“Sid the Kid” não é poeta de karaoke, ele escreve a sua própria lenda de gelo e ouro
Sidney Crosby foi campeão olímpico em 2010 e 2014. Em 2026 tentará o tri
Andre Ringuette/4NFO
As estrelas da NHL estão, 12 anos depois, de volta aos Jogos e isso significa ter Sidney Crosby pronto para liderar o Canadá rumo ao terceiro ouro da conta pessoal. Lendário capitão dos Pittsburgh Penguins, o superscitioso e muito ativo veterano, de 38 anos, foi um prodígio juvenil transformado em máquina de bater recordes
No Nova Scotia Hall of Fame, o passeio da fama do desporto da Nova Escócia, no Canadá, junto ao Atlântico Norte, há uma particular máquina de secar que motiva a peregrinação de gente vinda de bem longe. "Chegam aqui pessoas que atuam como se estivessem a ir a Meca", confessa o responsável do espaço, citado pela ESPN.
Os fiéis pousam diante do eletrodoméstico, tiram fotografias, esperem receber algum tipo de inspiração vinda do aparelho. A máquina está desgastada, amolgada, com marcas que a assemelham a uma sobrevivente de um tiroteio.
Muitos dos que viajam para ver o artefacto usam camisolas dos Pittsburgh Penguins. Nas costas está o número 87, o distintivo usado pelo causador dos estragos na máquina.
Aquela máquina de sacar estava na cave da família Crosby, que vivia em Halifax, ali no Canadá Atlântico. Sidney, o pequeno filho dos Crosby, treinava os remates de hóquei usando o eletrodoméstico como alvo. Passava horas lá em baixo, sozinho, violentando a baliza imaginária.
"Era como se ele fosse um músico. O barulho vindo da cave tornou-se o ruído de fundo da nossa casa, ouvindo-se sempre que a máquina estalava como um tambor a cada remate do Sidney", relata Trina, a mãe.
Três décadas passadas, Sidney Crosby já não precisa de treinar fechado numa cave. É um dos grandes símbolos da NHL do século XXI, capitão dos Pittsburgh Penguins e líder da seleção do Canadá.
Sidney Crosby em 2004, antes de chegar à NHL
B Bennett
Após duas edições de ausência, as estrelas da NHL voltarão, em Milão-Cortina, ao palco olímpico. Em 2018, a liga e o Comité Olímpico Internacional não chegaram a acordo quanto a desavenças de calendário, em 2022 foi a pandemia da Covid-19 a tirar os jogadores do campeonato dos Estados Unidos e Canadá de Pequim.
O retorno dos craques da NHL significa que Sidney Crosby volta a um dos palcos que o consagrou. Campeão olímpico em 2010 e 2014, é um dos membros do triple gold club, capaz de ter o ouro olímpico, o ouro mundial e a Stanley Cup, atribuída aos vencedores da NHL.
Ora, neste clube de elite há algo que singulariza Crosby: é o único a ter conseguido estes três títulos sempre enquanto capitão de equipa. Pois, Sidney não é poeta de karaoke; esta história é mesmo original.
Não sabemos até quando, mas sabemos desde quando, de onde vem a alcunha que o assemelha ao mais conhecido rapper de Chelas. Crosby foi um prodígio desde muito jovem, uma enorme promessa do hóquei gelado que deu certo.
Filho da 240.º escolha do draft de 1984, que foi selecionado pelos Montreal Canadiens mas nunca se chegou a estrear na NHL, Sidny começou a patinar aos três anos e não tardou a destacar-se. Aos sete, quando já recebia bastante atenção pelas proezas no gelo, deu a sua primeira entrevista.
No secundário tornou-se tão popular ao serviço dos Rimouski Océanic que não só a equipa, mas a própria liga jovem do Quebec, retiraram a camisola 87. O prémio atribuído ao melhor rookie do ano na competição chama-se, hoje, troféu Sidney Crosby.
O brilhantismo alastrava-se aos estudos. Não sabemos se havia alguma Sofia na vida do jovem Sidney, mas o desempenho académico é conhecido: "Era um estudante de nota máxima a tudo. Era um exemplo, especialmente atencioso para com os colegas com mais dificuldades ou com necessidades educativas especiais", contou o vice-diretor da Harrison Trimble High School à ESPN.
