Os atletas mais rápidos dos Jogos já não estão nos 100 metros, nem na horizontal. São os homens-aranha da escalada


Editor
A olho nu, Sam Watson parece um mero rapazito, cabelo preto ainda rebeldemente à solta e os braços à mostra, sem mangas, neles uma ligeira décalage de bronzeado a acentuar-se nos antebraços que estereótipos urbanos classificariam ser à camionista mas ele, poupem-se as aparências, é um escalador, mesmo que nem o seu corpo o denuncie à primeira vista: o americano têm músculos torneados, há veias salientes a descerem-lhe pelos ombros definidos e braços ainda mais esculpidos. Ao seu lado, também virado para a câmara de TV, está um ainda mais entroncado Reza Alipour Shenazandifard, iraniano de bíceps e tudo o resto ainda insuflado.
Sem atacarem a parede que têm nas costas, ambos demonstram um ponto antes de darem uso à musculatura em Le Bourget, arena a céu aberto nos arredores de Paris que junta uma pequena maralha de gente para assistir à mana mais nova da irmandade da escalada, modalidade que se estreia nestes Jogos Olímpicos para ser a ladra da coroa da pressa do atletismo. Na primeira vez que existe sozinha, a escalada em velocidade (speed climbing) destrona os 100 metros e a sua habitual dezena de segundos de duração, ou nove segundos e qualquer coisa, propondo que se desfrute de duas pessoas de cada vez a treparem em duelo uma parede em menos de cinco segundos E pronto, já está, podem ir à vossa vida, nada mais para ver aqui.
Ler o parágrafo anterior demora quase o quádruplo do tempo que tarda a corrida pele medalha de bronze entre a corpulência adolescente de Sam Watson e do trintão Reza Alipour. O americano vence em 4,74 segundos. É um novo recorde mundial que fatia um centésimo à anterior marca, fixada por igualmente por ele nas eliminatórias destes Jogos. Há pessoas a espirrarem e a demorarem mais a refazerem-se do espirro por comparação com o feito do simpático atleta que dá um passou-bem ao adversário, faz-lhe uma vénia e diz algo impercetível enquanto o iraniano rapidamente se pira do cumprimento sem conceder um sorriso, talvez a amargura da derrota a acelerá-lo dali para fora.
Tudo na escalada em velocidade intui pressa. Alguma invenção forçada também, porque Watson leva o bronze num duelo batizado oficialmente de small final, logo eles foram dois atletas olímpicos do melhor que há do seu ofício a esfolarem-se por uma medalha de bronze no zingamocho do desporto e a modalidade a chamar pequena final à sua disputa.
Condizentemente, nem dois minutos são contados até começar a badalada big final, assim vendida caso tanta pressa baralhasse os desatentos. Nem é preciso engordar por aí além o tempo para explicar as condições e as regras da escalada de velocidade. Os dois atletas atacam uma parede com 15 metros de altura e 5% de inclinação, agarrando com as mãos e pondo os pés em presas que não mudam de sítio, a rota é sempre a mesma, não há obrigação de tocarem em todos. Cada um está seguro por uma corda e ganha quem tocar primeiro no sensor que os espera no topo da ascensão. A ação, vertical e vertiginosa, mas concede vagar para que reparemos propriamente nisso - é sobretudo veloz e apressada.
A prioridade é essa, diz Tiago Martins, um escalador português que nos presta o seu auxílio:
“Isto é escalada, mas é como estares a comparar os 100 metros com uma maratona, no sentido em que a velocidade é isso mesmo, é sobre explosão e eficiência na saída, na corrida e na chegada. Portanto, afasta-se bastante daquilo que procuramos na escalada mais tradicional, que são novas dificuldades. Na velocidade é sempre a mesma rota e o objetivo é tu aperfeiçoares aquilo o máximo, quase como uma corrida de Fórmula 1 em que tens sempre o mesmo circuito e, cada volta, queres ir mais rápido e tornar a condução mais rápida, mas as curvas são iguais.”
A repentina final demonstra-o, mais uma vez. Os dedos de Veddriq Leonardo tocam primeiro do que Wu Peng no sensor de chegada sem darem tempo a que se destrince a mais aparente diferença técnica, ou de escolha por onde sobem, entre eles durante a escalada. O indonésio chega aos 15 metros em 4,75 segundos, o chinês em 4,77. São dois centésimos a separá-los. Este tipo de escalada, a glória baloiça em ínfimas migalhas, as diferenças que existem estão à escala microscópica e colocam toda a gente a discutir minudências: nos quartos de final, Peng superou o italiano Matteo Zurloni por dois milésimos de segundo, mas, na final dos pequeninos, Sam Watson ganhou a Alipour por 14 centésimos.
Na lupa da speed climbing é uma vantagem confortável.
