O PSG-Bayern foi, provavelmente, um dos melhores jogos da história da Champions e um farol de esperança para o futebol
Um cenário muito visto na 1ª mão da meia-final entre o PSG e o Bayern de Munique: a bola a entrar dentro de uma baliza
YOAN VALAT
Noventa minutos, nove golos, imensas oportunidades, entretenimento brutal. O encontro entre o Paris Saint-Germain e o Bayern de Munique da 1ª mão das meias-finais da Liga dos Campeões proporcionou um espetáculo em esteróides, com marcação ao homem a todo o campo e os jogadores a assumirem o um para um, sem medos. Numa era de blocos baixos e laboratórios de bolas paradas, franceses e alemães pareceram estar a jogar outro jogo
Danados devem estar os apreciadores do taticismo das táticas do futebol, as que fecham os jogadores em copas, os recuam para blocos baixos e lhes dizem, se não um “não há vergonha nenhuma em defendermos cá atrás”, alguma variação dirão de “vamos esperar por eles mais perto da área, para não darmos espaço”. Coitados, terão dormido mal esta noite, em vez de sonhos com autocarros terão sido atormentados por pesadelos do PSG 5-4 Bayern de Munique.
O Parque dos Príncipes acolheu o jogo provavelmente rei desta Liga dos Campeões, por certo também um pretendente ao trono de todas as edições. Apetrechadas de jogadores talentosos até ao tutano, limadas por treinadores sem medos, as duas equipas fizeram-se uma à outra sem celeumas, nem cerimonias.
Pressionaram ao homem a todo o campo, arrastando o jogo para uma luta de marcações individuais que o elevou a uma estratosfera pouco vista por estes dias na modalidade açambarcada pela minúcia dada aos cantos, aos livres e a lançamentos laterais como arma para se ganhar um jogo: depender por inteiro da coragem, da ousadia e, ainda bem, do talento de cada futebolista. E do risco de fazer tudo depender no mano a mano.
Transformado num conjunto de situações constantes de um-para-um, o PSG-Bayern cedo se pintou como um festival de fintas, de serpenteio também. Ao ser alvo de uma marcação individual em que sítio do campo estivesse, cada jogador obrigado estava a dar vários toques na bola em cada ação para tentar ludibriar o marcador, desequilibrá-lo, fixar-lhe os apoios, fazê-lo hesitar ou afastá-lo por meio metro que fosse para se desembaraçar da marcação. Os dribladores, aceitando estas condições de jogo, chamaram-lhe um figo.
Michael Olise num dos vários mano a mano que teve com Nuno Mendes durante o PSG-Bayern
Lionel Hahn
Michael Olise teve lances de tal fineza técnica que fez Nuno Mendes parecer um defesa banal, aparentemente permeável nos duelos. Desiré Doué deambulou pela frente de ataque a dar toquezinhos suaves na bola, à queima de um corte iminente, sempre em cima do adversário. Luis Díaz correu frenético no meio de pernas. Com o seu vai não vai, a fingir que pretendia um passe no pé para enganar o marcador e afinal pedir a bola no espaço nas costas, Kvicha Kvaratskhelia dificultava a vida aos outros tanto quanto difícil é acertar no seu apelido à primeira, sem erros. Foi um deleite vê-los a aceitarem o reto: se era jogo para duelos individuais, todos exibiram uma personalidade descarada para os assumirem.
Neste jogo inteiramente de jogadores, ilimitados no talento e não limitados por ordens de treinadores para manterem a posição aqui, ou só darem um ou dois toques ali, o PSG marcou nos primeiros quatro remates que fez - o quinto esbarrou no poste - e o Bayern, encaixando três em 45 minutos, só fez uma falta até ao intervalo. Era jogo para ser jogado, não para ser parado. E só abrandou quando o árbitro soprou aquele apito característico de quando é mesmo o último.
A intensidade de tudo pasmou quem viu. A velocidade dos passes tremenda e as receções de caxemira, a rapidez com que as jogadas chegavam à área sendo raríssima a que não terminava na baliza. Kimmich e Vitinha foram sombras da batuta um do outro, maestros em resistirem à pressão para manterem a bola a rolar. O avançado Harry Kane mostrou a quem quis ver como é dos melhores médios do planeta.
Tanta a qualidade dos intervenientes e tão exímio o nível técnico do jogo que ficou demonstrado o melhor antídoto para apresentar a quem pretende mexer nas regras, logo na essência do futebol, para convencer Zoomers (nascidos nos anos 90) e Alphas (nos 2000) a tirarem os olhos do TikTok durante os jogos: basta desamarrarem os jogadores, deixem-nos livres para jogarem assim.
Não se viu o tácito acordo de esperar pelos golpes do outro no formato “agora atacas tu, depois ataco eu” em voga no futebol atual. Houve golos, foram nove, o que ajudou à vénia devida a este jogo. O de Olise, o artista que faz questão de calçar sempre chuteiras da mesma cor das meias, um requinte de como agir em espaços curtos; os de Kvaratskhelia uma lição de como bater na bola e rematar com precisão à baliza; nem um nico mais sublime podia ter sido a receção de Luis Díaz, em corrida e com a parte de fora do pé, antes de desconjuntar Marquinhos com uma simulação e marcar o seu; e o segundo de Dembélé foi o cúmulo da inteligência matreira, ao apontar o seu remate por entre as pernas do defesa para apanhar Manuel Neuer em contra-pé. Houve dois de penálti e outro vindo da cabeça de João Neves, o mais pequeno em campo.
