Liga dos Campeões

Ficar no Atlético Madrid deixou Julián Álvarez com um ar abatido. A novela acabou, a reconciliação acaba de começar

O sul-americano foi titular pela primeira vez esta época na visita a Anfield
O sul-americano foi titular pela primeira vez esta época na visita a Anfield
Robbie Jay Barratt - AMA

Julián Álvarez tinha o sonho de jogar no Barcelona. Devido a uma quebra nas relações institucionais com o emblema blaugrana, o Atlético não entrou em negociações com os catalães. Enquanto lida com a fúria dos adeptos, o jogador tenta recuperar (emocionalmente) do abalo no cativeiro madrileno

A melhor altura para mudar o mundo é entre o momento em que se coloca a cabeça na almofada e o sono chegar. Diego Simeone teve assunto em que pensar durante a noite. Na véspera de visitar o Liverpool, o treinador estava convencido a deixar Julián Alvarez no banco de suplentes. “Não o vejo como titular, mas certamente vai ajudar ao longo do jogo”, antecipava.

Em condições normais, a melhor opção passava por fazer o contrário. Aliás, seria tomada com firmeza e sem que o decisor fosse açoitado por eventuais perturbações do sono. No entanto, utilizar La Araña implica lidar com os efeitos de uma transferência gorada para o Barcelona que nublou a mente do avançado com dramas e dilemas.

Simeone foi-se convencendo de que Julián Álvarez ainda estava em “fase de crescimento” e que não arriscaria usar na estreia na Liga dos Campeões o autor de 10 golos na última edição da prova. De repente, puff: mudança de planos. “Levantei-me de manhã, falei com ele e, por sorte, fez o jogo que esperava.” O treinador rojiblanco justificou assim a introdução de Álvarez no onze inicial em Anfield. Num clube movido a emoção, o impulso tem um certo peso.

O Atleti perdeu por 2-1, mas os madrilenos até começaram a ganhar. Marcos Llorente desmarcou-se nas costas da defesa do Liverpool e Julián Álvarez assistiu-o para o golo inaugural, anotado aos 17 minutos. Foi o primeiro sinal de vida da temporada para o jogador de 26 anos em recuperação psicológica.

O avançado assistiu Marcos Llorente na derrota do Atlético Madrid contra o Liverpool
Mateo Villalba

O tráfego emocional não abrandou durante o verão na cabeça de Julián Alvarez. Os maiores clubes do mundo demonstraram interesse em adquiri-lo, mas foi o Barcelona que o deixou com os olhos a brilhar. Os catalães tentaram convencer o Atlético Madrid a libertarem-no por um valor a rondar os €100 milhões e a mente do atacante pôs-se a caminho do Camp Nou.

O jogador de apelido aracnídeo ajudou a acartar a Argentina até à final do Mundial 2026, tendo sido titular na final contra a Espanha. O torneio não lhe ocupou a totalidade dos pensamentos. Num ato de total franqueza, considerou que uma transferência era “o melhor para todos”. Disse: “Quero cumprir um sonho.”

O Atlético Madrid mostrou-se disponível, em comunicado oficial, para “negociações próprias do mercado de transferências” desde que realizadas “de forma ética e profissional”. Por se sentir vilipendiado pelo Barcelona, o clube madrileno decidiu não discutir o futuro do jogador com o destino preferencial de Julián Álvarez.

A esperança de seguir para o emblema blaugrana foi obliterada do ponto de vista institucional, independentemente do valor da proposta realizada. Ainda assim, existiam resíduos de esperança no âmago do sul-americano. Miguel Ángel Gil Marín, o CEO dos colchoneros, avisou que houve pessoas que “enganaram” Julián Álvarez e que o deixaram “totalmente confuso”.

O interesse não correspondido do Barcelona foi alvo de troça nas redes sociais. Os meios oficiais do Atlético Madrid fizeram publicações nas quais demonstraram um interesse irónico nas principais figuras do plantel de Hansi Flick: a proposta por Lamine Yamal era um pack de quatro bilhetes para o concerto de Bad Bunny, uma subscrição anual do jornal espanhol ABC e um saco de sementes.

Os pombos-correio estiveram assoberbados a transportar mensagens para a frente e para trás. Apesar dos rumores, Álvarez ficou exatamente no mesmo sítio onde chegou em 2024, proveniente do Manchester City às custas de um investimento de €75 milhões fixos e €20 milhões em objetivos. “O caso Julián está encerrado”, decretou o presidente do Atlético Madrid, Enrique Cerezo.

Julián Álvarez com o aspeto abatido com que se tem apresentado nos jogos do Atleti
NurPhoto

O fecho do mercado inutilizou a continuidade da novela. O Atlético Madrid impôs a sua força e reteve o jogador. Não há dúvidas de que Julián Álvarez é um dos avançados mais temíveis do mundo, resta saber se vale o mesmo quando abalado psicologicamente.

Tomando o partido do clube, os adeptos aqueceram as orelhas do argentino na primeira vez que foi a jogo. O avançado que marcou 49 golos nas últimas duas épocas em Espanha foi assobiado antes, durante e após enfrentar o Villarreal, na 2ª jornada da liga espanhola. Ao contrário do que fez a restante equipa, no final, recolheu aos balneários sem aplaudir o Metropolitano. Seguiu-se um período de ausência dos treinos que coincidiu com os últimos dias da janela de transferências. O Atlético Madrid revelou que o afastamento se deveu a uma “indisposição”.

Estando o assunto arrumado, Simeone concedeu-lhe a primeira titularidade da temporada frente ao Liverpool. A expressão de presidiário abatido vai-se desvanecendo perante a inevitabilidade de continuar em Madrid, onde vai atravessar um longo período de reconciliação com a bancada.

No mesmo dia em que os rojiblancos saíram derrotados do terreno da equipa inglesa, o Barcelona goleou o Feyenoord (5-1) sem um ponta de lança clássico no onze. No meio da pândega, o suplente Gabriel Jesus marcou o primeiro golo pelo clube que não o tinha como prioridade no mercado.

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