Relatos de uma noite histórica para o Torreense na Liga Europa: “Estamos muito felizes, mas não queremos parar por aqui”
STIAN LYSBERG SOLUM
Há 10 anos que uma equipa da segunda divisão não vencia um jogo europeu: foi o Zurich, em 2016. Agora é o Torreense que figura como o mais recente autor de tal façanha. Os jogadores, incrédulos, falam de orgulho, de algo “difícil de explicar” após baterem o Lillestrøm por 2-1. Mas dizem também que a equipa de Torres Vedras “não tem medo” destes momentos. Já todos perceberam
“Ainda não estou consciente do que se passou. É um orgulho entrar na história do clube, de todos os adeptos. É um orgulho para mim e para a minha família”. Quando Alejandro Alfaro abriu o marcador para o Torreense aos 23 minutos frente ao Lillestrøm e entrou automaticamente na história do clube português, mal sabia que estava também a ajudar a escrever uma página no livro das maiores curiosidades das competições europeias.
Há 10 anos que uma equipa das divisões secundárias não ganhava um jogo na Liga Europa. O último a consegui-lo foi o Zurich, frente ao Osmalispor, a 29 de setembro de 2016, ainda na fase de grupos. Agora, está lá o nome do Torreense como o mais recente autor da façanha.
Na Noruega, ao golo de Alfaro seguiu-se o de Manuel Pozo, este já nos primeiros minutos da 2ª parte. O Lillestrøm, que chegou também à Liga Europa depois de vencer a Taça do seu país enquanto estava na 2ª divisão - está agora no principal escalão -, carregou muito, marcou já perto do final, viu o Torreense ficar com menos um homem, depois da expulsão de Jatta, mas o carnaval chegou mesmo no final do verão para a equipa portuguesa.
Manuel Pozo com a bola
STIAN LYSBERG SOLUM
“É difícil explicar, é algo histórico disputar estes jogos. Não viemos em passeio, viemos competir, mostrar que em Portugal há nível”. Javi Vázquez não só fez a assistência para o segundo golo do Torreense como foi um dos portadores das vozes emocionadas da equipa. Falou do início “de uma história bonita”, que não é para terminar aqui. O segredo, diz, foi “confiar” uns nos outros. A vitória já lhes estava na cabeça antes do jogo. “Era preciso personalidade, jogar como sabemos. Não tivemos medo de jogar estes jogos”, continuou o espanhol. Depois de bater o Sporting na final da Taça de Portugal, de dar água pela barba ao FC Porto na Supertaça, quem não acredita nestas palavras?
Cabeça também na II Liga
Há pormenores quase crueis nestes dias históricos. Um dele é perceber que um dos grandes obreiros deste Torreense europeu, Luís Tralhão, não foi autorizado a falar no final do jogo. As burocracias têm destas coisas: sem o nível 4 da UEFA, Tralhão tem de emprestar a sua voz a um adjunto. Carlos Simões fez questão de referir o líder da equipa técnica. “Quem devia estar aqui era ele”, sublinhou.
“Trabalhámos muito e fizemos um jogo quase perfeito. Os jogadores foram incríveis, a vitória é deles, dos adeptos, de Portugal. Escrevemos um pontinho na história, estamos muito felizes, mas não queremos parar por aqui”, continuou o Simões, sempre pronto a enaltecer o grupo de homens que, perto de Oslo, não quis travar o sonho de uma equipa que, nos últimos meses, vai vivendo ora nas nuvens, ora nas dores - apesar da vitória na Taça, não conseguiu a subida à 1ª divisão no derradeiro playoff e a nova temporada na II Liga não vai correndo de feição.
Isso também está na cabeça destes jogadores, um grupo “de muita dedicação”, que luta “até ao último segundo”. “Temos jogadores que estão de rastos, mas esta é a forma de perceber que o trabalho e a dedicação são o caminho”, apontou Carlos Simões, com a mente com um pé na história, outro no Tondela, que é o próximo foco. “Vamos trabalhar muito para a II Liga”.
Jogadores do Torreense celebram a vitória frente ao Lillestrom
STIAN LYSBERG SOLUM
E se é certo que talvez neste momento a prioridade do Torreense seja reerguer-se na segunda divisão, onde é apenas 14º, com uma vitória, três empates e já duas derrotas, a Europa tem outros feitos à espera de serem abocanhados pela equipa do Oeste, que já garantiu mais 450 mil euros nas suas contas com esta vitória.
Desde que a Taça UEFA/Liga Europa têm um sistema de grupos, agora de liga, só sete equipas das divisões secundárias jogaram a segunda competição da Europa. E apenas uma delas passou à fase seguinte: o Alemannia Aachen, em 2004/05. Olhando para os adversários do Torreense, não será fácil tal loucura. Mas é possível pensar em mais pontos: o Ararat, da Arménia, treinado pelo português Tulipa, surge como a hipótese mais plausível para a equipa de Torres Vedras continuar a surpreender.
Depois do jogo na Noruega, segue-se a receção ao Sunderland, a 15 de outubro. Depois uma viagem ao terreno do Ferencvaros, receções ao Ararat e Celtic, jogos em casa da Real Sociedad e Lech Poznan e fecho da fase de liga em Leiria, frente ao Olympiakos.