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12 anos depois, o hino da Rússia tocou nos Jogos Paralímpicos. Culpa de Varvara Voronchikhina: “Dedico esta medalha a todo o nosso país”

Varvara Voronchikhina juntou o título no Super-G ao bronze no downhill
Varvara Voronchikhina juntou o título no Super-G ao bronze no downhill
Linnea Rheborg

Tinha planeado estrear-se nos Jogos Paralímpicos de Inverno em 2022, quando o avô era vivo. Impedida de o fazer devido à suspensão da Rússia, dedicou-lhe a medalha de ouro que conquistou no Super-G (equi alpino). Aos 23 anos, Varvara Voronchikhina veio da Sibéria para dar ao seu país o primeiro título paralímpico desde 2014

Enquanto a guerra na Ucrânia continua, os atletas russos deixaram de ser obrigados a esconder-se atrás da neutralidade. Pela primeira vez desde 2014, a bandeira e o hino foram admitidos nos Jogos Paralímpicos de Inverno. Inicialmente, a Rússia foi sancionada por um esquema de doping apoiado pelo Governo. Os castigos mantiveram-se após a intervenção militar em território ucraniano, iniciada em fevereiro de 2022.

Em Milão-Cortina, existem seis atletas a representar a Rússia. Mesmo sem participar nos Jogos Paralímpicos de Inverno desde Sochi, o país tem 233 medalhas na competição, sendo que 84 são de ouro. A tradição de domínio viajou até Itália.

Ao sexto dia de competição, Varvara Voronchikhina ficou em primeiro lugar no Super-G (esqui alpino, em pé). A jovem de 23 anos foi a mais rápida (1:15.60) a concluir a descida pela encosta de Tofane. A francesa Aurélie Richard e a sueca Ebba Aarsjoe também tiveram honras de pódio, mas só a russa mereceu ouvir o hino.

Por respeito ao momento que se ia seguir, Varvara Voronchikhina tirou o gorro e cedeu às emoções. A esquiadora contava ter conseguido este feito em Pequim, mas a suspensão da comitiva russa impossibilitou-a de se sagrar campeã paralímpica enquanto o avô ainda era vivo, explicou à TASS. “Dedico-lhe esta medalha de ouro. Infelizmente, não pôde esperar para ver a minha vitória. Dedico esta medalha a todo o nosso país.”

Varvara Voronchikhina nasceu sem a mão esquerda
Maja Hitij

A esquiadora de Irkutsk, uma das maiores cidades da Sibéria, que nasceu sem a mão esquerda, está a fazer jus ao início promissor. Aos 21 anos já era campeã do mundo de Super-G e Super Combined. O título paralímpico surgiu após ter conseguido o bronze em downhill. Em Milão-Cortina, o compatriota Alexey Bugaev também garantiu um terceiro lugar (esqui alpino, downhill).

Varvara Voronchikhina começou a praticar esqui aos quatro anos. Na região onde nasceu, não era difícil encontrar neve. Em 2014, a atleta que esquia apenas com um bastão encontrava-se a lidar com dificuldades financeiras e foi uma das beneficiadas pela angariação de fundos levada a cabo pela antiga treinadora de ginástica rítmica, Olga Buyanova.

A participação de atletas russo e bielorrussos nos Jogos Paralímpicos de Inverno tem sido um tema controverso. A comitiva ucraniana faltou à cerimónia de abertura. A Chéquia, a Estónia, a Finlândia, a Letónia, a Polónia e a Lituânia apoiaram o boicote. Uma investigação do jornal “Vot Tak” revelou que a Rússia está a reforçar as seleções paralímpicas com soldados feridos na guerra da Ucrânia, sendo que existem “pelo menos 70” atletas integrados nas seleções nacionais.

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