Modalidades

Paul Lim é avô, vem do tempo em que se pedia silêncio nos dardos e, aos 71 anos, tornou-se o mais velho a ganhar um jogo no Mundial

Paul Lim, de 71 anos, a lançar um dardo no Mundial de 2025, pouco após se tornar o mais velho jogador da história a vencer uma partida na prova
Paul Lim, de 71 anos, a lançar um dardo no Mundial de 2025, pouco após se tornar o mais velho jogador da história a vencer uma partida na prova
John Walton - PA Images

O septuagenário da Singapura que ainda se lembra de quando os dardos exigiam contrição, longe destes dias barulhentos, de música aos berros e fãs a beberem cerveja nas provas, venceu na primeira ronda dos Mundiais. Peter Lim aprendeu a jogar quando era chef de cozinha em Londres e já competiu pelo seu país, pelos EUA, até pela Papua-Nova Guiné. Para seu espanto, até Luke Littler, campeão do mundo e fenómeno adolescente da modalidade, já disse que prefere evitar jogar contra ele

Falem em dardos e na cabeça de qualquer pessoa acende-se um candeeiro, lá dentro a lâmpada basilar de a modalidade consistir em atirar, à vez e a 2,37 metros de distância, três setas, cada uma com ponta de borracha e cauda de aço, a um alvo redondo, emoldurado por 20 números. A lógica é decrescente, cada jogador começa com uma pontuação de 501 da qual subtrai a soma de pontos obtidos conforme onde acertou. Esta é a face técnica, mais desportiva dos dardos. A outra, lúdica e circunstancial, Paul Lim viu como foi de um espetro ao outro da escala em poucos anos. 

Os dardos, sendo um afazer germinado na cultura dos pubs britânicos, arrastam hoje todo um folclore, quase um circo de fanfarra nas maiores provas: são ocasiões barulhentas, enchem salões ou pavilhões, os fãs assumem ser Carnaval e mascaram-se, a sede impele-os a afogarem-se em copos de cerveja de meio litro e há música posta a tocar, aos berros, para acompanhar a entrada de um jogador em cena. Paul lembra-se do oposto: “Mudou muito. Antes, era pedido às pessoas que mantivessem o silêncio enquanto se jogava e estava tudo calado.”

A confissão, feita ao site “Global Darts”, serviu para recordar o Mundial de 2002 que significou o início de um abastado hiato para o singapurense, que tardaria 11 anos a qualificar-se de novo. “Agora, tudo é muito ruidoso”, constatou. No sábado, o bochechudo septuagenário teve a prova da evolução dos tempos bem perto, no interior do Alexandra Palace, a querida arena de Londres para onde migrou a pequena multidão que o saudou da plateia após se tornar, aos 71 anos, o mais velho a ganhar um jogo no Mundial. O recorde pertencia a John MaGowan e os 68 que tinha ao derrotar Chris Mason, em 2007.

Paul Lim superou o neerlandês Jeffrey de Graaf e no desfecho, rodeado pela pândega sonora, enalteceu que “só o facto de chegar aqui é um feito”. Nos segundos prévios a ser entrevistado no palco - sim, o Campeonato do Mundo põe os seus a competirem num púlpito - pela “Sky Sports”, o recordista virou-se para o público, fez um “v” com os dedos indicador e médio e presenciou a balbúrdia festiva hoje comum na modalidade: dezenas de cartazes no ar, barretes de Pai Natal nas cabeças, sombreros mexicanos, gente mascarada de Homem-Aranha e até chapéus a imitar uma caneca de cerveja.

Há cinco anos que Paul, um trota-mundos de setas em punho, não vencia no maior torneio da modalidade. A última vitória surgiu contra Luke Humphries, campeão mundial em 2024, que descreveu elogiosamente: “Coloca tanto esforço e tempo no que faz, honestamente, é um bom tipo, um gentleman, e um grande jogador. Mas pode ser derrotado. Espero que possa acontecer de novo, nunca vou desistir.” Lim falou sob o embalo do cântico “olé, olé, olé, olé”, sinal de estar nas boas graças de um público que poderá não manter a preferência contra o próximo adversário, inglês de 30 anos.

Paul Lim já não ganhava um jogo no Mundial de dardos há cinco anos
John Walton - PA Images

A admiração será maior do que as palavras intuíram. De Humphries ouvir-se-ia mais tarde a confissão de Paul Lim lhe dizer, por mais do que uma vez, que o britânico é o seu jogador preferido. Será então um reencontro prazeroso para o nascido em Singapura, pequena cidade-estado do sudeste asiático, que em criança pôs na cabeça a vontade emigrar para o Canadá e acabou por viver em Hong Kong, nos EUA e na Papua-Nova Guiné. Até já chegou a representar estes dois últimos países em provas internacionais. 

O avô que dará o prémio aos netos

Foi em Londres, onde aterrou aos 20 anos com bata de culinária na bagagem, que aprendeu a jogar enquanto trabalhava como chef em hotéis da cidade. Da cozinha pouco demorou a chegar aos pubs para lançar dardos e foram os salários ganhos entre tachos, panelas e passe-vites que lhe permitiram financiar as viagens para ir a provas.

Como a bem do espetáculo todos têm uma alcunha, a de Paul é há muito ‘Singaporean Slinger’, ou o ‘Atirador Singapurense’. Compete desde 1981 e esta é a 27ª edição do Campeonato do Mundo em que lança dardos. A um mês de soprar 72 velas, espanta-se com a veneração que o inunda no Alexandra Palace, uma espécie de casa-mãe da modalidade: “De alguma forma, sempre que jogo o público está do meu lado.” E surpreendeu-se ainda mais quando soube da aversão de Luke Littler, precoce fenómeno dos dardos, em enfrentá-lo no torneio.

O adolescente que vigora como atual campeão mundial, o mais novo a consegui-lo (tinha 17 anos e 347 dias), incluiu Paul Lim no dueto de adversários que preferia evitar neste Mundial, embora sem o explicar. O outro, já agora, é Beau Greaves, outro prodígio da modalidade. Em troca, o avô singapurense que dará o milhão de libras de prémio caso os astros se alinhem e vença a prova, apelidou-o de “o Tiger Woods dos dardos”, mal acreditando quando lhe contaram que merecia tal estima do adolescente: “Pensei que fosse uma brincadeira, que devia estar louco da cabeça!”

A estupefação, própria e alheia, não lhe é estranha. Em 1990, Paul Lim habituou-se à fama no mundo das setas quando foi o primeiro jogador capaz da proeza dos nove dardos no Campeonato do Mundo, que surge quando alguém vai dos 501 pontos ao zero usando o menor número de dardos possível. Sem isso, diria que ninguém saberia quem eu sou, disse, à BBC, quando os 25 anos do feito foram assinalados. Uma grande fatia da sua reputação tem aí a sua origem. Quem diria que seria um tipo da Singapura a conseguir o primeiro nine darter?

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