Liga dos Campeões

A história de encantar do Bodø/Glimt, o relâmpago vindo do Círculo Polar Ártico que não abranda

Os jogadores do Bodø/Glimt, com o capitão Patrick Berg ao centro, a festejarem a vitória contra o Inter e a passagem aos oitavos de final da Champions - na primeira época em que jogam na prova
Os jogadores do Bodø/Glimt, com o capitão Patrick Berg ao centro, a festejarem a vitória contra o Inter e a passagem aos oitavos de final da Champions - na primeira época em que jogam na prova
Francesco Scaccianoce - UEFA

Vindo de uma terra com 50 mil pessoas, com jogadores da casa e um treinador que está lá desde os tempos da segunda divisão, onde ainda jogavam em 2017, o Bodø/Glimt é a primeira equipa da Noruega a chegar aos oitavos de final de final da Liga dos Campeões. Eliminou o Inter com duas vitórias após ganhar ao Manchester City e ao Atlético de Madrid, tudo depois de a liga norueguesa acabar. Desde o Ajax de Cruyff, em 1972, que uma equipa fora dos big-5 não ganhava quatro jogo seguidos a adversários dos melhores campeonatos da Europa. E agora pode cruzar-se com o Sporting

Quando o rechonchudo Ronaldo Nazário, de bochechas inchadas a mostrar que idos vão os tempos de ‘Fenómeno’, posou ao lado do grisalho Christian Vieri no relvado, antes do jogo, ambos segurando molduras com camisolas do Inter estampadas com os seus antigos números, proporcionaram outro reflexo que poderia amedrontar o Bodø/Glimt caso se vissem ao espelho no Giuseppe Meazza: mais uma vez, em mais uma noite europeia, os noruegueses davam-se conta das diferenças abismais de estatuto face ao adversário.

O Internazionale, fora o restante rol de enormíssimas figuras com que já contou, homenageava dois dos melhores avançados já vistos em Itália que em conjunto marcaram 182 golos pelo clube. Os visitantes, para ripostarem, podiam dizer que o seu capitão, Patrick Berg, com mais de 300 jogos feitos pela equipa, é filho, sobrinho e neto de antigos jogadores do Bodø/Glimt, e que a sua braçadeira de capitão não era só tecido, mas sangue, tudo costurado com um sentimento familiar de pertença raro no futebol atual. Mas isso não amedronta adversários.

Coisa de duas horas mais tarde, derrotado o líder da Serie A com 10 pontos de vantagem, vice-campeão europeu, finalista de duas das últimas três Ligas dos Campeões e cujo valor de mercado do plantel nem vale a pena comparar ao dos noruegueses por já sabermos que servirá para acentuar o previsível, quem festejava no Giuseppe Meazza, um dos estádios emblemáticos do futebol europeu, eram os equipados integralmente de amarelo. Conseguem acreditar? Uma equipa de uma pequena cidade lá no norte, disse Kjetil Knutsen, o treinador, após a partida e feliz da vida com o feito inacreditável.

Vindos de Bodø, um lugar dentro do Círculo Polar Ártico da Noruega onde se apanham ferries para as Ilhas Lofoten e, ajudem as nuvens e a lua, há noites para se avistar a aurora boreal, todas as pessoas que lá vivem (perto de 50 mil) caberiam à vontade nas bancadas do recinto, em Milão, que presenciou mais um pouco da fulminante história ascendente do Glimt, como lhe chamam as suas gentes, fãs de se ficarem pelo nome que traduzido do norueguês significa clarão“ ou “relâmpago. É o que tem sido o clube, uma fonte de luz, desde que se mostra nas competições europeias.

Olhar para o seu percurso mais recente, neste ano civil, impressiona por si só. Desde a virada do ano, o Bodø/Glimt venceu o Manchester City (3-1), o Atlético de Madrid (1-2) e, agora, duas vezes o Inter (5-2 na eliminatória) na Liga dos Campeões onde, à entrada para as duas últimas jornadas da fase regular, tinha três pontos e ínfimas probabilidades na aferição das casas de apostas para sobreviver na prova. Desde 1971/72, época da segunda de três Taças dos Clubes Campeões Europeus conquistadas pelo Ajax de Johan Cruyff, que uma equipa fora dos big-5 não conseguia quatro vitórias seguidas contra adversários desses campeonatos.

Os noruegueses emularam a proeza, na prática, estando em pré-temporada, esfarrapando a teoria que diria estarem sem ritmo competitivo: a liga norueguesa, desavinda com o calendário habitual do futebol europeu para não coincidir com o rigor do inverno nórdico, terminou a 30 de novembro. O Bodø/Glimt acabou no segundo lugar da Eliteserien, a um ponto do Viking, mesmo sendo a equipa que mais golos marcou e menos sofreu. Nos últimos seis anos foi campeão por quatro vezes, a primeira em 2020, três após ser promovido à principal divisão do país.

