes sociais depois de uma das exibições da “tia Tania” na competição de Santiago.

“Estou aqui para ver a avó do ténis de mesa. Toda a gente a quer ver!”, disse Gustavo Ibarra, um jovem de 14 anos a assistir aos Pan-Americanos, citado pela AP.

RODRIGO ARANGUA/Getty

O uso recorrente de expressões idiomáticas e até de suave calão chileno ajudará à conexão entre Zhiying e os seus compatriotas. Depois do boom de 2023, a qualificação para Paris chegou, no cumprir do adiado sonho de infância. “Com a minha idade, tens de jogar com alegria, sem angústia. Amo este país. Não atingi o meu sonho na China, consigo-o aqui. É importante não desistir”, comenta ao “Guardian”.

A viagem de Zeng passa, igualmente, por Portugal. Nos últimos tempos, treinou regularmente em Mirandela, no centro de treino internacional que existe na cidade de Trás-os-Montes. “Venho para Mirandela porque tem um centro muito completo, com um nível elevado, já que há jogadores de vários países e variabilidade de estilos de jogo”, explicou à rádio Terra Quente FM na antecâmara de viajar para Paris.

Mas, quer em Mirandela, quer em Iquique, há uma preocupação: não treinar em demasia, fazendo-o apenas três horas por dia. “Quando és jovens, nada te dói. Agora, se treinar demasiado, fico com dores no ombro”, diz Zeng. As marcas do tempo podem estar no corpo, mas isso não impediu que a “tia Tania” — passadas muitas décadas e viajando muitos quilómetros, da China para o Chile e do Chile para Paris — concretizasse o seu grande sonho de vida.

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