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O ChatGPT é treinador, médico e psicólogo de Maksym Murashkovskyi, o ucraniano que levou a prata nos Jogos Paralímpicos de Inverno

Maksym Murashkovskyi, à direita, na cerimónia do pódio
Maksym Murashkovskyi, à direita, na cerimónia do pódio
Daniel Kopatsch/VOIGT

Maksym Murashkovskyi ficou em segundo lugar no biatlo para pessoas com deficiência visual. Após a prova, agradeceu à inteligência artificial pelo feito alcançado em Milão-Cortina

Olá! Sou atleta de biatlo. Podes-me fazer um plano de treinos para a próxima semana?

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Olá! Claro que sim! 😊 Como és atleta de biatlo (corrida de esqui + tiro), o ideal é equilibrar resistência aeróbica, técnica de esqui, tiro sob fadiga e força. Vou sugerir um microciclo semanal (7 dias) relativamente equilibrado. Se estiveres em pré-época ou época competitiva podemos ajustar depois.

O ChatGPT foi solícito na resposta dada ao pedido da Tribuna Expresso. Para começar, a ferramenta de inteligência artificial sugeriu um dia de treino dedicado à resistência e à técnica. A manhã começaria com “60-75 minutos de treino aeróbico leve/moderado”. Tanto poderia ser feito em esquis com rodas, a correr ou de bicicleta. Os 20 minutos seguintes seriam dedicados à “técnica de esqui”. À tarde, para aprimorar a “precisão e rotina de tiro”, a tarefa era fazer “40-60 disparos”.

As orientações continuavam para os dias seguintes e a proposta poderia ser melhorada prestando informações sobre o nível competitivo em que o atleta está inserido ou aspetos específicos que este queira melhorar. Continuámos a simulação com outro pedido.

– Sinto uma dor no tornozelo. O que posso fazer para melhorar?

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– Se sentes dor no tornozelo, é importante primeiro perceber a causa. Em atletas de resistência (como no biatlo), as causas mais comuns são sobrecarga, inflamação dos tendões ou uma pequena entorse (Entorse do tornozelo). Aqui ficam algumas coisas seguras que podes fazer para ajudar na recuperação.

Assim sendo, “reduzir temporariamente a carga”, fazer “15-20 minutos” de gelo “2-3 vezes por dia”, colocar uma “ligadura elástica leve” e “manter o pé elevado quando possível” são aspetos indicados como favoráveis à recuperação. “Exercícios leves de mobilidade”, como “escrever o alfabeto com o pé no ar”, também poderão ajudar.

As perguntas que Maksym Murashkovskyi faz ao ChatGPT não serão muito diferentes destas. O ucraniano sagrou-se vice-campeão paralímpico de biatlo, ficando em segundo na prova masculina para deficientes visuais. Foi a sua primeira medalha de sempre na competição. Normalmente, em momentos como este, a lista de agradecimentos é grande. Dedica-se a conquista ao país, à família, à equipa técnica e a todos aqueles que diretamente ou indiretamente tenham contribuído para o logro.

Murashkovskyi dedicou o seu feito ao ChatGPT, uma “revolucionária tecnologia”. “Não o uso apenas para táticas. Ele é um grande volume de todo o meu treino. Uso-o como psicólogo, treinador e médico”, assumiu. Embora tenha substituído elementos do staff por algo abstrato, continua a ter um guia, Vitaliy Trush, que o acompanha fisicamente durante as competições.

Maksym Murashkovskyi é guiado por Vitaliy Trush
Alex Grimm

Antes do louvor, o atleta de 25 anos teve que assegurar o segundo lugar. Com mais de dois minutos de vantagem, o chinês Dang Hesong venceu o título olímpico, superiorizando-se à legião de ucranianos que ocupou as cinco posições seguintes (numa corrida com 13 participantes).

A novidade nos Jogos Paralímicos de Inverno de Milão-Cortina é a possibilidade dos atletas russos competirem em representação da sua bandeira. Como forma de protesto, a comitiva ucraniana boicotou a cerimónia de abertura. “Quando a bandeira da Rússia sobe num palco internacional, torna-se parte da máquina de propaganda. A mensagem enviada para o mundo é que a Guerra é normal”, contestou o ministro da Juventude e Desporto ucraniano, Matvii Bidnyi. Após o ouro de Varvara Voronchikhina no Super-G (equi alpino), o hino do país que invadiu a Ucrânia ouviu-se pela primeira vez desde 2014.

Maksym Murashkovskyi não ignora a utilização militar da inteligência artificial. “É como na química ou na biologia. Pode ser usada para o bem ou para o mal.”

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: fsmartins@expresso.impresa.pt