Uma família sem magnatas por trás

Não é preciso rebobinar muito a finta para quem vem de Bodø recordar os tempos de irrelevância do clube no seu país. Presença assídua nos escalões secundários, sempre lhe custou rivalizar com as equipas mais a sul da Noruega onde preconceitos culturais erigiam uma sociedade arisca às pessoas do norte. Estranhavam-lhes o sotaque, maldiziam dos costumes, as regras então em voga condiziam: só a partir de 1972 as equipas nortenhas foram autorizadas a competir na primeira divisão. No início da década de 2010, o Bodø/Glimt estava mais preocupado em sobreviver.

Com as contas nas lonas e no limiar da falência, o clube conseguiu ficar à tona ao ver os seus organizarem concertos e lotarias de beneficiência, a venderem cachorros-quentes e a doarem dinheiro. Uma vez, quando estava num bar, um tipo até me deu 200 coroas [uns 17 euros] e disse-me: Aceita, precisas mais do que eu, salva o clube!, contou Runar Berg, ao The Guardian, filho de Harald, irmão de Ørjan e tio de Patrick, o atual capitão, uma versão norueguesa de Andrea Pirlo a ditar as posses de bola da equipa no miolo do campo.

Os jogadores do Bodø/Glimt a celebrarem a vitória contra o Inter no estádio Giuseppe Meazza, em Milão. É a equipa localizada mais a norte a disputar a Champions e a primeira da Noruega a alcançar os oitavos de final
MB Media

Ele representa o aconchego familiar do Bodø/Glimt que o próprio sumarizou, já esta época: Temos uma ligação social e amor uns pelos outros que nenhuma outra equipa na Liga dos Campeões pode igualar. Esse é o nosso fator X.

Sem um investidor de bolsos fundos a guarnecer o Bodø/Glimt com capital, no onze alinhado em Milão estavam nove jogadores noruegueses, muitos forjados em casa, conhecedor de olhos fechados de todos os cantos do clube - e que à casa tornam quando as aventuras lá foram não os fizeram sorrir. Berg regressou a Bodø após uma época em Lens com poucos minutos. O irrequieto extremo, Jens Petter Hauge, autor de dois golos na eliminatória contra o Inter, fez o mesmo depois de uma experiência no AC Milan. O defesa esquerdo Fredrik Bjorkan igual, ao deixar para trás tentativas no Hertha de Berlim e no Feyenoord.

O três retornaram sem prejuízo para o clubes, que os comprou por valores inferiores aos das suas vendas. É apetecível lá erm Bodø, no Glimt, e uma das explicações será a familiaridade, também, das caras de quem lá manda. “As pessoas são o grande motor dos acontecimentos”, disse Frode Thomassen, à Tribuna Expresso, o ano passado. O diretor-geral do Bodø/Glimt chegou ao cargo em 2017, mais ou menos quando Kjetil Knutsen foi contratado para ser treinador-adjunto. Na época seguinte já era o técnico principal.

O líder que não quer ir embora

Fiel ao 4-3-3 atacante, repleto de combinações de passe ao primeiro toque que empurrem todos os jogadores (mesmo todos) para a frente e alérgico à expressão sim, mas por nela só descortinar desculpas, a história de Knutsen é outra de encantar. Foi, durante década e meia, professor numa escola onde até deu aulas a Lise Klaveness, atual presidente da Federação Norueguesa de Futebol, e, aos 45 anos, ainda treinava na terceira divisão do país.

Kjetil Knutsen, treinador do Bodø/Glimt, a dar instruções aos jogadores durante a partida da 2ª mão do play-off de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões contra o Inter de Milão
DeFodi Images

Hoje, com 57, já rejeitou vários convites de clubes europeus, bem mais endinheirados, cedente ao poder de atração do Bodø/Glimt que lhe sabe a comida de conforto, daquela caseira. As pessoas são o mais importante. Têm mais significado do que troféus. Trabalhas sempre para ganhar, mas a alegria de ganhar juntamente com alguém, de haver um ambiente onde as pessoas se preocupam umas com as outras, tem maior significado. E sinto que criámos isso no clube, explicou à TV 2, um canal norueguês.

Knutsen vive a 100 metros do estádio da equipa, o Aspmyra, com arcaboiço para pouco mais de oito mil pessoas e um relvado sintético, obrigatório em sítio de gelo e neve. Há más-línguas que advogam contra o registo de apenas nove derrotas dos noruegueses em 39 jogos feitos em casa desde a estreia nas provas da UEFA, em 2020: o terreno plastificado é estranho para quem os visita. Mas isso serão desculpas, como as que o treinador não gosta de ouvir.