A plateia sem um lugar vazio pouco espera até Veddriq Leonardo ter ao pescoço a primeira medalha de ouro da Indonésia nestes Jogos e ser, oficialmente, o atleta olímpico mais rápido em Paris entre quem existe na horizontal ou na vertical. “Isto é tão incrível, sempre foi um sonho e hoje tornei o meu sonho em realidade”, disse, resumidamente e sem surpresas, quem vem de um país mais dado ao badminton. A escalada em velocidade tem o seu primeiro campeão olímpico.
Ele é leve e baixinho (1,62 metros), como a maioria dos atletas que competiram em Paris - o americano Watson será o divergente, com os seus 1,80 metros -, com músculos inchados pela necessidade de recrutarem fibras de explosão, da força repentina que contrasta com as restantes disciplinas da escalada com as quais muito pouco tem a ver. Há três anos, contudo, quando os humanos que se prestam as estas tarefas se estrearam em Jogos Olímpicos, a escalada foi apresentada com uma só prova, onde a velocidade valia tanto quanto o boulder e o lead. Gratos pelas boas-vindas dadas à modalidade, os atletas torceram o nariz à mistura das especialidades, críticos por uma perdigota viver a par de duas botas que lhe são tão opostas.
De novo, o escalador Tiago Martins, dono de um rocódromo em Lisboa (Vertigo), ajuda a explicar:
“A opinião generalizada de um escalador típico é que ficou muito contente com a separação da escalada de velocidade das outras duas - o boulder e o lead climbing, que é a escalada desportiva - porque estamos a falar de uma modalidade diferente. Nos desafios que vês no boulder e na escalada desportiva existe muito mais criatividade e fator surpresa. Aí, os desafios não são assim tão complexos, mas, como são novos e inesperados e ninguém sabe o que os route setters - os coreógrafos dos movimentos - prepararam, valoriza-se muito a capacidade de leitura e improviso do atleta.”
Na variante de boulder a pressa não se alia à gravidade, por si só já malandra, e artificial conspiradora contra quem vai escalar aos Jogos Olímpicos: trata-se de uma parede também erigida por pessoas, inclinada propositadamente para que as pessoas se sintam precipitadas para o chão enquanto escalam o maior número possível de blocos espalhados por uma altura de 4,5 metros, onde têm quatro minutos e seis tentativas para o fazer. Na lead, a parede tem, como na velocidade, 15 metros, mas as presas e blocos são baralhadas constantemente por ‘arquitetos’, os escaladores têm um tempo para estudarem o percurso e, depois, apenas uma tentativa de treparem o mais alto possível durante seis minutos.
Nas três especialidades há mãos-tenazes de homens e mulheres para se tentarem agarrar a superfícies quase lisas, com a única ajuda permitida é o pó de magnésio dentro do saco que têm amarrado à cintura. As probabilidades não podiam estar mais ao desfavor destas pessoas com pinças de caranguejo, mãos ásperas que nem cal e troncos marrecos por tanta força irem recrutar aos músculos das costas e dos ombros. Mas, ao contrário de quem se dedica à vertente speed, os escaladores das outras especialistas são por hábito esguios, magros e definidos por músculos delgados, focados mais em serem criativos a resolver os problemas com que uma parede os afronta ao invés de se preocuparem só com escalarem rapidamente uma via que não altera a sua disposição.
A velocidade é escalada, claro, reconhece Tiago Martins, contente com a decisão tomada pós-Tóquio de separar esta vertente das outras duas - em 2021, a escalada era uma prova dividida pelas três variantes e a pontuação dos atletas era uma soma das suas prestações em cada vertente.
Separada das irmãs mais velhas, a velocidade respira melhor sozinha. E as outras melhor sem ela. “Tem o objetivo da progressão vertical, mas, em termos de substância, é bastante diferente e todos os escaladores, inclusive os atletas que competiram nos Jogos de Tóquio, ficaram bastante contentes com a separação. O que está a acontecer agora é que, tornando a velocidade independente e com direito a medalhas próprias, isso deu uma dignidade maior à escalada e há cada vez mais praticantes de escalada de velocidade”, explica quem, há uns anos, fez companhia e de cicerone a Alex Honnold, quando o americano que pertence ao mais restrito dos mundos da escalada esteve a desanuviar nas rochas de Portugal. Ele é o protagonista de “Free Solo”, documentário galardoado com um Óscar que contou a história do tipo que escala mamutes rochosos sem corda, a confiar somente na sua destreza.
Nas paredes artificiais dos Jogos como nas naturais e escarpadas da natureza, a pressa é a menor das amigas da escalada. Sem a companhia das outras variantes, os escaladores mais pequenos, mais musculados e mais explosivos mostraram, em menos de cinco segundos, que a escalada vive melhor com a velocidade a viver à parte.
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