Modalidades

O Grand Slam Track, a primeira Superliga do atletismo, está insolvente e deve milhares a atletas

Sydney McLaughlin-Levrone, campeã olímpica dos 400 metros barreiras, participou nas provas do Grand Slam Track
Sydney McLaughlin-Levrone, campeã olímpica dos 400 metros barreiras, participou nas provas do Grand Slam Track
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A ideia parecia revolucionária: numa liga privada, juntar os atletas mais rápidos do mundo, pagando-lhe chorudos prémios monetários. Não resultou: a competição do antigo campeão olímpico e recordista mundial, Michael Johnson, tem dívidas de milhões de dólares a atletas e fornecedores, com a campeã Sydney McLaughlin-Levrone a ser uma das principais credoras

Se a Superliga de futebol teve uma furibunda receção por parte dos adeptos, que viam no projeto um delírio capitalista que ignorava o papel cultural e histórico de cada clube e a meritocracia que ainda é ponto de honra para o futebol europeu, o Grand Slam Track, equivalente para o atletismo, parecia uma porta aberta de esperança para uma modalidade que luta por protagonismo fora das semanas olímpicas e de Mundiais. 

Michael Johnson, antigo homem mais rápido do planeta nos 200 e 400 metros, era o ideólogo e impulsionador desta competição privada, fora da esfera da World Athletics, a federação internacional de atletismo que, ao contrário de UEFA e FIFA, deu as boas-vindas ao projeto. O Grand Slam Track, apresentado ao Mundo em junho de 2024, traria um novo formato, com importantes prémios monetários que chamassem os atletas mais velozes e mediáticos, apostando no que, por estes dias, parece agarrar as novas gerações: rivalidades, tecnologias, transmissões televisivas dinâmicas, redes sociais e análise de dados.

Gente como Sydney McLaughlin-Levrone, recordista mundial e bicampeã olímpica dos 400 metros barreiras, Gabrielle Thomas, campeã olímpica dos 200 metros, Melissa Jefferson-Wooden, atual campeã mundial dos 100 metros, Kenny Bednarek, vice-campeão olímpico nos 200 metros, ou Josh Kerr, prata nos 1500 metros em Paris 2024, disseram sim à chamada. Os 100 mil dólares (cerca de 85 mil euros) prometidos a cada vencedor das quatro etapas anuais do Grand Slam Track eram difíceis de olhar de lado face aos prémios monetários disponíveis nas competições oficiais da World Athletics - uma medalha de ouro nos últimos Mundiais, em Tóquio, este ano, valeu apenas 70 mil dólares. 

Michael Johnson foi o ideólogo e impulsionador do Grand Slam Track
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Mas ainda antes do arranque, em 2025, já algo não soava bem. A ideia de apostar nas maiores rivalidades do atletismo ficou desde logo comprometida quando estrelas como Femke Bol, Julien Alfred ou Noah Lyles declinaram participar. Lyles assumiu que a falta de patrocinadores o fez temer pela exequibilidade do projeto. E as dúvidas do campeão olímpico dos 100 metros tinham razão de ser. 

Logo neste seu primeiro ano, o Grand Slam Track revelou-se um fracasso mediático e comercial. As três primeiras etapas, em Kingston, Miami e Filadélfia, ficaram marcadas pelas bancadas quase desertas. E a derradeira prova, em Los Angeles, agendada para junho, já nem aconteceu. Por essa altura, já a empresa montada por Michael Johnson devia dinheiro aos atletas. 

Os criadores da competição falavam então da necessidade de refletir sobre um evento acabado de nascer, para não prejudicar a sua viabilidade a longo prazo. Mas, meses depois, a Superliga do atletismo não conseguiu levantar-se, afogada em dívidas e promessas vãs. No final da última semana, o Grand Slam Track declarou insolvência num tribunal do Delaware, assumindo ter menos de 50 mil dólares nas contas e centenas de credores, a quem deve, de acordo com a ESPN, “entre 10 e 50 milhões de dólares.” 

De acordo com o The Athletic, entre os atletas, Sydney McLaughlin-Levrone é a maior credora: são cerca de 300 mil euros que a barreirista tem a receber do Grand Slam Track. Gabrielle Thomas está a arder em mais de 200 mil euros e Kenny Bednarek em cerca de €190 mil. 

Regresso é incógnita

Ainda assim, e ainda que muitos credores exijam a suspensão imediata da liga até serem devidamente ressarcidos, Michael Johnson continua a defender a viabilidade do projeto. “Recuso-me a desistir da missão do Grand Slam Track e do futuro que estamos a construir juntos”, sublinhou o velocista, que ficou conhecido pelos seus ténis dourados nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996, em comunicado para a imprensa.  

Quem não parece muito convencido é Sebastian Coe, líder da World Athletics. Apesar do Grand Slam Track ser uma competição que faz concorrência às provas organizadas pela federação internacional, Coe nunca criou obstáculos à ideia de Johnson. Contudo, em julho já tinha alertado que as novas provas não podiam ser “projetos de vaidade” e que tinham de estar “orientadas para algo prático e viável”. Agora, mesmo não querendo entrar já a pé juntos quando questionado se vai permitir o regresso do Grand Slam Track em 2026, avisou que continua a ser a World Athletics “a criar e a fiscalizar o calendário”, deixando no ar a possibilidade de travar os intuitos de Michael Johnson. 

Fica assim num limbo a competição que prometeu revolucionar o atletismo, deixando atletas e fornecedores, para já, sem soluções. 

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