Jogos Olímpicos

Lindsey Vonn rompeu o ligamento do joelho esquerdo e mesmo assim vai competir nos Jogos Olímpicos de inverno

Se fosse fácil, não era para Lindsey Vonn, que vai competir em Milão-Cortina mesmo com uma grave lesão
Se fosse fácil, não era para Lindsey Vonn, que vai competir em Milão-Cortina mesmo com uma grave lesão
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A esquiadora de 41 anos preparava-se para voltar à glória olímpica, que seria o culminar de um excecional regresso à competição concretizado em 2024, depois de um interregno de quase seis anos. Recuperado com placas de titânio o problemático joelho direito, foi uma grave lesão no outro joelho, após queda feia, que quase cortava pela raiz esse sonho. Mas Vonn diz que, ainda assim, vai tentar: “Enquanto tiver uma oportunidade, não vou perder a esperança.”

Nos últimos dias de 2024, Lindsey Vonn voltou a calçar uns esquis e a descer montanhas a alta velocidade de forma competitiva. Fê-lo já com 40 anos, quase seis depois de se retirar, oprimida por dores constantes no massacrado joelho direito. Meses antes do inesperado regresso às provas de esqui alpino, a norte-americana havia colocado uma placa de titânio nesse joelho, o tal que mesmo depois de reformada lhe havia reservado uma vida em que não se podia dar ao luxo de saber o que era não estar em sofrimento.

O titânio foi sinónimo de milagre. Vonn voltou a sentir-se como nos seus melhores dias. Um ano depois, já estava a ganhar provas da Taça do Mundo.

E, ainda assim, não era este o grande e derradeiro comeback da estrela norte-americana.

Há cinco dias, a esquiadora sofreu uma aparatosa queda durante a etapa da Taça do Mundo de Crans Montana, na prova de downhill. Agarrada ao joelho esquerdo, o seu joelho bom - ou pelo menos aquele ainda feito de cartilagens e osso real -, esperou-se o pior. A norte-americana seria levada de helicóptero para fazer mais exames, que confirmaram o cenário mais complexo: uma rotura total do ligamento cruzado anterior.

Um diagnóstico tão cruel significaria, para a maioria dos atletas, uma longa paragem. Mas Lindsey Vonn não tem esse tempo. Aos 41 anos, sabe que tem nos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina, que arrancam esta sexta-feira, a última oportunidade de uma glória olímpica que já lhe deu um ouro há 16 anos, em Vancouver 2010, e dois bronzes, um também em 2010 e outro em PyeongChang 2018. Um ano e poucos meses após o regresso triunfante, Vonn é líder da Taça do Mundo de downhill e muito provavelmente a velocista mais em forma do momento.

E por isso mesmo Lindsey Vonn vai cometer uma loucura. Pelo menos para os parâmetros do comum mortal. Mesmo com um joelho de titânio e outro sem ligamento cruzado anterior, a atleta nascida em St. Paul, no Minnesota, mas forjada nas montanhas do Colorado, vai tentar competir em Milão-Cortina.

Lindsey Vonn com um esgar de dor depois da queda feia no downhill de Crans Montana, onde se lesionou no joelho esquerdo
JEAN-CHRISTOPHE BOTT

Numa conferência de imprensa já em Cortina, estância onde Vonn tem um total de 12 vitórias em Taças do Mundo, a norte-americana explicou que depois de consultar médicos, de dias de tratamentos intensos e de fazer alguns testes já montada nos esquis, a opção foi fazer-se à pista. Para estar à partida do downhill, já no domingo, Vonn terá de fazer pelo menos um treino, mas diz-se “confiante” na capacidade do seu corpo. Além da rotura do ligamento, os exames detetaram ainda uma lesão óssea e outra no menisco, ainda que não tenha sido possível confirmar se estas lesões tenham sido consequência direta da queda.

“Apesar das lesões, o meu joelho está estável, não há inchaço e os meus músculos estão bem”, sublinhou Vonn, que terá um primeiro teste mais a sério na quinta-feira, já na pista de Cortina, onde em 2004 conquistou o seu primeiro pódio em Taças do Mundo.

“Sei quais eram as minhas hipóteses nestes Jogos Olímpicos antes da queda e mesmo sabendo que as hipóteses não são as mesmas agora, creio que ainda tenho uma oportunidade. E enquanto tiver uma oportunidade, não vou perder a esperança. Não vou desistir, isto ainda não acabou”, confessou ainda.

Na conversa com os jornalistas, Vonn apontou que a sua “experiência de vida” deu-lhe a confiança para saber o que o seu corpo “pode ou não fazer”. O facto de já ter estado nesta posição antes foi importante na hora de tomar uma decisão: “Sei como lidar com isto. Mesmo não querendo estar nesta posição, eu sei como lidar com ela.” Não sendo uma modalidade de contacto e choque, é mais fácil competir no esqui alpino com uma lesão no joelho do que, por exemplo, no futebol. Para Vonn é também uma questão de tudo ou nada, de arriscar na sua última dança. Com um futuro tão curto, o presente é o único que interessa.

Dias depois do acidente que quase lhe tirava a oportunidade de se despedir nos seus termos no palco olímpico, Lindsey Vonn publicou uma foto nas redes sociais do túmulo do seu antigo treinador, Erich Sailer, falecido em 2025. A acompanhar a foto, uma frase: “Sei exatamente o que ele diria.” E o que, afinal, Sailer diria perante um dilema como este, questionaram os jornalistas na conferência de imprensa?

“Diria: ‘São apenas 90 segundos. E o que são 90 segundos numa vida inteira?’”

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