Tecnicamente, o PSG e o Bayern jogaram outro jogo.
O georgiano Kvaratskhelia a escapar-se ao francês Upamecano
Alexander Hassenstein
E fisicamente. Os craques todos, sem exceção, corriam desalmados para trás, defenderam e esfalfaram-se a marcar o seu homem quando lhes tocava a vez. Ainda o 5-4 não acabara e Erling Haaland, no conforto de casa, partilhava uma imagem da sua televisão sintonizada no espetáculo, com a legenda: “Isto é futebol.” Rafael Leão também pegou no telemóvel para escrever “futebol de verdade” e bater palmas no X. Haverá prova maior de um espetáculo que convém bradar do que o reconhecimento vindo de dentro, de quem é da profissão? No segundo caso, vindo de um jogador criticado pelo que não dá sem a bola.
Ok, mas e a defesa?
Os elogios haveriam de vir. “Cada atacante fez um jogo de oito ou nove numa escala até 10”, enalteceu Jamie Carragher, na CBS Sports. “Temo-nos queixado de futebol aborrecido, hoje vimos duas equipas que quiserem jogar olhos nos olhos. Podemos entrar em pormenores, mas isto foi prazeroso de assistir”, elogiou o seu colega de painel, Thierry Henry. Não são uns quaisquer, ambos ganharam a Liga dos Campeões no seu tempo. Um dos responsáveis por dar trela ao que aconteceu concordou.
“Não posso refilar com os meus jogadores, mesmo que tenhamos sofrido quatro golos, todos viram o que queremos transmitir. Foi tempo de festa, foi tempo de festa o tempo todo”, opinou Luis Enrique, treinador que pôs o PSG a jogar assim, num inglês escorreito, mais fidedigno de se usar para descrever a partida: “It was party time all the time.” É injusto esperar que a segunda mão, em Munique, na próxima semana escale a semelhantes altitude, mas, ao mesmo tempo, como não ansiar por tal? “As duas equipas vão atacar”, previu Dembélé, “que seja outro jogo espetacular que dê prazer a nós e a vocês”, disse o atacante do PSG.
O treinador derrotado, Vincent Kompany, riu-se perante a questão de que este, um encontro com nove golos, terá sido um de equipas a descurarem o lado defensivo. “Vimos muita boa defesa, intenso e com duelos, mas as margens são tão, tão pequenas que só tens duas formas de lidar com isso: a primeira é ir a fundo, a segunda é retraíres-te por completo. O meio-termo não resulta contra este nível de jogadores, contra o nosso nível de jogadores“, explicou o belga à TNT Sports, demorando-se um segundo quando lhe perguntaram sobre o que podemos esperar do jogo da próxima semana, em Munique: “Mais, ainda mais.“
Kvaratskhelia, Doué e João Neves a celebrarem o primeiro golo do georgiano
MB Media
Houve retratores, sempre os há, desta feita juntos no argumento de que tantos golos significam que o lado defensivo do jogo caiu em pobreza. “Não acredito numa palavra que disse, tendo sido um dos melhores defesas dos últimos 20 anos, sobre estar feliz com a forma como defenderam“, disse Clarence Seedorf, voz respeitada na análise televisiva, à Amazon Prime, ao comentar as palavras de Kompany.
O antigo médio neerlandês deixou o seu ponto: “Tens de ter organização, defender é organização, seja baixo, em bloco médio ou alto. Tem que haver um equilíbrio. Sou todo a favor de jogares futebol atacantes quando tens a bola, ires para a frente e teres homens na área. Imaginas marcares cinco golos contra uma das melhores equipas do mundo, mas depois estás em casa a ver a final.“
Essa fava terá de calhar a uma das equipas, como há um ano saiu ao Barcelona, marcador de seis golos ao Internazionale na meia-final que partilharam: ficou 3-3 na 1ª mão e 4-2 na 2ª, um par de jogos que também mereceram fartos elogios pelo espetáculo que proporcionaram. Apologistas do equilíbrio, do mantra do que realmente importa ser o resultado, igualmente do sermão de ninguém se lembrar dos virtuosos que perdem estarão cá sempre para nos lembrar que os estetas motivam anti-corpos no futebol.
Mas se há maneira de cativar o interesse que os profetas da desgraça alertam estar a desvanecer por estes pontapés na bola, que já agora continuam a ser o tipo de pontapés mais visto, seguido e apreciado no mundo, é proporcionar mais jogos como este, em que as equipas põem os potenciais proveitos do risco bem por diante das possíveis consequências de arriscarem. A boa notícia: o Paris Saint-Germain e o Bayern de Munique voltam a defrontar-se na próxima quarta-feira. Tragam as pipocas.