Jogos Paralímpicos

Akari Fukunishi e o lugar que (quase) nunca é dado às mulheres no hóquei no gelo

Akari Fukunishi tem 35 anos e, apesar de as equipas paralímpicas de hóquei no gelo serem mistas, é a única mulher a competir nos Jogos
Akari Fukunishi tem 35 anos e, apesar de as equipas paralímpicas de hóquei no gelo serem mistas, é a única mulher a competir nos Jogos
Darrian Traynor

O Japão apresentou em Jogos Paralímpicos de Milão‑Cortina a única mulher inscrita no torneio de hóquei. Akari Fukunishi, de 35 anos, é apenas a quarta atleta feminina de sempre a competir na modalidade, cinco anos depois de um acidente que a afastou do gelo tradicional e a levou ao hóquei adaptado

O Japão entrou no hóquei no gelo em Milão‑Cortina com uma nota histórica na ficha: Akari Fukunishi, de 35 anos, defesa. Ela tornou-se a quarta mulher a competir na prova paralímpica da modalidade, que é oficialmente mista, mas quase sempre só tem homens, por hábito, inércia e preconceito. A presença de Fukunishi quebra uma tendência de décadas. Antes dela, só três nomes tinham furado essa barreira: a sueca Amanda Ahrnbom e as norueguesas Lena Schroeder e Mjaasund Oeyen.

Desde que o torneio passou a admitir equipas mistas - na estreia em 1998 e, de forma contínua, desde 2010 -, o número de mulheres manteve-se teimosamente residual. A regra dizia “aberto a todos”, mas a realidade correspondia a quase só para os homens. Fukunishi entrou neste clube minúsculo sabendo que, mais do que uma atleta, é um argumento vivo contra a ideia de que não há mulheres suficientes, nem suficientemente boas para isto.

Uma perna quase amputada e o vocabulário desportivo

A história de Fukunishi não começa no trenó, começa no hóquei no gelo tradicional. Nascida em 1990, apaixonou-se pela modalidade ainda na escola primária. Continuou a jogar, cresceu dentro do desporto até que um acidente de moto, em 2021, quando foi atingida por um carro, a deixou com sequelas permanentes na perna (que quase foi amputada), perdendo a capacidade de correr ou saltar, conta o “Japan Daily”.

O que poderia ter sido o fim da relação com o gelo virou o início de outra: menos de dois anos depois, já estava convocada e preparada para ocupar um lugar onde os atletas com deficiência nos membros inferiores deslizam em trenós com duas lâminas e se impulsionam com dois sticks.

Akari Fukunishi a acenar para a bancada do pavilhão de gelo de Santagiulia, em Milão
James Fearn

O que impressiona é a velocidade com que fez a transição. Quando, em 2025, disputou em Dolny Kubin, na Eslováquia, o primeiro Mundial feminino de hóquei no gelo para pessoas com deficiência, Fukunishi tinha menos de um ano de experiência na modalidade. O Japão nem sequer tinha seleção feminina, por isso alinhou por uma equipa chamada Team World, um mosaico de jogadoras de nove países diferentes que ainda não conseguiam montar um projeto próprio.

Em três jogos, liderou a equipa em pontos: quatro golos e uma assistência, cinco pontos no total. A sua base técnica, leitura de jogo, stick handling, posicionamento, vêm de anos no gelo, ela já tinha um “vocabulário” desportivo consolidado; faltava-lhe apenas aprender a traduzir tudo para o trenó.

Uma trailblazer que acredita em se tentares, consegues

A narrativa ganha um tom quase improvável quando descobrimos que falamos de uma funcionária que trabalha num centro de apoio integral à criança e à família em Itabashi, uma região de Tóquio, onde gere turnos noturnos e serviços ao fim de semana - que treina depois do trabalho, que pede dias de férias para estágios e que monta uma campanha local para financiar a preparação rumo a Milão-Cortina.

A logística é apertada, o descanso é curto e a preparação para competir ao mais alto nível exige uma disciplina férrea. O marido, Hachimitsu Fukunishi, de 31 anos, estudou desporto adaptado na pós-graduação e tem muitos amigos na comunidade paralímpica, e foi essa rede que acabou por aproximar Fukunishi do hóquei para pessoas com deficiência quando procurava uma forma de regressar ao desporto depois do acidente.

Em Milão, participou em ações de promoção do hóquei feminino e foi destacada pelo Olympics.com como “trailblazer” (pioneira, desbravadora), sublinhando a frase que repete sempre que lhe perguntam como chegou tão longe, tão depressa: “If you try, you can do it” (Se tentares, consegues). Mais do que um slogan, é um método.

Akari Fukunishi com dois companheiros de equipa do Japão, após o encontro contra a Chéquia na fase de grupos dos Jogos Paralímpicos de Milão-Cortina
James Fearn

Ela não cresceu a sonhar ser “a única mulher em campo”, nem “a quarta da história”, cresceu a querer jogar hóquei. O resto veio com o tempo, com a consciência de que o simples ato de entrar no gelo com o Japão, frente à República Checa, na manhã de 7 de março, já era um gesto político, mesmo que ela nunca o tenha pedido.

O paradoxo do hóquei no gelo paralímpico é este: o torneio é oficialmente aberto a todos, mas as convocatórias raramente o são. As equipas justificam-se com argumentos de competitividade, de físico, de ritmo. Em fevereiro de 2026, o Comité Paralímpico Internacional confirmou que Fukunishi seria convocada para a seleção japonesa em Milão‑Cortina. A decisão tinha peso competitivo, mas também simbólico: pela primeira vez desde 2018, uma mulher voltaria a estar em campo e, desta feita, seria a única em todo o evento. Não é uma mascote, um símbolo decorativo, é defesa, disputa discos nas tabelas, bloqueia remates, leva com o peso dos adversários e devolve na mesma moeda. A sua existência no plantel japonês obriga treinadores, dirigentes e colegas a olharem para a modalidade com outra lente.

Um desafio para 2030 que começa já em 2026

Ao mesmo tempo, Akari Fukunishi carrega um peso que não aparece nas estatísticas. Em Milão-Cortina é a única mulher em todo o torneio a vestir equipamento num balneário que não foi pensado para partilhar género; a única a responder às perguntas sobre “como é ser a única mulher aqui?”. A imprensa especializada fala da japonesa como quem fala de um farol: a jogadora que mantém acesa a esperança de que, em 2030, o hóquei no gelo feminino seja finalmente incluído como prova oficial nos Jogos Paralímpicos.

Para isso acontecer é preciso que mais países comecem a competir imediatamente. De acordo com o The Hockey News, atualmente, apenas o Canadá, os EUA, a Noruega, a Grã-Bretanha e a Austrália têm equipas nacionais completas. O Campeonato Mundial de 2026 deve cumprir o critério de receber pelo menos oito nações de três regiões. Sem que esse objetivo seja alcançado em 2026, a modalidade não será elegível para os Jogos Paralímpicos de 2030. Com o Canadá e os EUA na América do Norte, a Grã-Bretanha e a Noruega na Europa e a Austrália na Oceânia, o requisito regional foi cumprido, mas o torneio deve contar com pelo menos mais três equipas nacionais.

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