Sidney Crosby festeja o título olímpico de 2010, em Vancouver
Harry How
Em 2005, com 18 anos, chegou à NHL como primeira escolha do draft. Assinou pelos Penguins, onde se mantém passadas 21 voltas ao sol.
O desembarco de Crosby na competição chegou num momento especialmente duro para o hóquei no gelo profissional norte-americano. A época 2004/05 não se realizara devido a uma disputa laboral entre jogadores e liga. É, até hoje, a única grande competição dos EUA e Canadá a ser cancelada por causa de uma disputa laboral.
Também os Pittsburgh Penguins se encontravam em situação delicada. O colapso financeiro era um perigo real para a equipa com o recinto mais vetusto da NHL, sendo colocada, na altura, a hipótese de tirar a franquia da Pensilvânia e levá-la para Kansas City.
Na época de estreia, em 2005/06, registou 102 pontos. Tornou-se, com 18 anos e 253 dias, no mais jovem de sempre a chegar à centena de pontos numa época da NHL, marca ainda não superada; na segunda temporada chegou aos 120 pontos, conquistando o Art Ross Trophy, atribuído a quem mais pontua durante a época regular, sendo o mais novo e o único adolescente de sempre a receber um prémio de melhor marcador em qualquer grande liga desportiva da América do Norte.
Aos 21, ao guiar os Penguins ao título, passou a ser o mais novo capitão da história da NHL a erguer o título da competição. Venceria a Stanley Cup mais duas vezes, em 2015/16 e 2016/17. O Hart Memorial Trophy, atribuído ao melhor jogador da temporada, foi-lhe parar às mãos em 2006/07 e 2013/14.
Ouro, ouro... e mais ouro?
Crosby é conhecido por ser altamente supersticioso. Tem uma série de rituais inegociavéis em dias de jogo e conseguiu que o seu número (87) e até o ano (2007) e valor ($8.7 milhões por ano) de um dos seus contratos refletissem a data do seu aniversário (8/7/87).
Outra das características do canadiano é uma certa hiperatividade. Quando tem muito tempo de descanso entre encontros ressente-se, piorando as suas exibições pela falta de ritmo, característica que, garante, se acentua agora que tem 38 anos. Quando tem tempo livre, gosta de atividades como montanhismo, pesca ou andar de caiaque.
Sidney Crosby (em baixo, ao centro, com o 87) depois de receber o ouro em Sochi 2014
Christopher Morris - Corbis
A grande missão de Crosby neste regresso olímpico é resgatar o ouro para o Canadá. Nos dois Jogos anteriores, com a ausência dos notáveis da NHL, houve triunfo finlandês em 2022 e em 2018 foram os russos, competindo sob bandeira olímpica, os triunfadores.
Sidney ganhou, definitivamente, estatuto de lenda canadiana em 2010. Nos Jogos de Vancouver, a final do hóquei em patins colocou a equipa anfitriã diante dos Estados Unidos. No prolongamento, Sid the Kid marcou o golo que deu o lugar mais alto do pódio ao Canadá.
Passados quatro anos, o capitão Crosby voltou a receber o ouro, cor da medalha que penduraria ao pescoço no Mundial de 2015, em Praga. Para Milão-Cortina o objetivo é chegar ao estatuto de tricampeão olímpico.
Aos 38 anos, o homem que nasceu no frio do Atlântico Norte decidiu que ainda não é tempo de fazer uma retrospetiva deste amor profundo que sente por competir. Talvez o faça em homenagem ao Sidney de 17 anos.
Há mais de duas décadas, o adolescente prodígio foi entrevistado pelas 30 equipas da NHL, todas desejosas de contarem com o fenómeno. Quando chegou a vez dos New York Rangers, os dirigentes colocaram-lhe um desafio: "Se te dessem um comprimido que garantiria que serias vencedor da Stanley Cup e campeão olímpico, mas não viverias além dos 25 anos, aceitarias tomá-lo?"
Crosby matutou a resposta e lançou: "Não tomaria o comprimido porque tenciono ganhar esses títulos mais do que uma vez cada." Ainda bem que Sidny preferiu escrever a sua história.