O primeiro grande abre-olhos da ascensão do Bodø/Glimt para o futebol europeu aconteceu em 2021, quando o goleou, por 6-1, a AS Roma de José Mourinho na Liga Conferência. A época passada ganhou ao FC Porto na Liga Europa, também na sua pequena fortaleza gelada onde, durante a semana, antigos jogadores se juntam para beber o café matinal na cantina do clube, misturados com os futebolistas da equipa principal; meses depois, eliminou a Lazio antes de só parar nas meias-finais, contra o Tottenham. Esta temporada, na estreia na Champions, já venceu três finalistas da competição.

Bodø está dentro do Círculo Polar Ártico, mais de 800 quilómetros a norte de Oslo, a capital da Noruega

Ainda em Milão, na noite de terça-feira, Knutsen não se quis baquetear no feito do Bodø/Glimt, o maior exemplo recente do que o futebol, como hoje é alimentado (conglomerados de vários clubes, investidores do Médio Oriente e uma Premier League com a qual é quase impossível competir em termos financeiros) e estruturado, permite cada vez menos. Antes, preferiu mostrar que é possível: Espero mesmo que tenhamos mostrado que, se nós conseguimos, então toda a gente consegue. Para mim, isso é o mais bonito de toda a história.

O piloto de jatos

É uma história cheia de pequenos pormenores que mostram ser possível, com poucos meios, competir com quem está apetrechado. Um deles, Bjørn Mannsverk, também chegou ao clube em 2017. Era um piloto de jatos da força aérea norueguesa, trabalhara para a NATO na base perto de Bodø e combatera no Afeganistão. O futebol dizia-lhe quase nada, só se lembrava de ver um jogo ao vivo. Proposto por Knutsen, o clube contratou-o para integrar a equipa técnica e mexer com a cabeça dos jogadores.

Ensinou-as a meditarem, a falarem entre eles e com os treinadores, coisa em que se acanhavam, e banalizou um hábito nos jogadores: reunirem-se numa pequena roda, no campo, após a equipa sofrer um golo. Chamam-lhe o anel, Mannsverk explicou os porquês à Sky Sports, em 2025: É importante assumir e ser honesto quanto aos nossos erros. Não é para culpar indivíduos, mas para ententermos o que precisamos de aprender com os erros.

Apesar de dedicar a maioria do seu tempo a trabalhar para um fundo de investimento estatal centrado na exploração de petróleo, Mannsverk dedica as sobras a trabalhar o psicológico dos futebolistas. Patrick Berg já falou sobre a ajuda que o antigo piloto lhe deu para largar as grilhetas mentais que o impediam de jogar solto do peso de ser filho, sobrinho e neto de lendas do Bodø/Glimt. Ulrik Satlnes, o outro capitão da equipa, tinha dores de barriga e diarreia causadas pelos nervos faziam dele um jogador de duas caras, muito bom nos treinos, discreto nos jogos; Bjørn Mannsverk ensinou-o a relativizar e desfazer-se da pressão absurda que colocava sobre si próprio.

Jans Petter Hauge a celebrar com Hasper Hogh o golo que marcou ao Inter, em Bodø (com neve à beira do relvado), no jogo da 1ª mão do play-off da Liga dos Campeões
Martin Ole Wold

Em janeiro de 2025, o agora recordista de partidas pelo Bodø/Glimt fez o mesmo exercício à Tribuna Expresso, mas com embalo positivo: “Estamos sempre a ultrapassar os nossos limites, a alterar o que achávamos ser o máximo possível. Ao longo dos últimos sete anos houve várias vezes em que julgávamos ter atingido o nosso limite de crescimento, mas, na verdade, havia um horizonte mais adiante para perseguir. Onde é que isto irá parar?”

Ninguém o saberá. Muito em breve, poderá passar por Lisboa, assim queira o sorteio da Liga dos Campeões, já que os noruegueses são a par dos ingleses do Manchester City os possíveis adversários do Sporting nos oitavos de final. Entre o futebol repleto de estrelas, abastado de meios, da equipa de Pep Guardiola, ou o intenso, desempoeirado e de peito-feito do Bodø/Glimt, não há tanto a separá-los em nível de dificuldade como a diferença dos nomes pode sugerir.

Porque a equipa vinda do Círculo Polar Ártico está cheia de benfeitoria nas suas pequenas coisas, assente nos pormenores sobre os quais talvez Cristian Chivu tenha ido perguntar a Kjetil Knutsen, mal o jogo da segunda mão terminou, em Milão. Ainda à beira do relvado onde Ronaldo e Vieri, mais tarde, brincaram que gostariam de ter dado uma perdinha durante cinco minutos, as câmaras apanharam os dois treinadores a conversarem animadamente. Mas os truques estão à vista de todos.

Em ano de regresso da seleção norueguesa ao Mundial (28 anos depois) e de o país ter liderado o medalheiro dos Jogos Olímpicos de Inverno, o Bodø/Glimt tornou-se o primeiro clube da Noruega a chegar aos oitavos de final da Champions. E isso só será surpresa para quem ande muito distraído.

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