Amber Glenn, a última na fila das princesas do gelo
A norte-americana a realizar o programa curto nos campeonatos nacionais dos Estados Unidos
VCG
Com Amber Glenn, que passou grande parte da vida a combate-los, não há padrões. A luta deu-lhe trabalho e após ser campeã norte-americana de juniores aos 14 anos teve uma depressão e lidou com distúrbios alimentares. Para se tornar especialista no triple axel bateu muitas vezes com a cabeça e atualmente faz neuroterapia para manter o cérebro ligado ao corpo. Assumidamente queer, é já como veterana – tem só 26 anos, e daí? – que se vai estrear nos Jogos Olímpicos de Inverno na condição de tricampeã nacional dos Estados Unidos
Amber Glenn entra em pista e parece dar início a um casting para o “Eu, Tonya”. Começa de um modo tão dramático que seria capaz de convencer qualquer um de que o gelo por baixo dos pés ia estalar e a sua existência seria engolida. A meio do exercício, dá um safanão no ritmo e borrifa energia. O pavilhão, inicialmente contido, vai atrás da mudança de postura, marcando-lhe com palmas o ritmo das estonteantes piruetas.
Até ali, os campeonatos nacionais dos Estados Unidos nunca tinham visto uma mulher receber uma nota tão alta (83,05) numa rotina de programa curto. O recorde ajudou Amber Glenn a levar a medalha de ouro pelo terceiro ano consecutivo, mas também a alcançar um feito inédito. Aos 26 anos, idade de veterana, qualificou-se pela primeira vez para os Jogos Olímpicos de Inverno.
Por mais cinematografia que exista, não há duplos para filmarem as cenas mais ardilosas. Amber Glenn bateu muitas vezes com a cabeça, mas houve dois acidentes que lhe provocaram concussões severas e uma desconexão entre o cérebro e o corpo. Atualmente, faz neuroterapia para combater a ansiedade. “É como o clicker de um cão a treinar. Ensina o cérebro a acalmar ou a acelerar. A neuroterapia não é só para atletas. Há pessoas com Alzheimer e Parkinson que a utilizam e ajuda. Para mim, serve para recuperar de uma lesão cerebral que sofri no passado”, descreveu numa entrevista à WFAA, uma estação televisiva do estado do Texas, de onde é natural.
Amber Glenn tem pele clara, cabelos loiros e usa frequentemente mangas compridas e justas. Se tentasse, não conseguia ficar mais parecida com Elsa, a personagem do filme animado “Frozen”. Porém, ela é a última na fila das princesas. Tudo no seu trajeto parece um anúncio publicitário para o combate à patinagem artística.
A tricampeã nacional dos Estados Unidos a defender o título
Jamie Squire
Empoleirar-se nas lâminas da pista de gelo de um centro comercial perto de casa, quando tinha cinco anos, empurrou-a por um caminho que também começou de maneira caótica e está agora na fase mais proveitosa. O talento precoce de Amber Glenn atrapalhou-a. Tudo por uma questão de expetativas em relação ao que os outros desejavam que fizesse com ele. Os treinadores, explicou no “The Washington Post”, queriam que ela fosse “mais como uma princesa do gelo”.
Podia ter sido campeã norte-americana de juniores apenas com 14 anos, mas as constantes sugestões de melhoria importunaram-lhe o progresso. Após o sucesso, foi hospitalizada com ansiedade, depressão e distúrbios alimentares, cortesia de uma amiga que alertou a família para a situação.
Em certos momentos menosprezou a luta contra a falta de ânimo. Chegou à primeira competição sénior em que participou vinda diretamente do estabelecimento médico onde se encontrava domada por antidepressivos. Chegou ao Canadá, onde se realizava a prova, ébria de medicamentos. Poucas recordações tem desse dia, aquele em que decidiu fazer uma pausa de oito meses.
Uma das acrobacias que domina com particular precisão é o triple axel, um salto de 1260° que supera os outros elementos na hierarquia da dificuldade. No entanto, nas fases mais negras, nem isso Amber Glenn conseguia executar. Era descuidada quanto ao sentido que dava aos pés, como se conduzisse a olhar para o manípulo das mudanças, e teve uma série de quedas feias. Em 2019, com o diagnóstico de transtorno do défice de atenção com hiperatividade, percebeu o motivo.
Em 2026, Amber Glenn vai participar pela primeira vez nos Jogos Olímpicos de Inverno
Lintao Zhang - International Ska
Com todos os transtornos sob controlo, a norte-americana vai a Milão-Cortina para tentar contrariar o recente domínio de atletas nascidas na Rússia, vencedoras das três últimas edições do concurso individual feminino nos Jogos Olímpicos de Inverno. Ainda assim, neste evento, os Estados Unidos são o país com mais medalhas (23), tendo produzido sete ouros (Tenley Albright, Carol Heiss, Peggy Fleming, Dorothy Hamill, Kristi Yamaguchi, Tara Lipinski e Sarah Hughes).
Amber Glenn terá como colegas de seleção Alysa Liu e Isabeau Levito. Em Itália, também se fará acompanhar do pin com a bandeira LGBTQIA+, acessório que transporta nas aparições junto da imprensa como demonstração de apoio à comunidade. Assumidamente queer, partilhar a sexualidade foi outro fator de pressão. Mas ela tem um lema que soa a diálogo com a consciência: “Acredita e respira.”