As medalhas vão todas para casa dos Aigner, os irmãos que dão concertos na aldeia paralímpica e dominam o esqui alpino
Veronika Aigner utiliza um intercomunicador para falar com o guia
Marco Mantovani
Veronika e Johannes prometeram ganhar dez medalhas em Milão-Cortina e encher ainda mais a prateleira onde os pais as guardam. Quatro dos cinco filhos de Petra e Christian conseguiram pódios em Jogos Paralímpicos de Inverno e a coleção da família não pára de crescer
Os irmãos Aigner não se limitaram a levar para Milão-Cortina apenas o básico, o que, tendo em conta a modalidade a que se dedicam, já era uma quantidade relevante de tralha. Esquis, bastões e agasalhos com as cores da Áustria não ocuparam todo o espaço disponível. Apesar de transportarem tão vasto material, arranjaram maneira de fazer com que um acordeão, uma guitarra e uma harmónica os acompanhassem a Itália.
Se na aldeia paralímpica alguém quiser descansar e não conseguir, culpem Johannes e Veronika. Com os guias, Nico Haberl, Lilly Sammer e Eric Digruber, dão concertos no meio do alojamento dos competidores. No entanto, também se divertem (e muito) no esqui alpino.
Quando regressarem a casa os pais vão precisar de contratar um designer de interiores para dispor de forma harmoniosa tantas medalhas. “Com o dinheiro que gastaram para nós esquiarmos, podíamos fazer uma volta ao mundo”, disse a agradecida Veronika ao Comité Paralímpico Internacional. O sacrifício de Petra e Christian criou filhos que se dedicam a acumular metais preciosos, sendo que Johannes e Veronika já garantiram que não vão voltar de Milão-Cortina mais leves.
Os dois Aigner em competição propuseram-se a conquistar dez medalhas nos Jogos Paralímpicos de Inverno 2026, ou seja, subirem ao pódio em todas as provas em que vão entrar. O objetivo continua em aberto. Veronika conseguiu três ouros (downhill, slalom gigante e super combinado) e uma prata (super-G). Johannes alcançou o título paralímpico no downhill e no super-G.
Johannes Aigner na cerimónia do pódio
Mattia Ozbot
Johannes Aigner na cerimónia do pódio
Mattia Ozbot
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A Áustria leva dez medalhas nesta edição dos Jogos, todas no esqui alpino. Elina Stary (dois bronzes) e Thomas Grochar (um bronze) também contribuíram para a contagem. Salvo estas exceções, todas as medalhas da comitiva que se encontra em Milão-Cortina têm o mesmo apelido.
O domínio dos Aigner no esqui alpino vem desde Pequim 2022. Nessa ocasião, a família contou ainda com a participação de mais dois representantes. Barbara, gémea de Johannes que se retirou entretanto, também colaborou com a coletânea. Nove das 13 medalhas austríacas na China tiveram o mesmo ADN.
Veronika (23 anos) e os gémeos - Johannes e Barbara (20 anos) - nasceram com cataratas, ao contrário das outras duas irmãs. Elisabeth é normovisual e, há quatros anos, guiou Veronika nos Jogos Paralímpicos. Irmgard, que não tem qualquer problema congénito, no passado também auxiliou Veronika em competição.
A confiança com os guias é preponderante. Escolher alguém do mesmo sangue é rentabilizar ao máximo a química que vem do berço. Nas provas de esqui alpino para deficientes visuais, os olhos do guia vão à frente (não demasiado) e este fala com o atleta através de um intercomunicador para dar indicações em relação à velocidade mais adequada para abordar cada curva. O objetivo final é conseguirem o melhor tempo possível.
Todas as conquistas da família estão representadas num lugar especial da residência Aigner, em Gloggnitz. O típico frio austríaco impulsionou a relevância que o esqui tem no seio dos Aigner. Veronika não demorou mais de dois anos a experimentar a modalidade. Ao site dos Jogos Paralímpicos de Inverno, Johannes descreve-os como “uma família normal”. É preciso desconfiar. Não se ganha tantas vezes sem um talento especial.