Nadador olímpico recorreu ao Instagram para se desculpar pela confusão com as autoridades brasileiras. Em causa está um alegado assalto de que disse ter sido alvo. Locthe não esclarece o que aconteceu no passado domingo mas admite que lhe faltou sinceridade e cuidado quando descreveu o sucedido
O que aconteceu exatamente na madrugada do passado domingo com Ryan Lochte, James Feigen, Jack Conger e Gunnar Bentz parece continuar por esclarecer. Os relatos da polícia brasileira e dos nadadores olímpicos são contraditórios: os norte-americanos dizem que foram assaltados na Barra da Tijuca, as autoridades referem que não houve assalto e que na verdade se tratou de um ato de desordem dos atletas.
Esta sexta-feira, Locthe, o nome mais sonante envolvido na polémica, recorreu ao Instagram para se desculpar pela falta de cuidado e sinceridade ao descrever os acontecimentos. Será uma confissão? “Quero desculpar-me pelo meu comportamento no passado fim-de-semana – por não ter sido mais cuidadoso e sincero na forma como descrevi os eventos daquela madrugada e pelo meu papel ao tirar o foco dos vários atletas que cumprem os sonhos da participação olímpica.”
Tudo começou com um suposto assalto à mão armada aos nadadores. Entretanto surgiram vídeos, cuja veracidade não foi oficialmente confirmada, que mostrava os quatro atletas a chegarem à aldeia olímpica serenos e a uma hora diferente da que tinham indicado às autoridades. A desconfiança sobre os contornos do episódio começou a aumentar: não havia provas que corroborassem o que Lochte e Feigen relataram à polícia. Foi então ordenada a apreensão dos passaportes dos quatro norte-americanos, de forma a impedi-los de deixar o Brasil. Um deles já está nos Estados Unidos - o próprio Lochte - , dois foram detidos quando embarcavam e quanto ao último não é ainda claro a sua localização.
Depois do diz-que-diz e da troca de acusações, esta sexta-feira Ryan Lochte (que está em casa desde segunda-feira) pediu desculpas e utilizou como justificação para toda a confusão a barreira linguística.
“É traumático quando sais à noite com os amigos num país estrangeiro – com a barreira linguística – e tens um estranho a apontar uma arma e a exigir dinheiro para te deixar ir embora”, argumenta Locthe. “Deveria ter sido mais responsável relativamente ao meu comportamento e por isso peço desculpa aos colegas de equipa, aos fãs, aos adversários, aos patrocinadores e aos anfitriões deste grande evento. Estou muito orgulhoso de representar o meu país nos Olímpicos e esta situação poderia e deveria ter sido evitada.”
James Feigen (em cima à esquerda), Ryan Lochte (em cima à direita), Gunnar Bentz (em baixo à esquerda) e Jack Conger (em baixo à direita)
AFP/ getty Images
Cronologia dos acontecimentos
No passado domingo, as primeiras notícias começaram a surgir: quatro nadadores da equipa olímpica norte-americana teriam sido assaltados num táxi. Após saírem de uma festa na Casa de França, na Barra da Tijuca, o grupo foi alegadamente abordado pelos ladrões, que começaram por se identificar como agentes da polícia. “Tiraram as armas, mandaram-nos deitar no chão, mas eu recusei”, descreveu na altura Ryan Lochte à NBC, acrescentando que teve uma arma apontada à testa.
Na segunda-feira, Lochte voou para os Estados Unidos. “Partiu tal como estava previsto depois de completar a sua participação [nos Jogos]. As autoridades brasileiras não lhe pediram para permanecer no país enquanto decorre a investigação”, disse Jeff Ostrow, advogado de Ryan Lochte, citado pela CNN. “Se tivessem pedido, teria ficado. Ainda não entraram em contacto para esclarecimentos adicionais.”
A defesa ainda acusou o Brasil de se encontra r“debaixo de uma nuvem negra por mais de mil e uma razões”. “Desde a sua economia ao crime, passando pela forma como geriram os Olímpicos”, acrescentou o advogado, citado pelo “New York Times”.
Entretanto, o “Daily Mail” divulgou um vídeo com a chegada dos atletas à aldeia olímpica na noite do alegado assalto. “Conseguimos ver as supostas vítimas a chegarem sem sinais de terem sido ameaçadas fisicamente ou psicologicamente - até estão a fazer piadas uns com os outros”, defendeu a juíza brasileira Keyla Blanc De Cnop.
Na quarta-feira - continuando a não aparecerem provas a favor dos atletas -, Keyla Blanc De Cnop ordenou, numa primeira fase, a apreensão dos passaportes de Lochte e Feigen. Depois, à noite, a polícia deteve Jack Conger e Gunnar Bentz quando embarcavam num voo com destino aos EUA.
Na quinta-feira, as autoridades, que até então tinha mostrado sempre dúvidas relativamente ao testemunho dos atletas, negavam a existência do assalto. O que as autoridades agora contam é que Lochte, Feigen, Conger e Bentz chegaram de táxi a um posto de gasolina na Barra do Tijuca às 6h, depois de uma festa na casa de França. Foram à casa de banho, onde destruíram a porta e a saboneteira. O segurança apercebeu-se do sucedido e abordou os atletas, obrigando-os a pagar os estragos.
Inicialmente recusaram pagar, mas os funcionários da bomba de combustível alertaram as autoridades. Nesse momento, os quatro norte-americanos terão mostrado alguma agressividade, levando o segurança a apontar-lhes uma arma. Quando as autoridades chegaram ao local, já Lochte, Feigen, Conger e Bentz se tinham ido embora e pago os estragos, testemunhou um homem que naquela noite se ofereceu para fazer a tradução da conversa com o gerente, acrescenta o “New York Times”.
A imprensa brasileira, citando fonte da investigação, refere que uma das hipóteses é que o falso depoimento foi dado com o objetivo de enganar uma pessoa próxima a um dos atletas. E o caso só terá sido tornado público porque a mãe de Lochte contou o sucedido a um órgão de comunicação dos EUA.
Esta sexta-feira, Jack Conger e Gunnar Bentz regressaram a casa.