Kylian Mbappé e Vinícius Júnior são os jogadores que mais encaixam na definição de galáticos do atual Real Madrid
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Florentino Perez tem um problema: precisa de reforçar o meio-campo e a defesa do Real Madrid que reencontra o Benfica (20h, Sport TV5) na Champions, com jogadores capazes de se impor ao lado de Mbappé e Vini Jr., para que se volte a formar um “bando”, um grupo que estabeleça a sua própria ordem e hierarquia, que aguce os sentidos jogo após jogo, caçada após caçada
O Real Madrid volta uma vez mais a estar no centro das atenções. Mas de uma forma diferente daquela a que o 15 vezes vencedor da Liga dos Campeões está habituado, porque terá de disputar o play-off. Todos os adeptos esperam que o clube esteja entre os oito melhores da Europa, tendo em conta o seu nome e o investimento realizado. No entanto, esta “retenção” parece estar a tornar-se regra, com o Real a entrar nela pela segunda vez. A derrota por 2-4 frente ao Benfica, em Lisboa, foi a terceira desde a saída de Carlo Ancelotti, há pouco menos de dois anos.
Olhando para trás, o impacto de Ancelotti torna-se ainda mais evidente, tal como o de Zinedine Zidane, que conquistou três títulos pelo Real entre 2014 e 2024. A razão pela qual ambos se adequaram a este clube em particular é clara: os próprios estiveram em campo ao lado de futebolistas extraordinários. Ancelotti jogou sob o comando de Arrigo Sacchi no AC Milan. Zidane marcou golos decisivos em finais de Mundiais e de Liga dos Campeões. Pessoas com esta aura são respeitadas pelos melhores.
Ancelotti e Zidane fizeram sempre parte de equipas cheias de talento. Isso permite-lhes avaliar com precisão as qualidades dos grandes jogadores e lidar com as suas fragilidades. Sabem por experiência própria o que é necessário para transformar essas diferentes personalidades numa equipa unida.
Xabi Alonso tem um perfil semelhante. Como jogador, foi uma referência no meio-campo defensivo, conquistando tudo ao serviço do clube e da seleção. É, praticamente, um Ancelotti com menos duas décadas de experiência. Até agora, Alonso tinha planeado a carreira com cuidado. Creio que sabia o risco que corria ao mudar-se para o Real. A experiência falhou, por agora, mas deu-lhe conhecimentos valiosos para o futuro.
Em Leverkusen, Alonso tinha sido a única estrela e gozava de autoridade absoluta no clube. Influenciado pelo seu próprio estilo de jogo, deu estabilidade à equipa. Os jogadores aplicavam as suas ideias com convicção, mesmo que alguns aspetos da construção e da posse ainda estivessem pouco desenvolvidos. Após as vitórias no início da época, a convicção transformou-se em crença. Acresce que ninguém no clube, que se autointitulava “Vizekusen”, esperava títulos. Sob o comando de Alonso, o Leverkusen conquistou pela primeira vez o campeonato alemão, alcançando a dobradinha sem perder um único jogo.
Não eram más referências, mas o Real Madrid não é o Leverkusen. O espírito de Alfredo Di Stéfano, que conduziu o Real a cinco Taças dos Campeões Europeus entre 1956 e 1960, ainda paira no Bernabéu. Quando se trata do cargo de treinador, o Real Madrid é, numa forma ainda mais radical do que o Bayern, um clube de jogadores. O presidente Florentino Pérez é um homem extremamente poderoso, que investe muito dinheiro em estrelas. Apenas na Arábia Saudita Kylian Mbappé ou Vinícius Júnior poderiam ganhar ainda mais. Se um dos seus jogadores não conquista a Bola de Ouro, o presidente sente-se ofendido e cancela o evento.
Para ele, os treinadores são substituíveis, o que torna esta função a mais exigente do futebol mundial. Conseguir um espírito de equipa com os Galácticos é um feito. Aquilo que jogadores do Leverkusen absorvem, os de Madrid interpretam como limitação da sua individualidade e liberdade.
Trubin celebra o 4-2, com toda a equipa atrás de si
Até o “Special One” teve dificuldades com estas regras. José Mourinho, agora adversário do Real nos play-offs, também passou por Madrid. Quando assumiu o cargo, em 2010, estava no auge da sua carreira, depois de ter conquistado o triplete com o Inter. A sua obra-prima foi eliminar o Barcelona de Pep Guardiola, estacionando, como hoje se diz, o autocarro à frente da baliza no Camp Nou, de forma mais consistente do que qualquer outro antes ou depois. Quando soou o apito final, atravessou o relvado a correr como um louco. Via-se nos rostos dos vencidos: quem celebra assim uma batalha defensiva só pode ser um “esteta” muito particular.
Mourinho significa uma liderança forte. Considera os seus princípios pelo menos tão importantes como os jogadores. Sabia também que só derrotaria o todo-poderoso Barcelona dessa forma. Mas o Real não é uma equipa que se fecha à frente da baliza. Para convencer o plantel da sua tática, estava disposto a tudo. Fez a equipa atacar o Barça e expor-se perigosamente, para provar que assim não ganhariam nada. O Real perdeu 0-5.
O desaire ajudou o treinador a impor durante dois anos a sua visão orientada para o resultado. De facto, conquistou um título de campeão em plena era dourada do Barça, e os 100 pontos dessa época continuam a ser recorde em Espanha. Mas o estilo de Mourinho, embora altamente eficaz, é exigente para corpo e mente. Forçar o Real a jogar defensivamente é inviável a longo prazo.
Em 2013, pouco antes da saída de Mourinho, a sua equipa, desiludida e frustrada, perdeu uma meia-final em Dortmund por 1-4. Nessa derrota embaraçosa, Xabi Alonso, curiosa coincidência, abandonou o campo aos 80 minutos. Viveu, portanto, na primeira pessoa o risco de pressionar os jogadores do Real com ideias que contradizem a sua autoimagem.
Agora será interessante ver como o clube se reinventa. Para dominar a Europa, são necessárias circunstâncias especiais. Na era que, entretanto, terminou, figuras como Sergio Ramos, Luka Modric, Toni Kroos, Karim Benzema e Cristiano Ronaldo complementavam-se numa unidade superior à soma das partes. Era a forma régia de trabalho coletivo. Atualmente, no entanto, essa combinação ideal entre defesa, meio-campo e ataque não existe.
E um treinador com o perfil adequado ao Real, como o Ancelotti de 50 anos ou outro grande senhor do futebol, não está disponível no mercado. Os melhores treinadores da atualidade são Pep Guardiola, Mikel Arteta e Luis Enrique. Têm carisma, carregam o “gene” do grande treinador e possuem uma carreira ativa relevante, algo essencial no futebol de elite e imprescindível para sobreviver diante dos jogadores do Real. Mas são homens de convicções ideológicas, moldados pela escola do Barcelona.
Provavelmente não são a opção certa para Madrid. Seria um choque de opostos. O Real significa liberdade. Florentino Perez tem, por isso, um problema. Precisa de reforçar o meio-campo e a defesa com jogadores capazes de se impor ao lado de Mbappé e Vini Jr., para que volte a formar-se um “bando”, um grupo que estabeleça a sua própria ordem e hierarquia, que aguce os sentidos jogo após jogo, caçada após caçada. E que esteja ao nível do Real de Di Stéfano, Ancelotti e Zidane.