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Depois do colapso nos Jogos Olímpicos, Ilia Malinin encontra a redenção com um terceiro título mundial na patinagem artística

Depois do colapso nos Jogos Olímpicos, Ilia Malinin encontra a redenção com um terceiro título mundial na patinagem artística
Joosep Martinson - International

O prodígio norte-americano da patinagem no gelo, de 21 anos, vingou-se da debacle de há um mês e, com um programa limpo, em que não arriscou o quádruplo axel, conquistou o seu terceiro título mundial consecutivo. Em Praga, não precisou de ser extraterrestre: Malinin apenas queria voltar a sentir o doce sabor do ouro

O cabelo cortado de Ilia Malinin, mais boy next door, menos herói de Zelda, como que mandava abaixo os graves do rock pesado que sempre parece sair das serrilhas do norte-americano. Há um mês, o jovem de 21 anos viveu a desilusão de uma vida. Era uma das figuras mais cintilantes no dealbar dos Jogos Olímpicos, um daqueles atletas únicos porque prometia coisas inéditas, saltos impossíveis, feitos históricos.

Depois de ser o melhor no programa curto da patinagem no gelo, o programa livre foi digno dos filmes de terror mais assustadores e inesperados. O mais completo atleta que a modalidade provavelmente já viu, que meses antes tinha conseguido um programa com sete saltos quádruplos, um deles o temível axel, falhou salto atrás de salto, caiu duas vezes, desaparecendo aos poucos o semblante feliz e audaz de sempre para se transformar num desespero de quem não compreende que fio se desligou no momento mais solene.

Malinin fez apenas o 15º registo no programa livre olímpico, terminando em 8º na geral, de uma prova que teve um vencedor surpresa, o cazaque Mikhail Shaidorov. Seguiram-se declarações sobre uma pressão para a qual Malinin não estava preparado - ou não o souberam preparar. Não será o primeiro nem seguramente o último atleta extraterrestre a sucumbir na primeira viagem olímpica.

Tivesse sido Ilia Malinin ouro olímpico e talvez o norte-americano tivesse terminado a época por ali, tal como fez a sua compatriota Alysa Liu, que preferiu não participar nos Mundiais. Mas Malinin tinha uma imagem para limpar. E por isso apresentou-se em Praga, nuns Campeonatos do Mundo com várias ausências, nomeadamente a de Shaidorov, para tentar um terceiro título mundial consecutivo.

Na capital da Chéquia, viu-se, logo no programa curto, um Malinin menos exuberante, mais maquinal. Não será bom para o espectáculo, mas foi seguramente uma âncora para a sua concentração. Partiu, tal como em Milão-Cortina, no topo para o programa livre, onde prometia, na lista de elementos inicial, executar sete quádruplos, todos os truques existentes, incluindo o axel.

Mas o quádruplo axel, salto que ele e apenas ele conseguiu completar em competição, não apareceu. Malinin, mais preocupado em fazer um programa limpo do que ver as suas asas derreterem por estar tão perto do sol, trocou-o por um mais terrestre triplo axel, juntando-lhe seis saltos quádruplos, três deles em combinação e o já famoso backflip, o mortal para trás que Malinin faz apenas para regozijo seu e do público, até porque não dá pontos.

Para um comum mortal, isto seria um programa extraordinário, um tour de force físico e atlético. Para Malinin foi jogar pelo seguro. Depois do que aconteceu nos Jogos Olímpicos, precisava de o fazer, de voltar a sentir a capacidade de ganhar. Ser absolutamente extraordinário pode ficar para depois.

No final, Malilin frisou exatamente que o seu desejo era fazer “um programa livre sólido”, uno, sem quedas ou saltos desfeitos, erros próprios de quem só sabe levar a vida a arriscar. Isso bastou para ficar 23 pontos à frente do japonês Yuma Kagiyama, prata nos Jogos Olímpicos e que repetiu a medalha nos Mundiais depois de limpar um programa curto menos conseguido com uma extraordinária apresentação, tecnicamente quase perfeita artisticamente emocionante, no longo. Ainda assim, o arsenal de saltos do nipónico está longe da complexidade do de Malinin. Shun Sato foi 3º, também tal como em Milão, com o francês Adam Siao Him Fa mais uma vez, e tal como nos Jogos Olímpicos, a tombar dos lugares de pódio depois de um programa livre desastrado.

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