Scotty James, o snowboarder da Austrália que desliza com luvas de boxe e quer o ouro nos Jogos Olímpicos de inverno
As luvas vermelhas são uma imagem de marca de Scotty James
Jamie Squire
A proveniência não é a mais comum para um dos principais favoritos no snowboard (halfpipe). Scotty James vai participar pela quinta vez nos Jogos Olímpicos de Inverno. Em 2010, com 15 anos, tornou-se o atleta mais novo em meio século a fazer parte da competição. Com 31, já é um dos melhores de sempre, mas quer uma medalha de ouro para ficar de consciência tranquila
Em 2022, Scotty James já tinha concluído todas as manobras. Pese embora o risco envolvido nelas, a única hipótese de queda era do primeiro para o segundo lugar. O colapso aconteceu. Ayumu Hirano fez a melhor run da história do snowboard praticado em halfpipe e sagrou-se campeão olímpico em Pequim.
O australiano ficou-se pelo segundo lugar e regressou a um pódio no qual já tinha estado em Pyeongchang 2018. “Acho que o caminho é claro. Consegui o bronze, consegui a prata e há uma última coisa que falta na minha jornada de medalhas nos Jogos Olímpicos.” A premonição foi um dardo lançado a um alvo disposto quatro anos à frente.
Agora, por precaução, Scotty James também já anda com um cab triple cork 1440 no bolso. Estreou nos Winter X Games, uma reunião de variadas formas de expressão da radicalidade invernal, o truque que Ayumu Hirano usou para o superar na China. Basicamente, trata-se de uma manobra que implica quatro rotações e três off-axis flips. O melhor é mesmo ver.
Em competição nos Winter X Games, onde já conquistou sete medalhas de ouro
Ezra Shaw
Foi com todo esse aparato que Scotty James arrancou o sétimo ouro à superpipe dos Winter X Games. Em 2025, pelo quarto ano consecutivo, ficou em primeiro lugar e igualou o número de medalhas (dez) de Shaun White.
Uma taxa de entrada de $10
Aos 15 anos, de braço partido, estreou-se nos Jogos Olímpicos de Inverno e voltou para a escola para acabar o 9º ano. Com 31, vai para a quinta participação e, quando regressar de Milão-Cortina, terá Chloe Stroll, filha de Lawrence Stroll e irmã Lance Stroll, conhecidas figura do universo da Fórmula 1, à sua espera na casa de ambos no Mónaco.
Não foi por acaso que Toto Wolff esteve no seu casamento e o viu converter-se ao judaísmo, o que implicou cumprir tradições: usou um quipá em vez do boné da marca de bebidas energéticas que o patrocina, dançou numa cadeira e até pisou um copo.
Na primeira edição do Jogos Olímpicos de Inverno a conter o seu nome, as coincidências encarregaram-se de o levar até Vancouver, em 2010. Tornou-se no mais novo em meio século a fazer parte da competição. Foi na cidade canadiana que, com 3 anos, o pai lhe comprou por $10 a primeira prancha de snowboard, perdida numa loja de esqui. Scotty James regressou das férias com um brinquedo novo para atarraxar aos tornozelos.
Sochi 2014 foi o ponto de viragem entre a diversão e o cumprir das expectativas competitivas. Na Rússia, falhou a presença na semi-final dos Jogos Olímpicos por 1,25 pontos. As paredes do quarto do hotel levaram com a frustração. O capacete esvoaçou de um lado para o outro e Scotty James teve que deixar um pagamento extra na receção para que os buracos fossem reparados. Daí para a frente, foi quatro vezes campeão do mundo (2015, 2017, 2019 e 2025).
Kym Illman
Na ida ao podcast “The Red Flags”, Scotty James, natural de Warrandyte, foi comparado ao membro de uma equipa de bobsleigh da Jamaica, tamanha a discrepância entre o clima do país de origem e o desporto praticado. Nesse espaço de conversa sobre o mundo do automobilismo, acabou a explicar os princípios básicos da sua modalidade.
“O snowboard tem uma natureza muito relaxada. É mais aceitável ter essa energia no snowboard do que nos outros desportos”, expôs com o seu sotaque aussie e uma postura de quem é dono de si. “É desafiante encontrar um balanço. Tenho estado mais do lado de ‘vou arrasar com todos, não quero saber do que os outros pensam’. É uma boa característica para se ter.”
Esta mentalidade explica, em parte, as luvas de combate vermelhas que utiliza nas descidas acrobáticas, acessório que simboliza uma luta metafórica. No documentário que lançou na Netflix, o boxing kangaroo chamou “elefante na sala” à medalha de ouro que tanto deseja. “Sou um miúdo da Austrália que virou snowboarder profissional. As probabilidades estiveram contra mim a vida toda. O que é que tenho a perder?”