17 minutos, três golos sofridos, uma substituição: a estreia de pesadelo de Kinský na Champions agravou o caos de Tudor no Tottenham
Antonín Kinský, caminhando para ser substituído após 17 desastrosos minutos
Bradley Collyer - PA Images
O checo, habitual suplente, jogou pela primeira vez na competição europeia, mas durou pouco em campo. Após sofrer três golos contra o Atlético, dois deles em lances caricatos, Igor Tudor, que somou a quarta derrota em quatro jogos nos Spurs, substituiu o guardião para “o proteger“. Os londrinos perderam 5-2, vão em seis desaires seguidos e há quem acuse o técnico de “matar“ a carreira de quem não jogava desde outubro
O que poderia correr pior, Tottenham? O que poderia ser mais problemático do que cinco derrotas seguidas, uma vitória nas últimas 14 jornadas da Premier League, ter apenas um ponto a mais que a zona de descida? O que poderia ser mais embaraçoso do que despedir um treinador, contratar o quarto interino nos últimos cinco anos e ter esse técnico com um registo 100% derrotado?
É, sim, possível fazer pior. Vamos lá tentar explicar.
Oitavos de final da Liga dos Campeões, primeira mão, em Madrid, contra o Atlético. Igor Tudor, contratado com o título oficial de treinador interino, decide deixar no banco Guglielmo Vicario, habitual guarda-redes titular, e apostar em Antonín Kinský, checo de 22 anos.
O jovem jamais atuara na Liga dos Campeões. Esta época somara somente duas presenças, ambas na Taça da Liga, a última em outubro.
A estreia durou 17 minutos. Nesse período de tempo, Kinský sofreu três golos, não fez qualquer defesa, o Tottenham abriu caminho para a sexta derrota seguida, algo inédito na história dos londrinos.
A Europa ficou a discutir a decisão de Tudor. Resultado final? 5-2. Registo do croata no banco dos Spurs? Quatro encontros, quatro derrotas, cinco golos marcados, 14 sofridos, um guarda-redes estreante substituído antes dos 20'.
Kinský a ser substituído por Vicario contra o Atlético de Madrid
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Os três primeiros toques que o ex-Slavia Praga deu na bola até foram os melhores da sua curta noite no relvado do Metropolitano. Na bola de saída, o Tottenham deu para o seu novo guardião, que recebeu, ajeitou e deu um chutão na frente. Minutos depois, desejaria ter sido capaz de repetir aquela ação.
Aos 6', na sequência de um pontapé de baliza, Romero tocou em Kinský. O checo escorregou e a bola foi parar aos inventivos pés de Ademola Lookman. O nigerano deu em Julián Álvarez, que serviu Marcos Llorente, 1-0.
Igor Tudor, de chapéu na cabeça, começou logo ali a esbraceçar. Com efémeras experiências recentes na Lazio ou na Juventus, ganhou fama de treinador de curto prazo, penso rápido. Só que, no Tottenham, tem sido mais o homem que aponta para a ferida do que aquele que a alivia: frente ao Fulham, na sequência da segunda das quatro derrotas que leva, disse que o seu coletivo tinha defiências “na defesa, no meio-campo, no ataque, no cérebro e na personalidade“. Onde é que não tem deficiências, então?
Aos 14', os fantasmas do Tottenham voltaram a lançar armadilhas para os pés dos jogadores visitantes. Micky Van de Ven escorregou e abriu caminho para Griezmann apontar o 2-0.
O desastre Kinský completou-se quando o jogo retomou. Bola para trás, o guarda-redes a tentar um passe de pé esquerdo, a bola a atrapalhar, um passe que foi um espirro para os pés de Julián Álvarez. 3-0.
Ato contínuo, o impensável: placa de substituição levantada. Sai Kinský, entra Vicario. O checo foi, cabisbaixo, direto para o balneário. Seria acompanhado pelos suplentes João Palhinha, Dominic Solanke e Connor Galagher, previsivelmente para o consolar.
Sem o réu criado por Tudor, o pesadelo não diminiu. Os Spurs ainda encaxariam golos de Le Normand e Julián, não conseguindo mais do que maquilhar o resultado através de Pedro Porro e Solanke.
As justificações de Tudor, as críticas de todo o lado
Na conferência de imprensa após o desafio, o croata reconheceu tratar-se de uma situação “muito rara“, que sucedeu para “proteger o jogador e a equipa“: “Antes do jogo, achei que, tendo em conta o nosso momento e a pressão em cima do Vicario, era a decisão correta. O Tony é um muito bom guarda-redes. Agora é fácil dizer que não foi a opção correta“, notou Tudor.
“Infelizmente, estes erros aconteceram num jogo grande. Ele lamenta o sucedido. A equipa está com ele. Já falei com ele, entendeu a razão da substituição“, garantiu o técnico.
Pedro Porro foi um dos companheiros de Kinský que deu apoio ao checo
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A opção de Tudor motivou críticos em todo o continente. Joe Hart, antigo titular da seleção inglesa, disse, na transmissão da TNT Sports, que “não é algo que se faça a nível de gestão de grupo“. Paul Robinson, ex-número um do Tottenham que também defendeu a baliza de Inglaterra, considerou, na BBC, ter sido uma atitude “egoísta“ por parte do treindor, um comentário semelhante ao que Jamie Carragher fez na cobertura da Paramount.
Mais longe foi Peter Schmeichel. O dinamarquês opinou que, ao substituir o checo aos 17', Tudor “matou a carreira“ do jovem. David de Gea, antigo guarda-redes do Manchester United que agora está na Fiorentina, manifestou apoio ao colega de posição nas redes sociais.“Quem nunca tenha sido guarda-redes não consegue entender o quão difícil é jogar nesta posição“, escreveu o espanhol.
Com a posição do croata altamente fragilizada no banco, o próximo compromisso dos Spurs é em Anfield, diante do Liverpool. A equipa está em 16º na Premier League, apenas com mais um ponto do que o Nottingham Forest de Vítor Pereira e o West Ham de Nuno Espírito Santo, adversários na luta pela manutenção.
Desde que Pochettino saiu em 2019, terminando um reinado de mais de cinco anos, o Tottenham tornou-se um foco de instabilidade. De então para cá, passaram cinco treinadores — Mourinho, Nuno, Conte, Postecoglou e Thomas Frank — pelo banco do norte de Londres, mais quatro interinos: Ryan Mason em duas ocasições, Cristian Stellini e, agora, Tudor.