Modalidades

Phileas Fogg, onde já vais: batido recorde da volta ao mundo à vela

Thomas Coville celebra o Troféu Júlio Verne a bordo do Sodebo Ultim 3
Thomas Coville celebra o Troféu Júlio Verne a bordo do Sodebo Ultim 3
Mark Lloyd/ALeA/Getty Images

O troféu que foi inventado para a vela oceânica inspirando-se n’”A volta ao mundo em 80 dias” foi conquistado este fim de semana por uma equipa liderada pelo francês Thomas Coville. Circunavegação à vela completada à incrível média de 54 km/h, em 40 dias, 10 horas e 45 minutos

Nove anos depois, com várias tentativas fracassadas pelo meio, foi batido este fim de semana o recorde da volta ao mundo à vela.

A marca de 40 dias, 23 horas, 30 minutos e 30 segundos, obtida em janeiro de 2017 pela tripulação liderada pelo francês na Francis Joyon a bordo do trimarã Idec-Sport, foi agora reduzida em cerca de 13 horas.

O francês Thomas Coville, de 57 anos, capitaneando uma tripulação de seis velejadores no trimarã de 33 metros Sodebo Ultim 3, conquistou pela primeira vez como skipper o Troféu Júlio Verne, completando domingo a circunavegação do globo em 40 dias, 10 horas, 45 minutos e 50 segundos.

Com o nome do autor de “A volta ao mundo em 80 dias”, romance de 1873 onde Jules Verne contou as aventuras do inglês Phileas Fogg na aposta que este fez com amigos de que seria capaz de dar a volta ao globo naquele espaço de tempo (ou menos), este troféu foi pela primeira vez atribuído a um skipper francês em 1993. A bordo do catamarã Commodore Explorer, Bruno Peyron e a sua equipa completaram a circunavegação em 79 dias, seis horas, 15 minutos e 56 segundos.

O facto de agora o recorde estar em metade desse tempo diz bem da evolução da vela. O Sodebo Ultim 3 é o primeiro veleiro “foiling” (com patilhões em L que fazem o barco planar sobre as águas) a conquistar o Troféu Júlio Verne, tendo entre a partida e a chegada percorrido 28,3 mil milhas (52,4 mil quilómetros) a uma velocidade média de 29,17 nós (54 km/h). É mais do dobro da velocidade média feita por Bruno Peyron no recorde de 1993 (26,65 km/h).

Face à marca de 2017, os especialistas consideram a marca obtida no domingo como particularmente notável dado que, devido às condições da meteorologia e do mar, o Sobedo Ultim 3 foi obrigado agora a fazer muito mais manobras do que o Idec-Sport em 2017, aproximando-se perigosamente de icebergs nos mares do Sul.

As regras da competição são mínimas: a volta ao mundo terá de ser feita num barco que se mova exclusivamente à vela, podendo este ter a dimensão e a tripulação que o armador quiser; a linha imaginária de partida e de chegada está estabelecida entre os faróis da ilha de Ouessant (norte de França) e do Cap Lizard (sul de Inglaterra); e a rota faz-se da Europa para leste, sendo obrigatório passar a sul dos cabos da Boa Esperança (na África do Sul), de Leeuwin (Austrália) e Horn (Chile), por esta ordem.

Coville conquista agora o troféu pela primeira vez como skipper mas o gaulês já tinha estado duas vezes em tripulações vencedoras: em 1997, sob a liderança de Olivier de Kersauson, tripulante do Sport-Élec; e em 2010, com o skipper Frank Cammas, no Groupama 3.

Entre o recorde de 2017 e este realizaram-se quatro tentativas falhadas de conquistar o troféu, uma das quais, em 2020, protagonizada pelo próprio Thomas Coville, a bordo do mesmo barco agora vencedor. 16 dias após a partida, uma falha no leme a sudeste das ilhas Kerguelen (Índico sul) obrigou-o a desistir.

A primeira circunavegação do globo foi feita entre 1519 e 1522 pela frota do navegador português (ao serviço de Espanha) Fernão de Magalhães. Dos cinco barcos que partiram do porto espanhol de Sanlúcar de Barrameda apenas um completou a volta (a nau Victoria). O próprio Magalhães morreu a meio, numa batalha com indígenas nas Filipinas.

Em 1969, após 312 dias no mar, o britânico Robin Knox-Johnston, hoje com 87 anos, tornou-se no primeiro velejador fazer a volta ao mundo à vela em modo solitário, vencendo a “Golden Globe Race”, promovida pelo “Sunday Times”. Knox-Johnston doou o prémio de cinco mil libras à família de Donald Crowhurst, outro competidor da regata, que se suicidou após tentar falsificar a sua viagem ao redor do mundo (história imortalizada no documentário “Deep Water”).

A marca agora obtida por Thomas Coville no Sobedo Ultim 3 torna-se em mais um desafio para ser superado pelo mais recente super trimarã posto na água, o Gitana 18, dirigido pelo skipper francês Charles Caudrelier.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt