Muito antes de se deixar invadir pela angustia de evitar erros e antecipar o futuro próprio e alheio num tabuleiro, Filipa Pipiras teve de lidar com a doença da mãe. Era criança, talvez com nove anos, e não queria deixar o hospital para estar sempre, sempre ao lado de Natércia Fortuna. Certo dia, talvez para dar uma folga ao tenro e assustadiço pensamento de Filipa, o avô desafiou-a para a levar a um torneio de xadrez. Ela jogava na escola, mas não ligava muito. E lá foi. O segundo lugar, mesmo contra miúdos que jogavam há mais tempo, chegou como chegam as inesperadas boas notícias.
“Ganhar uma tacinha foi uma motivação. Fascinei-me pelo jogo. Foi de um momento para o outro, comecei a prestar mais atenção”, confessa Filipa Pipiras à Tribuna Expresso. Hoje tem 17 anos, acabou o 12.º na área de Ciências e ganhou uma certeza: é a primeira mulher da história do xadrez nacional a alcançar o top-10 absoluto. Ou seja, o ranking onde estão misturados homens e mulheres.
Tudo aconteceu no Sparkassen Chess Trophy, em Dortmund, há sensivelmente duas semanas. A jovem portuguesa alcançou também o estatuto de mestre FIDE [Federação Internacional de Xadrez] e conseguiu igualmente a norma de mestre internacional absoluta (à terceira ganha definitivamente esse estatuto). Tudo primeiras vezes para uma mulher no nosso xadrez. A partir de 1 de agosto, altura me que se renovam os rankings, Filipa Pipiras deverá surgir no top-100 mundial feminino, sendo que no escalão sub-18 estará na nona posição do mundo.
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