Jogos Olímpicos

O Brasil nunca ganhou uma medalha nos Jogos Olímpicos de inverno. Com Lucas Pinheiro Braathen pode sonhar até com o ouro

Lucas Pinheiro Braathen é filho de pai norueguês e mãe brasileira
Lucas Pinheiro Braathen é filho de pai norueguês e mãe brasileira
Christophe Pallot/Agence Zoom

O vice-líder da Taça do Mundo de slalom nasceu na Noruega, mas é pelo Brasil, país da sua mãe, que decidiu competir depois de um hiato na competição em 2024. Agora, Lucas Pinheiro Braathen, que em miúdo preferia o futebol à neve, tem a oportunidade de dar uma alegria a mais de 200 milhões de brasileiros quando competir nos Jogos de Milão-Cortina, que arrancam na sexta-feira, 6 de fevereiro

Não é necessário recuar assim tanto para chegarmos à primeira participação de um atleta brasileiro nos Jogos Olímpicos de inverno. Aconteceu em 1992, em Albertville, França, e desde então quatro dezenas de atletas do país conheceram as alegrias do espírito olímpico em temperaturas negativas sem, no entanto, conseguirem qualquer pódio.

O factoide não parece demasiadamente estranho: afinal o Brasil não tem qualquer estância de esqui com neve natural e apenas nos estados mais a sul é possível sentir uma aragem minimamente gelada no inverno. Porém, num mundo globalizado, não há impossíveis. Nem sequer ver um brasileiro a brilhar na neve.

Em Milão-Cortina, o Brasil tem legítimas aspirações em sonhar com uma medalha. E logo num das modalidades mais importantes dos Jogos Olímpicos de inverno, o esqui alpino. O atual vice-líder da Taça do Mundo de slalom, a mais técnica das disciplinas do esqui alpino, chama-se Lucas Pinheiro Braathen e o nome do meio não engana. Nascido em Oslo há 25 anos, filho de pai norueguês e de mãe brasileira, que se conheceram num voo a caminho de Miami, Braathen carrega aos ombros as esperanças de mais de 200 milhões de brasileiros, pouco habituados a verem um compatriota a descer montanhas.

Braathen, que é também 2º na tabela do combinado, que junta resultados das quatro disciplinas do esqui alpino, começou por competir pela Noruega, mas um arrufo com a federação, pouco depois de se ter sagrado campeão da Taça do Mundo de slalom em 2023, levou o esquiador, já então uma estrela em ascenção, a tomar a decisão radical de se retirar do desporto. Não se sentia livre, confessou num texto na primeira pessoa ao portal brasileiro UOL, e queria dedicar-se a outras paixões, “a música, arte e moda”. Não demoraria muito o hiato: em 2024/25 voltou às curvas, mas a competir pelo país da mãe, o Brasil.

Lucas Pinheiro Braathen é o vice-líder do ranking das Taças do Mundo de esqui alpino
Christophe Pallot/Agence Zoom

“É o início do grande projeto da minha vida”, atirou quando anunciou que estava farto de não sentir o ar da montanha a bater-lhe na cara. Lucas queria “contar uma história maior”, ter uma voz diferente para “exaltar coisas mais importantes do que o resultado de uma competição”, sublinhou no UOL: “Defender o Brasil, um país tropical e, portanto, sem tradição dos desportos de inverno, poderia ser um caminho. Essa possibilidade sempre esteve na minha mente.”

Esta temporada, em Levi, na Finlândia, tornou-se o primeiro brasileiro a vencer uma etapa da Taça do Mundo, onde tem mais três pódios. A tal “história maior” já tem capítulos importantes. E os Jogos Olímpicos de Milão-Cortina poderão ser o próximo, escrito a um qualquer metal.

Primeiro o futebol, depois o esqui

Lucas Pinheiro Braathen tinha três anos quando os pais se separaram e inicialmente acompanhou a mãe, Alessandra, que regressou ao Brasil. Pouco depois, o pai ganhou a custódia de Lucas, que voltaria ao seu país de nascimento. Não falhava, no entanto, uma viagem anual ao Brasil e a sua primeira língua até foi o português, que misturava com o norueguês nos primeiros anos de escola.

Não será de admirar que a primeira paixão de Lucas tenha sido o futebol, que jogava com os primos nas ruas de São Paulo. Cresceu a admirar Ronaldinho e Cristiano Ronaldo e o esqui foi gosto adquirido que chegou tarde. Bjorn, explicou Lucas à revista da Red Bull, mudava-se de “estância de esqui em estância de esqui cada vez que encontrava um novo trabalho”, mas o pequeno Lucas demorou até ser convencido a praticar o desporto nacional da Noruega.

Lucas preferia o futebol na infância
Alexis Boichard/Agence Zoom

“Inventava todo o tipo de mentiras. Dizia ao meu pai: ‘Sou brasileiro, isto não me está no sangue, fico doente com estas temperaturas e os meus pés são feitos para a praia, não para estas botas duras’”, contou. Tudo mudou quando, aos oito anos, Lucas Pinheiro Braathen se impressionou com a velocidade de um grupo de esquiadores e disse ao pai que queria tentar de novo. Não mais parou.

Conhecido pelas suas escolhas arrojadas em matéria de moda, num mundo colorido que contrasta em muito com os habituais tons de branco do esqui, Lucas Pinheiro Braathen não tem dúvidas que “o Brasil teve sempre uma grande influência” na sua personalidade e no atleta que se tornou. “Espero que colocar o Brasil no mapa neste desporto dê coragem a atletas de outros países pouco representados a apostarem no esqui. Se puder convencer só um miúdo que seja a tentar, isso faria de mim a pessoa mais feliz do Mundo”, disse após a vitória em Levi, em novembro.

Grande fã de Bossa Nova e de música popular brasileira, Lucas Pinheiro Braathen tem o hábito de ouvir Jorge Ben Jor antes das corridas. Segue o São Paulo, a sua equipa do coração, e sempre que aterra no Brasil pára no primeiro café e pede “um pão de queijo e guaraná”, escreveu no UOL. O primeiro jantar é churrasco tipicamente brasileiro. Se levar a primeira medalha olímpica das baixas temperaturas para o Brasil, infinitos churrascos estarão à sua espera.

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